No Dia Mundial do Rim, assinalado hoje, a diretora do serviço Serviço de Nefrologia do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) alerta para a falta de prevenção que pode levar à doença crónica.
Despachar o agendamento das primeiras consultas é uma rotina que Ana Paula Silva, diretora do serviço de Nefrologia do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), em Faro, repete ao início de todas as manhãs.
Serviço de Nefrologia do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) realizou 998 primeiras consultas e 6157 consultas subsequentes em 2021. E apesar da pandemia ter obrigado a alguns ajustes, hoje não existem listas de espera.
Ainda assim, a médica considera fundamental sensibilizar toda a comunidade para a saúde dos rins. Se a doença renal não for diagnosticada precocemente e tratada atempadamente, pode ocorrer uma perda progressiva da função renal e evoluir para a insuficiência renal crónica.
O serviço existe desde 1983, criado pelo diretor João Paulo Amorim, que «teve a visão e a sensibilidade de ver os problemas que a população do Algarve tinha. As pessoas quando entravam numa técnica dialítica, tinham de ir três vezes por semana para Lisboa ou para Espanha. Não existia nada», recorda a médica. Mais tarde, de 2005 a março de 2021, coube ao médico Pedro Leão Neves liderar o serviço, abrindo espaço para a inovação.

«O que somos hoje deve-se a estes dois colegas», sendo que o último desenvolveu a investigação clínica. «Este é um hospital que está na periferia e, antigamente, o acesso à investigação era muito limitado porque não tínhamos a faculdade [de Medicina]. Mesmo assim, ele conseguiu ultrapassar as dificuldades e incentivar os elementos do seu serviço a conciliar e complementar a sua atividade assistencial, que é importante, com a investigação. De tal forma, que atualmente temos dois projetos com a Universidade do Algarve (UAlg) premiados pela Sociedade de Nefrologia, numa área problemática na doença renal crónica, associada à calcificação dos vasos», refere. Outro passo importante foi a criação, em 2003 da consulta de baixo – clearance.
«Os doentes são encaminhados quando têm percentagem de atividade do rim [taxa de filtração glomerular] de 20 ml/min/1.73 m2. Quando nascemos saudáveis, temos uma taxa de 125 ml por minuto, em que o sangue é filtrado. A doença renal desenvolve-se em cinco níveis [de 1 a 5], sendo que no último a filtração é inferior a 15/20 ml/min/1.73 m2mm por minuto. Significa que o rim já não limpa o sangue adequadamente e temos de arranjar alternativas», explica de forma simples.

As alternativas são a hemodiálise e a diálise peritoneal, ou, em último caso, o transplante. No Algarve há 460 utentes em hemodiálise, a maioria na faixa etária acima dos 65 anos. Por outro lado, a diálise peritoneal é uma técnica que, de acordo com Ana Paula Silva, está a ter um crescimento importante na nossa unidade, atualmente com 43 utentes.
«No nosso abdómen temos uma membrana [peritoneu]» que serve de filtro natural. «É colocado um cateter e são utilizadas soluções semelhantes ao nosso plasma, com uma determinada concentração de glucose e de bicarbonato, que são mais baixas do que aquilo que está em excesso no sangue do doente. No fundo, o que está a mais no sangue passa para essa solução que é drenada», simplifica. Outra vantagem é que o doente faz o tratamento em casa, numa máquina automatizada. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) fornece tudo o que é necessário, sem custos.
Na hemodiálise «temos de criar um acesso vascular, uma fístula arteriovenosa, por onde o sangue sai, passa pelo filtro da máquina e regressa tratado ao doente».
E são processos dolorosos? «Trabalho em nefrologia há 27 anos. Hoje, quer uma técnica, quer outra, não causam dor. A diálise peritoneal é fisiológica, não causa dor alguma. A hemodiálise, com o avanço das tecnologias, faz com que a maioria das pessoas passe pelo processo, que dura quatro horas, a ver televisão ou a entreter-se com o seu tablet. Doloroso, não. Há que cumprir determinadas regras. Quem entra numa técnica como a hemodiálise ao longo do tempo vai deixar de ter urina», explica.
Um dos objetivos do serviço de Nefrologia é «apostar cada vez mais no envolvimento da população na literacia da saúde, porque estas situações clínicas passam um pouco despercebidas», considera.
«São doenças silenciosas. Quando um doente é encaminhado para a nossa consulta e lhe explicamos que tem os rins muito envelhecidos e já sofre de uma doença renal crónica, muitas vezes, diz-nos que nunca sentiu nada! É uma doença de tal forma silenciosa que não é feito um rastreio com regularidade a essas alterações, como uma colheita de sangue para se ver como está a ureia e a creatinina, parâmetros que ficam retidos quando
o rim deixa de limpar. Outro sinal simples que podemos observar é se existe espuma na urina. É um sinal de perda de proteínas». Ou seja, «as pessoas devem ir ao médico quando estão saudáveis e não ao contrário», explicita.
Quando recebem as más notícias, «têm medo» de ficar dependentes de uma máquina. «Não é fácil comunicar, dizer a alguém sem qualquer tipo de sintomas, sem dores, que é detetada uma alteração significativa da função renal, e dizer que a partir daí vai ser preciso um tratamento de substituição da mesma».
O serviço está a tentar inovar nesta área com uma resposta multidisciplinar e de âmbito social Na última quarta-feira de cada mês, um grupo de dez utentes e familiares «assistem a uma intervenção educacional, no auditório do hospital de Faro. Participa um médico que explica as funções do rim, e uma enfermeira que fala sobre as técnicas e as vantagens e desvantagens da hemodiálise e da diálise peritoneal. Marca também presença um nutricionista, que explica o que muda na alimentação e o que é preciso adaptar e, por fim, uma psicóloga. Quem está no centro da decisão é o utente e a família. Nós somos técnicos para ajudar no caminho. O nosso objetivo é alargar ainda mais esta intervenção, usando as novas tecnologias e envolvendo também o hospital do Barlavento. Queremos ter todo o Algarve envolvido», diz a médica.
Em relação ao futuro da especialidade, a diretora considera que tem captado o interesse dos finalistas do mestrado integrado em Medicina da Ualg e que tem, neste momento, cinco internos nos vários níveis. «Temos uma equipa jovem e motivada e isso faz toda a diferença», conclui a responsável.
O que é a Nefrologia?
Responde Ana Paula Silva, diretora do serviço de Nefrologia do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), de Faro. «É uma especialidade que, no fundo, dedica-se às patologias relacionadas com o rim. A palavra vem de uma unidade funcional que nós temos que é o nefrónio, constituído por um novelo de pequenos vasos, os glomérulos, onde é filtrada a urina. É como se tivéssemos um coador de toxinas. O rim tem a função de fazer limpeza do sangue e das impurezas que resultam do metabolismo», explica a médica. Apesar de algumas doenças apenas afetarem os rins, na maioria dos casos, as doenças que os afetam são gerais, como a diabetes Mellitus, a hipertensão arterial e algumas doenças imunológicas.


