A marca de vinhos Dito Cujo foca-se em produzir «sabores que ficam na memória» e refletem o que a região tem de melhor.
Tudo começou com a curiosidade de João Caldeira em plantar uma vinha e explorar o mundo da viticultura, fazendo nascer o Dito Cujo. Quando a oportunidade surgiu, em 2019, o algarvio, natural de Silves, não hesitou e desde então tem-se dedicado de corpo e alma a um terreno de solo argilo-calcário com mais de dois hectares, no Algoz.
Apesar de a sua experiência ser em restauração, João sempre esteve ligado a esta área, interesse que cresceu quando trabalhou numa herdade no Alentejo, com mais de 280 hectares e 13 variedades de uva de mesa.
De regresso à terra onde cresceu, surge um projeto para plantação de vinha com fundos europeus e, sem perder tempo, começou a sua limpeza para depois plantar e, mais tarde, vindimar.
«A minha vida teve uma mudança radical, mas de forma completamente espontânea. Recordo-me que estive mais de uma semana a limpar o terreno com o trator», conta.
Seguiu-se muito trabalho, esforço e dedicação que resultaram num amor que até hoje não parou de crescer. João decidiu arriscar e acreditar no projeto, mas percebeu que não podia fazê-lo sozinho.
Por isso, procurou um enólogo e, através da Adega Cabrita, conheceu Dinis Gonçalves, natural de Lagos, formado em Enologia pelo Instituto de Transmissão Autónoma de Vila Real Trás-os-Montes, com uma vasta experiência em adegas e vindimas de norte a sul do país.
Quando, no início de 2022, o especialista visitou a vinha, feita sem acompanhamento técnico, achou que «estava muito bem tratada» e existia potencial.
Não demorou a perceber o cuidado que João, autodidata, tinha com cada planta e a sua devoção para com o projeto. Assim, uniram o seu conhecimento e experiência o que, nesse ano, deu origem à primeira colheita da vinha, exclusivamente com castas selecionadas.
«Há uma simbiose entre castas internacionais com portuguesas que se adaptam bem às caraterísticas do local. Todas são bastante boas para fazer vinhos de muita qualidade», explica Dinis.
A vinha conta com oito castas: Sauvignon Blanc, Arinto, Viosinho e Moscatel para o vinho branco e Aragonês, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah para o vinho tinto.
Ainda que o terreno arenoso e pedregoso torne mais difícil garantir produções de qualidade e consistentes, permite, por outro lado, melhores frutos.
Com o intuito de enaltecer a singularidade e essência da região, o Dito Cujo, que se foca em vinhos mais gastronómicos, realça os aromas que circundam a vinha, como pomares de laranjeiras, amendoeiras, oliveiras, alfarrobeiras, estevas e alfazemas.
Segundo o enólogo, o sucesso do vinho deve-se essencialmente a dois fatores: «a sua qualidade e a vertente empreendedora e resiliente do João».
No primeiro ano, o produtor apanhou 12 toneladas, em 2023 mais seis e, no ano seguinte, 24, duplicando assim a produção em dois anos. No entanto, o foco não é na quantidade de produção, mas no sabor e consistência do produto, concordam os responsáveis.
De momento, há o Dito Cujo Tinto, Branco e Rosé de 2023 e Tinto e Branco de 2022, todos indicados para diferentes ocasiões, de acordo com João Caldeira.
Enquanto o vinho branco é bastante equilibrado e ótimo para um almoço ou momento de convívio, o rosé é ideal para um fim de tarde a apreciar o por do sol.
Já o tinto, com um toque aromático, serve melhor uma noite num ambiente calmo e tranquilo, acompanhado por música ao vivo. «Todos são sabores únicos que ficam na memória. Têm detalhes que nos marcam», sublinha João.
Como a criatividade e ambição são duas qualidades do produtor, o Dito Cujo tem novidades a caminho. Já este verão será lançado o Sauvignon Blanc, uma casta de renome, produzida com as caraterísticas desta vinha em específico.
Para Dinis Gonçalves, este vinho expressa uma frescura que falta muitas vezes em alguns vinhos brancos do Algarve.
«Representa a expressão da casta. Quase que se sente um toque de sal, um sabor a mar, porque vem de uma casta que, além de muito aromática, absorve bastante a sua envolvência», clarifica.
Adicionalmente, está também a ser engarrafado um Reserva Tinto 2022, que teve um estágio de 12 meses em barrica e 12 meses em garrafa, e um Reserva Branco 2023 com 6 meses de barrica, para que se possa saborear «o expoente máximo das castas desta vinha em específico, com evolução, envelhecimento e carácter», revelou o produtor.
João conta ainda com a ajuda de Mara Luz, também natural de Silves, responsável pelo design e redes sociais. Licenciada em Design no IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação, em Lisboa, regressou ao Algarve após mais de 10 anos a integrar a equipa da Plural Entertainment.
Em 2023, juntou-se ao projeto, ajudando na vindima, logística, promoção da marca e venda ao público em feiras. «Tem sido desafiador e uma experiência enriquecedora. Sinto-me bastante realizada e motivada», confessa.
O nome Dito Cujo não podia ser mais local e português, uma expressão utilizada entre amigos, precisamente como a ideia surgiu, o que se traduz numa relação próxima, familiar e de confiança.
Os vinhos são servidos em diversos restaurantes por todo o Algarve, com uma grande presença em Silves e os proprietários dos estabelecimentos orgulhosos, e em superfícies comerciais como a Garrafeira Reis e a Algarve Views.
«Foi muito bem aceite no comércio local. Houve uma grande adesão, o que me surpreendeu bastante e superou as minhas expetativas. É muito gratificante», expressa João Caldeira.
O Dito Cujo é uma marca que está a crescer ano após ano, seguindo princípios de produção biológica, que marca pela sua consistência, portfolio e cada vez uma maior quantidade.
Enoturismo faz parte dos planos futuros assim como continuar em mercados e feiras locais e estar presente em ainda mais eventos.
Fotos: Hélio Ramos

