Mais de 400 papagaios-do-mar foram encontrados mortos na costa portuguesa. A SPEA associa o fenómeno às tempestades e pede registos na plataforma ICAO.
A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) contabilizou mais de 400 papagaios-do-mar (Fratercula arctica) encontrados mortos na costa portuguesa nos últimos dias, com registos recolhidos por várias entidades e cidadãos que monitorizam praias.
O número elevado de aves a dar à costa — os chamados arrojamentos — deverá estar associado às tempestades recentes e a dimensão real do fenómeno poderá ser superior.
«Sabemos que os casos estão a ocorrer ao longo de grande parte da costa, por isso é muito provável que os 400 registos que temos sejam apenas uma pequena parte do total. Precisamos da ajuda dos cidadãos para perceber a verdadeira dimensão da situação», explica Hany Alonso, técnico sénior de ciência da SPEA, em nota enviada às redações, hoje, quinta-feira, dia 12 de fevereiro.
«Esta informação é essencial para identificar as espécies afetadas, estimar números e perceber qual o impacto nas populações.»
Os arrojamentos estão a ser registados em toda a costa continental e também nos Açores. No continente, há informação de dezenas de aves no litoral norte, na região de Peniche e na costa do sudoeste alentejano. Situações semelhantes foram reportadas na Galiza, com mais de 400 registos, e na costa atlântica de França, com mais de 200, o que indica um fenómeno de grande escala no Atlântico europeu.
No inverno de 2022/23 ocorreu uma situação semelhante, com mais de 1700 papagaios-do-mar arrojados em apenas duas semanas em Portugal, também na sequência de más condições no mar.
As tempestades podem levar aves costeiras a procurar refúgio em terra e provocam arrojamentos de aves mais fracas, empurrando-as para a costa. Quando as condições adversas se prolongam, o impacto é cumulativo: o mar agitado e a dificuldade em alimentar-se levam muitas aves à exaustão extrema.
«No caso dos papagaios-do-mar, se as aves tiverem dificuldade em alimentar-se durante períodos prolongados, podem ver a sua condição física deteriorar-se, acabando por arrojar já muito exaustos e com fraca condição física. Por isso muitos acabam por morrer, mesmo depois de resgatados, pois já estão muito fracos», explica Hany Alonso.
Segundo a SPEA, situações deste tipo poderão tornar-se mais frequentes com o aumento de tempestades associado às alterações climáticas, sublinhando a importância de avaliar o impacto destes fenómenos na biodiversidade e de implementar medidas de mitigação.
Além das condições meteorológicas adversas, o arrojamento de aves marinhas pode também ocorrer devido a capturas acidentais em artes de pesca, poluição ou doenças.
O que fazer
Se encontrar uma ave viva mas debilitada, deve contactar o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da Guarda Nacional Republicana (SEPNA/GNR) ou o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Caso não seja possível obter resposta imediata e consiga transportar a ave, deve evitar o contacto direto, usando luvas ou uma peça de roupa, colocá-la numa caixa de cartão e levá-la o mais rapidamente possível para um centro de recuperação.
A SPEA recomenda que não tente alimentar ou dar água à ave, devendo esta ser avaliada por uma equipa veterinária para receber os cuidados adequados.
Como registar
A SPEA apela ao registo de todas as aves marinhas encontradas, vivas ou mortas, através da plataforma gratuita ICAO (App ICAO SEO BirdLife, disponível na App Store e Google Play Store, ou online). A plataforma permite carregar fotografias, confirmar a identificação, determinar a idade das aves e incluir informação sobre eventuais anilhas ou outros dados relevantes para os investigadores.