O Observatório Marinho do Algarve (OMA) nasce para alinhar o tecido empresarial com o potencial do mar através da ciência que se faz na região.
Os critérios ESG — nas vertentes Ambiental, Social e de Governação — passaram a ser exigência legal à qual as empresas têm de se adaptar e espera-se que venham a ser um fator de decisão para consumidores e investidores.
No Algarve, a indústria hoteleira, um dos sectores mais impactantes em termos de consumo de recursos naturais e geração de resíduos, enfrenta desafios significativos de adaptação ao ESG. Mas estes critérios podem funcionar como estímulo para uma adaptação que, além de obrigatória, poderá tornar-se numa oportunidade de diferenciação do turismo algarvio.
Foi assim, de forma natural, que o recém-criado Observatório Marinho do Algarve (OMA) optou por iniciar a sua atividade neste sector. Esta iniciativa do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg) pretende «alavancar práticas empresariais mais sustentáveis através do conhecimento científico que se faz na região» e, assume a gestora de inovação do CCMAR, responsável pelo OMA, os grandes grupos hoteleiros «estão já sensibilizados» e, em muitos casos, «já têm departamentos de sustentabilidade».
Para Daniela Fazenda, um dos primeiros objetivos é «capacitar a indústria para a sua descarbonização» e promover, em conjunto com a investigação científica e os municípios, «uma mudança de paradigma no uso dos recursos, em consonância com o princípio da União Europeia de prioridade à eficiência energética e preservação dos recursos marinhos».
O objetivo é «reduzir a distância da academia à indústria», através da oferta de soluções aplicadas, como as que já estão a ser implementadas com alguns grupos hoteleiros para redução da pegada de carbono, melhoria da gestão e utilização da água, introdução de produtos inovadores como microalgas e pescado proveniente de pesca sustentável nos menus, ou a execução de projetos para proteção dos recursos marinhos.
O impulso inicial vem do Programa Regional ALGARVE 2030, que garante quase 238 mil euros de investimento total — dos quais 109 mil elegíveis e cofinanciados a 80%. Este financiamento já permitiu dar os primeiros passos no diálogo com a hotelaria e alinhar prioridades regionais com os critérios ESG.
A apresentação pública do OMA, a 23 de maio de 2025, trouxe um memorando de entendimento com a Highgate Portugal, responsável pela insígnia Marriott, entre outras. Para Daniela Fazenda, foi um momento simbólico e que abre portas à assinatura de outros memorandos, pois as negociações com outros grupos estão avançadas.
«É gratificante saber que, numa reunião com a vice-presidente da sustentabilidade da Highgate, foram referidos projetos do CCMAR no Havaí e que o grupo viu o nosso trabalho na Conferência dos Oceanos das Nações Unidas. Mostra que estamos, de forma consistente, a expandir a nossa influência além das portas do mundo académico.»
O OMA não se apresenta como um projeto com início e fim definidos, nem como um selo de certificação. Assume-se como uma plataforma permanente de colaboração, concebida para «capitalizar o ativo principal do Algarve: o mar».
«Baseado em ciência, guiado pela sustentabilidade, mas focado no negócio, pretendemos tornar o tecido produtivo do Algarve o mais sustentável possível», resume a gestora do OMA.
Segundo Daniela Fazenda, a economia regional depende diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos e é com essa consciência que o observatório estrutura as suas áreas de ação, dirigidas a vários sectores de atividade.

Plano para a alga japonesa
Entre várias temáticas, um dos problemas na mira do OMA é a proliferação da alga Rugulopteryx okamurae, originária do Pacífico Noroeste, que tem coberto várias praias do Algarve. Trata-se de uma espécie invasora que prejudica a qualidade das zonas balneares e a imagem turística do destino. Além de ameaçar a biodiversidade local, tem causado prejuízos aos municípios afetados, devido às operações de limpeza dos areais.
Apesar de não existir uma solução eficaz para travar a chegada à costa, o OMA contribuiu para os trabalhos do grupo de trabalho da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que tem como objetivo não só o alerta precoce e controlo, mas também a análise do potencial aproveitamento da biomassa para vários fins, como a cosmética, a bioenergia e a agricultura.
«Estamos a contribuir para este grupo de trabalho de forma integrada. O objetivo é construir um plano de ação regional, com contribuição de investigadores, como o GreenCoLab, que reflita algumas das preocupações que os hoteleiros, nomeadamente a direção da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), me relatou nas nossas reuniões. Terá também em conta a experiência de municípios, de associações de pescadores e de outros atores com interesse em resolver esta problemática.»
O OMA quer alargar parcerias até onde menos se espera e, para isso, prepara o Fórum Mar Algarve, marcado para março de 2026. Até lá, serão realizadas seis mesas-redondas mensais, ligadas a dias internacionais, para aprofundar debates e preparar o programa principal.
O Observatório integra a candidatura da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), uma iniciativa das Nações Unidas. «Queremos colocar o mar no centro das decisões, como protagonista da economia, da ciência e da vida no Algarve», conclui Daniela Fazenda.
O que são e para que servem os critérios ESG?
Ambiente, Social e Governação. É isto que significa ESG, sigla herdada do inglês Environmental, Social and Governance. São critérios que ajudam a medir o grau de compromisso de uma empresa ou instituição com a sustentabilidade e a responsabilidade social.
A componente ambiental valoriza parâmetros como a redução das emissões de gases com efeito de estufa, a poupança de água e energia, o tratamento adequado dos resíduos produzidos pela atividade e as estratégias para proteção da biodiversidade local.
A componente social avalia as condições de trabalho, a igualdade de género, as oportunidades de inclusão, o respeito pelos direitos humanos e a relação com as comunidades onde a empresa atua.
A governação diz respeito à gestão: quem manda e como manda. Dá-se ênfase à transparência, à independência, ao combate à corrupção e à existência de políticas de remuneração justas e de longo prazo.
Cumprir estes critérios já não é opcional para as grandes empresas cotadas em bolsa. A União Europeia impôs regras claras, como a Taxonomia Europeia e a nova Diretiva de Relato de Sustentabilidade (CSRD).
As organizações que adotarem os critérios ESG não só cumprem a lei como ganham confiança junto de consumidores exigentes e investidores. Podem ainda melhorar o acesso a financiamento e demonstrar maior resiliência a crises económicas ou ambientais.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», editado em outubro de 2025 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.
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