Se considerarmos como natureza tudo aquilo que fuja ao controlo da vontade humana, como um terramoto, um tornado ou uma tempestade, então diríamos que a natureza, através dum microscópico «bicho», conseguiu subverter o modelo socioeconómico em que temos vindo a viver e assente no chamado «mercado», alicerçado, como é sabido, na oferta e na procura. É que agora, com o sector produtivo encerrado e os clientes fechados em casa, não há, pura e simplesmente, uma coisa, nem outra!
Até aqui, sempre se poderia argumentar que as disfunções existentes no «mercado», entre a oferta e a procura, poderiam ser corrigidas com estímulos a uma ou a outra, conforme aquilo que, em cada momento estivesse em causa, como, por exemplo, facilitando o crédito para a procura ou taxando menos a oferta.
E agora, que estímulos capazes de vencer o medo da morte causado por tal «bicho»? Restar-nos-á, apenas, apostar a vida, tal como se aposta na roleta de um casino, saindo à rua para produzir e consumir, já que ficar-se em casa enquanto «o bicho» teimar em andar à solta, não será, dizem-nos, solução, sob pena de não se morrer do mal, mas da cura?
Decididamente, momentos difíceis são os atravessados, que, talvez, possam comportar, contudo, a virtude de, para além de descobrirmos quanto, face à natureza, não deixaremos de ser seres frágeis, virmos a sentir que só uma vivência coletiva traduzida em toda uma justiça social que lhe dê consistência, e em respeito por essa mesma natureza, conseguiremos ter futuro no meio dela.

O rasto de desemprego e fome que o «bicho», por esse mundo fora, está deixando atrás de si, a juntar aos já pré-existentes, será fácil de levar ao desespero e quando ele tem lugar, não existirão muralhas que lhe resistam, por muitas e momentâneas «caridadezinhas» visando atenuá-lo! Porque a «caridadezinha» não se sobreporá à dignidade humana e à humilhação sentida por parte de quem a ela se vê obrigado a estender a mão!
Mais justiça social, mais respeito pela natureza, pois!
Luís Ganhão | Jurista