A Alfaia e as Galerias Municipais de Loulé apresentam «Sal na Ferida», uma exposição de Amanda Triano (Madrid, 1995) e Cláudia Simões.
A mostra nasce de uma residência artística, realizada em 2024 pelas artistas no território de Loulé e que resulta em obras inéditas que exploram a interseção entre paisagem, memória e elementos simbólicos da região.
Por meio da escultura, instalação e fotografia, as artistas constroem um diálogo sobre tempo, corpo e transformação. O sal, material que simultaneamente conserva e corrói, emerge como a grande metáfora da exposição, evocando processos de cura e a passagem inexorável do tempo.
Amanda Triano investiga a relação entre o natural e o artificial, criando um espaço expositivo onde a natureza é arquivada, fossilizada e mediada pela tecnologia, cujas obras questionam a obsolescência e a impermanência dos materiais, propondo assim uma reflexão sobre os impactos do desenvolvimento tecnológico no mundo natural.
Cláudia Simões, por sua vez, parte da semente como símbolo de memória e renovação. Através da fotografia e da materialidade dos seus processos, investiga o ciclo de nascimento, ruptura e renascimento, estabelecendo um paralelismo entre a efemeridade do corpo e da paisagem e a tentativa humana de fixar a memória.
«Sal na Ferida» convida assim o público a habitar um espaço de tensões e instabilidades, onde as camadas do tempo e da matéria se entrelaçam, revelando fragilidades e possibilidades de reconstrução.
Esta exposição está patente na Galeria Praça do Mar, em Quarteira, até ao dia 15 de maio de 2025.
Cláudia Simões (n. 1998)
Éuma artista multidisciplinar, oriunda de Sintra, que vive e trabalha atualmente na cidade do Porto. Licenciada em Arte Multimédia, na vertente de Fotografia, mestre em Crítica, Curadoria e Teorias de Arte e pós-graduada em Discursos de Fotografia Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
A artista descreve o seu trabalho como fruto de uma constante relação com o mundo natural e, por conseguinte, espiritual. Assume as suas capacidades de superação e crescimento como intimamente conectadas às suas emoções, que estão, por sua vez, enraizadas à sua criatividade. Articulando conceitos como luto, memória, ausência, organicidade e imaterialidade, reconhece-se como uma «agricultora de nitrato de prata», onde o semear, a espera e a contemplação são elementos imprescindíveis à sua expressão autoral (principalmente) na fotografia, muitas vezes alternativa e experimental, e que envolve a «colheita» e recolecção de artefatos da Natureza.
Durante o seu percurso tem vindo a desenvolver um profundo interesse pela inconvencionalidade da «imagem» e «fotografia», teorizando-as e investigando as diversas possibilidades que esses conceitos lhe permitem, nomeadamente na sua experimentação. Considera que o que há de mais interessante na prática fotográfica é a sua não-durabilidade, por tudo na Natureza ser fotossensível. No seu processo reflete acerca da efemeridade através do único meio reconhecido como o que estagnará o memento mori. É nas diversas caminhadas que a sua prática lhe exige, no sair porta fora e no experienciar o movimento de todas as coisas, que cláudia simões considera que a parte integral do que se é reside, no «espaço-entre» – nas folhas, terra e pedras que traz consigo como memória de que o fluxo é eterno, mas também os rios um dia pararão de correr. A caminhada é, portanto, o factor fulcral no seu processo, enquanto experiência única contida num espaço-tempo fugaz, e que se relaciona com a sua não eternidade enquanto ser-consciente.
Amanda Triano (Madrid, 1995)
Trabalha sempre a partir da veracidade do objeto artístico como representante do mundo ao nosso redor. Sua prática examina as maneiras complexas e frequentemente contraditórias com que os seres humanos se relacionam com o mundo natural, borrando as fronteiras entre o orgânico e o artificial, o natural e o industrial. Seus últimos projetos são concebidos como um cenários que investigam as transformações da Natureza ao longo de escalas geológicas profundas, permitindo explorar a alteridade do mundo contemporâneo e refletir sobre a relação entre o desenvolvimento tecnológico e os princípios do mundo natural. As suas exposições geram novas possibilidades de codependência entre os acontecimentos e os objetos expostos, abordando uma certa impressão manifesta de «queda do tempo» — a decadência, a ruína e a obsolescência do tempo histórico. Aqui, a Natureza não é mais um organismo dinâmico, mas um registro de algo que já foi — uma Natureza arquivada, musealizada, fossilizada, mediada pela tecnologia, pela cultura, pela história e pelos processos humanos de representação.
Amanda estudou Belas Artes e Design Gráfico na TAI University School of Arts, em Madrid, onde se graduou em 2020 com distinção, recebendo uma bolsa de mérito pela videoinstalação LETE e um prémio na categoria de Artes Digitais pelo vídeo A través, apresentado no Festival Entre Paredes (2020).
Atualmente, reside em Lisboa, onde conclui um Mestrado em Arte Multimédia na Faculdade de Belas Artes, com especialização em Transmedia Art e Performance. Amanda participou de diversas exposições coletivas em espaços como o Fluxus Museum, na Grécia (2024); Galeria Sem Forma, no Porto (2023); e Brotería, em Lisboa (2023).
Trabalha na sua segunda exposição individual, programada para agosto de 2025 no Museu de História Natural e da Ciência de Lisboa, um projeto que expande sua investigação crítica sobre a objetificação e o controle da Natureza no contexto da arte contemporânea.