O Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve continua a reforça a aposta em diminuir a incidência da doença renal crónica na região.
Desde 2021 que o Serviço de Nefrologia tem um projeto de literacia em saúde renal para a população algarvia, em parceria com municípios e agrupamentos escolares.
Segundo Ana Paula Silva, diretora do serviço, esta iniciativa tem procurado sensibilizar sobretudo a população mais isolada da região, e também a mais desfavorecida, onde existe maior fator de risco. São Brás de Alportel, Martim Longo, Monchique, e o Bairro da Horta da Areia, em Faro, são alguns dos locais onde a equipa já esteve a trabalhar com a comunidade.
«Em 2040, a doença renal será a quinta causa de morte, a nível mundial. Portugal tem uma das taxas de incidência mais elevadas da Europa e daí a importância de reverter esta tendência», explica a médica ao barlavento, a propósito do Dia Mundial do Rim que em 2024, se celebra a 14 de março.
No entanto, o serviço ambiciona ir mais longe. «Sendo Portugal o país com uma maior incidência na Europa, provavelmente, isso pode ser um indicador que a sensibilização da nossa população para a doença renal não está a ser feita», acrescenta.
Ao longo dos últimos três anos, a equipa já realizou e tratou estatisticamente mais de duas centenas de questionários. Entre as conclusões, «notamos que o conhecimento sobre o rim e as implicações que tem na qualidade de vida, independentemente do grau de escolaridade de quem responde, às vezes até de nível académico, é muito baixo. Não há literacia suficiente» sobre este órgão vital.
«Todos sabemos o que coração faz, mas o que é que o rim passa despercebido», compara a médica.
No entanto, «não é surpreendente. Quando alguém tem uma dor, vai ao médico, certo? Sendo esta uma doença silenciosa, a pessoa continua a ter o mesmo estilo de vida, sem alterações. De um momento para outro, vai ao serviço de urgência, é feita uma avaliação e são detetadas alterações dos marcadores da função renal. A ecografia mostra um rim já de pequenas dimensões, pois começa a haver fibrose e perda de tecido. Isto é o típico. Não havendo sensibilização nem motorização e rastreio, digamos assim, correr-se o risco de aumentar a incidência que já é elevada. Portanto, temos de reverter este panorama».
Na intervenção na comunidade, a equipa constituída por médico, enfermeiro e assistente técnica «vai trocando impressões com as pessoas. É no fundo, um diálogo. Explicamos a função do rim. É como se tivéssemos um coador de toxinas. Tem a função de fazer limpeza do sangue e das impurezas que resultam do metabolismo. Também é responsável pelo nosso equilíbrio interno, nem muito ácido, nem muito básico», descreve a responsável.
Apesar de algumas doenças apenas afetarem os rins, na maioria dos casos, as doenças que os afetam são gerais, como a diabetes Mellitus, a hipertensão arterial e algumas doenças imunológicas.
«Por isso, explicamos que é preciso praticar exercício físico, temperar a comida com pouco sal, beber muita água, controlar a tensão, perder peso, e tentar não abusar de medicamentos antinflamatórios», exemplifica.
Segundo Ana Paula Paula Silva, estes são «fatores modificáveis para a progressão da doença. Mas a parte mais problemática da prevenção é a mudança de estilo de vida, antes de termos a doença», reconhece.
Para já, no Algarve, a situação, está estabilizada. «Não tem havido aumento. Temos 550 doentes em programa de substituição da função renal (hemodiálise ou diálise peritoneal) e em consulta externa são acompanhados pela especialidade 4.000 doentes».
Para a médica responsável, este número «não é má notícia. Em 2023 estávamos à espera de um aumento, pois com a pandemia, os doentes podiam não ter vindo às consultas. Não aconteceu».
Por outro lado, «conseguimos aumentar a nossa produção de consultas externas ao longo destes três anos. E há uma sensibilização dos colegas de medicina geral e familiar que nos encaminham os seus doentes».
Mudança para ULS vai permitir dar um «retrato» da doença renal no Algarve
Questionada sobre a nova orgânica da Unidade Local de Saúde (ULS), a médica responsável mostra-se confiante e justifica. Continua a não existir listas de espera e o serviço conta com um total de 10 médicos a trabalhar nos hospitais de Faro e Portimão.
Apesar deste serviço já ter as respostas organizadas «com muita eficácia», prevê ainda mais melhorias.
«Irá permitir fazermos uma aproximação aos cuidados primários. Isso poderá passar pela criação de protocolos, pela deslocação de recursos humanos aos Centros Saúde. É algo que já está a ser trabalhado», revela.
Além disso, «também poderemos vir a ter uma uniformização dos dados, isto é possibilidade de traçar um retrato da doença ou das alterações compatíveis com a doença renal em todo» o universo regional.
«Com uma direção executiva centralizada, podemos ter acesso a todos os dados referentes da ULS referentes a parâmetros que são pedidos com regularidade» pelos clínicos, nos diferentes níveis e serviços.
O cruzamento e análise dos dados vão «criar uma estratificação da doença renal no Algarve». Com esta informação, o serviço poderá fazer um melhor diagnóstico coletivo. «E a partir daí, criar parcerias de intervenção».
«A nossa população está a ter acesso a um tratamento de qualidade que faz com que a mortalidade esteja a diminuir. A questão que se coloca é na incidência, isto é, os novos casos. Isso está a aumentar», lamenta.
Estima-se que em Portugal a doença renal crónica afete cerca de 800 mil pessoas e que existam cerca de 16 mil insuficientes renais.
Serviço diferenciado já com longo histórico
O serviço existe desde 1983, criado pelo diretor João Paulo Amorim, que «teve a visão e a sensibilidade de ver os problemas que a população do Algarve tinha. As pessoas quando entravam numa técnica dialítica, tinham de ir três vezes por semana para Lisboa ou para Espanha. Não existia nada», recorda a médica.
Mais tarde, de 2005 a março de 2021, coube ao médico Pedro Leão Neves liderar o serviço, abrindo espaço para a inovação. Outro passo importante foi a criação, em 2003 da consulta de baixo – clearance.
Na última quarta-feira de cada mês, um grupo de utentes e familiares «assistem a uma intervenção educacional, no auditório do hospital de Faro. Participa um médico que explica as funções do rim, e uma enfermeira que fala sobre as técnicas e as vantagens e desvantagens da hemodiálise e da diálise peritoneal. Marca também presença um nutricionista, que explica o que muda na alimentação e o que é preciso adaptar e, por fim, uma psicóloga. Quem está no centro da decisão é o utente e a família. Nós somos técnicos para ajudar no caminho. O nosso objetivo é alargar ainda mais esta intervenção, usando as novas tecnologias e envolvendo todo o Algarve», sublinha Ana Paula Silva.
Dia do Rim vai ser assinalado em Faro
No âmbito das comemorações do Dia Mundial do Rim, o Serviço de Nefrologia promove, na quinta-feira, dia 14 de março, às 18 horas, uma ação de sensibilização que visa a promoção da saúde renal, no auditório 1.5 do Complexo Pedagógico da Penha da Universidade do Algarve, em Faro.
A sessão de abertura será conduzida por José Almeida, diretor clínico hospitalar, Rubina Correia, diretora dos Cuidados de Saúde Primários da USL Algarve, que irão afirmar o compromisso da instituição com a promoção da saúde renal. Seguir-se-á a palestra «Nefrologista: O Papel do Rim na saúde do indivíduo».
Um dos pontos altos do programa será o testemunho de um doente que irá partilhar a sua jornada pessoal e os desafios que enfrentou devido à doença renal, destacando a importância do diagnóstico precoce e do apoio adequado.
Durante a sessão decorre uma atuação de jazz a cargo da banda The Lighthousers.
O evento contará com a participação ativa de profissionais de saúde, pacientes e membros da comunidade.
