A ministra do Ambiente disse hoje que a decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de passar a gerir diretamente o Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI) é uma questão de «gestão interna».
«Não foi uma interferência minha, o ICNF tem autonomia e eu respeito muito, num regime democrático, as autonomias das instituições. Tomou essa decisão e informou-me de que o ia fazer e, portanto, é uma gestão interna», disse Maria da Graça Carvalho em declarações aos jornalistas à margem de uma iniciativa na Costa da Caparica, no concelho de Almada.
A ministra, que foi questionada durante uma visita às obras de reposição de areias nas praias da Costa da Caparica, disse ainda perceber que o ICNF queira gerir o projeto, uma vez que, salientou, «tem capacidade para isso» em vez de o projeto estar entregue a um outsourcing.
O partido Livre apresentou na terça-feira um requerimento a questionar a ministra do Ambiente sobre o afastamento da atual equipa do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), dizendo que o processo deve ser «transparente», tal como o barlavento noticiou.
No requerimento do Livre, a que a Lusa teve acesso, o partido questionou Maria da Graça Carvalho sobre o motivo para o CNRLI, em Silves, passar a partir de junho a ser gerido diretamente pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), não se renovando o contrato com os atuais responsáveis, uma equipa que integra 14 veterinários e que gere o centro há 16 anos.
Maria da Graça Carvalho destacou a importância do projeto, indicando que este processo terá um período de transição, mas o responsável pela equipa do CNRLI, Rodrigo Serra, ouvido pela Lusa, assegurou que, a pouco mais de duas semanas da mudança prevista, ainda não começou qualquer transição.
Para o responsável, uma transição deveria demorar pelo menos um ano, porque o calendário de trabalho com o lince ibérico é de 12 meses, pelo que «o treino de uma equipa não se faz em três semanas».
Rodrigo Serra concluiu que com este processo os linces podem correr graves riscos e os profissionais também podem correr riscos. «Há informação que se vai perder», lamentou, afirmando que os responsáveis do lado de Espanha também «estão preocupados» com o que vai acontecer.
No requerimento entregue na terça-feira, o Livre defende que o processo «deve ser esclarecido e transparente, uma vez que a conservação do lince ibérico não é matéria de gerência interna do ICNF, mas sim uma política ambiental estratégica, com financiamento público europeu e responsabilidade partilhada perante a sociedade portuguesa e a comunidade internacional».
O Livre perguntou à ministra como é que garante que a mudança não compromete o sucesso do programa de reintrodução do lince-ibérico, se existe um plano de transição, e o que vai acontecer com os trabalhadores dos quadros da empresa que operacionalizava o CNRLI desde 2009.
A equipa técnica do CNRLI manifestou em comunicado «profunda preocupação» sobre a forma e o calendário previstos para a transição, considerando que é precisa uma transição técnica, legal e operacionalmente segura, «devidamente articulada com os parceiros ibéricos envolvidos no programa de conservação do lince-ibérico nos últimos 16 anos, com sucesso comprovado».
A equipa alertou ainda que a transição afeta 14 profissionais altamente especializados, entre veterinários, tratadores, técnicos e «especialistas que acumularam conhecimento único sobre comportamento, reprodução, maneio e recuperação da espécie», não tendo sido apresentada até agora qualquer solução para esses trabalhadores.