Projeto «Fotografia, Memória e Identidade» do Museu do Traje, em São Brás de Alportel, decorre todas as tardes de quinta-feira, desde há 12 anos. Objetivo é construir um arquivo do povo.
Dizia-se, antigamente, que a Argentina era «a terra dos esquecidos». Quem para lá imigrava, nunca mais dava notícias. Para trás, no barrocal algarvio, ficava mulher e prole. Um pai de família de Alportel despediu-se dos vizinhos e da filha pequenina.
«Esta só voltou a saber do pai quando fez 18 anos. Recebeu uma carta com dinheiro para comprar uma máquina de costura. Naquele tempo, era a forma de garantir o futuro de uma rapariga jovem», conta Emanuel Sacho, diretor do Museu do Traje.
Os tempos já lá vão, muitos dos protagonistas também, mas ficaram as fotografias e ainda há quem se lembre e queira deixar as histórias gravadas para a posteridade. Foi com esse objetivo que nasceu o projeto «Fotografia, Memória e Identidade» que decorre todas as tardes de quinta-feira, desde há 12 anos.
«Quando iniciámos, fizemo-lo tal como muitos outros museus fazem. Lançámos uma campanha de recolha e um apelo à comunidade para nos ceder fotografias antigas. A verdade é que nos primeiros anos, o sucesso não foi muito. Havia uma outra pessoa que trazia o seu álbum, nós digitalizávamos e devolvíamos. Era um pouco impessoal. Claro, íamos enriquecendo um acervo, mas estava estacionário, pouco evoluía. A determinada altura, percebemos que as fotografias precisam de ser identificadas porque o doador só consegue identificar um dos sujeitos. A dado momento convidámos pessoas idosas, da terra, para as tirar do anonimato», descreve o responsável.
O grupo cresceu, e «rara é a semana em que não há uma cara nova». Cada sessão é simples. Um projetor de vídeo mostra as imagens e começa a tertúlia. Emanuel Sancho abre a base de dados e começa a tirar notas. Surgem nomes do fundo da memória, as dúvidas e contradições. E o espanto. Um dos participantes, hoje com 72 anos, reconheceu-se na fotografia de uma excursão a Alvor, em 1963. Foi um frete da camionagem Pilar, de Tavira, que levou «malta» numa aventura ao litoral, perto, mas muito longe. E pelo meio surgem celebridades, como «a bomba atómica» alcunha da rapariga mais bela de São Brás, que acabaria por casar com o «torpedo», o equivalente masculino.
«A variedade temática das imagens origina debates e conversas muito interessantes. Eu diria que uma grande percentagem dos álbuns mostram-nos retratos, caras de pessoas. Mas existem outros temas. Por exemplo as viagens, militares de todo o tipo, desde a Primeira Grande Guerra ao Ultramar», descreve Emanuel Sancho. O curioso também é que este projeto é enquadrado «nos serviços educativos para seniores». Porquê? «Porque estas pessoas entram por este clube de fotografia, como uma curiosidade e um divertimento. Para muitas é a primeira vez que entram num espaço de Museu. E a partir daí, o seu horizonte cultural começa a alargar. Descobrem que há um grupo de teatro e um coro. Há quem venha com a nostalgia do passado e abre-se-lhe um novo leque de interesses. Há quem até tenha despertado para o jazz», garante.
Conta corrente no banco de memórias
Numa altura em que a Rede de Museus do Algarve vai discutir «Museus para quem?» nas jornadas de dia 16 de novembro, em Olhão, este pode ser um exemplo prático da resposta. «Todos os dias somos surpreendidos com o rumo mais ou menos aleatório que isto vai tomando. Nunca tive o objetivo dirigido de aumentar o acervo, inventariar e obter mais informação sobre cada fotografia. Não. Trabalhamos lado a lado com a comunidade e deixamos que tenha a sua parte no processo», explica Emanuel Sancho. «Começa a nascer uma situação inesperada. As pessoas começaram a dizer que gostariam que as fotografias dos seus familiares ficassem aqui guardadas. E depois vão juntando os netinhos que nasceram e pedem para juntar, como se isto fosse uma conta corrente num banco. É a identidade das suas famílias que tem um lugarinho reservado lá dentro do Museu da terra. Neste momento já temos 600 famílias. É graças ao caminhar lado a lado com as pessoas, dando-lhes espaço para intervirem e para as suas opiniões que somos surpreendidos com situações destas», conta Emanuel Sancho, que já tem cerca de 50 mil imagens no acerco. «O meu trabalho é escrever. Quando a história é tão rica, fazemos uma entrevista em vídeo de recolha etnográficas. Temos quase 1000 registos. Este corpo é o lastro do museu», que um dia poderá vir a ser disponibilizado online.
Passado bastante presente
«Com esta questão de as pessoas começarem a juntar tudo o que têm de interesse sobre as suas famílias, para juntar às fotografias, têm surgido cartas, documentos e recortes de jornais. No início do século XX há uma grande imigração de São Brás de Alportel para Marrocos. Como é que iam para lá? Tal e qual como agora vêm os imigrantes do norte de África para cá. Metiam-se nos barcos dos pescadores, que cobravam qualquer coisa pela viagem, e iam deixá-los na costa marroquina, de onde, a partir daí, seguiam a sua vida», descreve Emanuel Sancho, cuja mãe nasceu em Casablanca. «O meu avô era canteiro e foi para lá trabalhar a pedra. Mas havia pessoas de várias profissões, como alfaiates. Recordemos que nessa altura, Marrocos era uma colónia francesa. Havia uma cultura misturada, árabe e europeia. A dada altura, alguém que nos trouxe uma notícia sobre um grupo de 20 pessoas de Estoi e São Brás que imigra clandestinamente para Marrocos, mas nunca chega lá. Há um naufrágio e até morre um bebé. Ou seja, as semelhanças com o que está a acontecer neste momento, são quase impressionantes», compara o diretor do Museu do Traje. A atualidade do passado gera controvérsia no grupo do projeto «Fotografia, Memória e Identidade». «Surgiu logo um debate sobre as questões da tolerância». Há quem defenda que os imigrantes hoje «vêm roubar-nos os trabalhos. Mas afinal, os nossos avós, fizeram exatamente a mesma coisa. Iam para lá clandestinos porque lá havia trabalho. Não há notícia de terem sido repelidos. Foram aceites e souberam viver em paz e em boa convivência. Se calhar, agora é a nossa vez de retribuir».
Genealogia das casas e toponímia popular
«Claro que entre os anos 1910 a 1940, não havia muita gente interessada a fazer levantamentos urbanos das fachadas das casas» sendo que as imagens que hoje se conhecem eram quase por acaso. «Por exemplo, havia uma procissão e aparecia a sequência de uma rua, ou situações deste género. Aparecem algumas fachadas de casas. Aqui vamos recriar a genealogia desses edifícios. Qual é a ocupação mais antiga que se lembra desta casa? Que funções teve? Quem ali viveu? Quando é que uma janela se transformou em porta?». Mas mais curioso é o levantamento da toponímia popular. «Vou buscar o mapa da vila ou do concelho para identificar aqueles lugares que não estão nos mapas oficiais, as denominações dos caminhos, dos poços. Havia um sítio que era a a Terra da Tumba. São elementos que até nos dirigem para a arqueologia. É porque havia ali um enterramento em alguma altura da história», explica. «A toponímia popular dá-nos informações muito interessantes. E algumas que, se ninguém tomar já nota, perdem-se para sempre»…

