A Rede de Museus do Algarve (RMA) manifesta-se solidária com Emanuel Sancho, diretor do Museu do Traje, afastado do cargo pela Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel.
No decurso da reunião geral da Rede de Museus do Algarve (RMA), realizada na segunda-feira, dia 23 de setembro, no Palácio Gama Lobo, em Loulé, «foram os seus membros surpreendidos pela notícia e comentários, que referiam a suspensão do diretor do Museu do Traje de São Brás de Alportel, Emanuel Sancho, e o impedimento de sua entrada neste espaço museológico, por parte do Provedor e da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia daquela vila».
Como se sabe, «Emanuel Sancho em funções como diretor do Museu do Traje, tutelado pela Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel, há mais de 25 anos, veio dar continuidade aos trabalhos de recolha etnográfica do Padre Cunha Duarte. Sob a sua liderança tornou-se um museu de referência no interior algarvio, não só pelas suas colecções (exemplarmente organizadas em reservas visitáveis), investigação que desenvolve, acervo documental, mas especialmente pelas suas dinâmicas na área da museologia social e na relação com a comunidade multicultural onde está inserido», refere a nota da RMA
«Um museu atento às questões da atualidade, às transformações no tecido social de São Brás de Alportel, que nas suas iniciativas (exposições, encontros, palestras,…) procura refletir, questionar, reagir e envolver. O Grupo de Amigos do Museu de São Brás de Alportel, que conta com cerca de 400 membros, é um dos mais dinâmicos dos museus do Algarve», lê-se ainda.
Emanuel Sancho, «protagonista destas dinâmicas, foi um dos fundadores em 2007 da Rede de Museus do Algarve(RMA) e tem sido presença inspiradora para os colegas na área da museologia social. Foi distinguido recentemente com o prémio de Museólogo do Ano, atribuído em 2021, pela Associação Portuguesa de Museologia. Tem desenvolvido um trabalho continuado, consistente, inovador e sabido defender no Museu do Traje, um espaço de autonomia e liberdade, reconhecido pelos museus dentro e fora de fronteiras, que a tutela começou a questionar desde 2016, abalando a estabilidade do trabalho desenvolvido».
A nota de apoio é assinada pelo Grupo Coordenador 2022-2024, constituído por Catarina Oliveira (CIIP Cacela / Município de Vila Real de Santo António), Hugo Oliveira (Museu Municipal de Olhão), Idalina Nobre (Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira), José Gameiro (Museu de Portimão) e Maria José Gonçalves (Museu Municipal de Arqueologia de Silves).
«As razões profundas deste confronto desigual, entre a Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel, o Museu do Traje e o seu diretor, devem-se às atitudes unilaterais e contraditórias da tutela que, ao longo deste tempo, têm fragilizado a entidade museológica e o seu louvável serviço público. A luta diária que visa a dignificação do Museu e dos profissionais e voluntários que nele trabalham só pode ser verdadeiramente alcançada através de um amplo e normal nível de autonomia, indispensável ao cumprimento das funções sociais que lhe são inerentes», defendem os coordenadores da RMA.
No ano em que se celebram os 50 anos do 25 de Abril e à beira de dinamizar as suas sétimas Jornadas, em Lagos no dia 18 de outubro, sobre «Construir a Cidadania: Museus, Mediação e Participação nos 50 anos do 25 de Abril», a RMA e os seus membros, «preocupam-se e indignam-se com a decisão da tutela que conduz ao seu afastamento da direção, solidarizam-se com o seu colega Emanuel Sancho e disponibilizam-se para lutar pela sua permanência à frente de um museu que é uma referência na região, no país e fora de fronteiras».
Foto: Bruno Filipe Pires