A 230 metros de profundidade, a mina de sal-gema de Loulé revela «Os Cinco Elementos», numa exposição de arte que transforma uma galeria subterrânea num encontro com as forças da natureza.
A exposição «Os 5 Elementos», de Fiona Issler, foi inaugurada na Mina de Sal-gema da Campina de Cima, em Loulé, a cerca de 230 metros de profundidade, ao final da tarde de sexta-feira, 27 de março.
A mostra propõe um percurso sensorial onde arte e natureza se cruzam num espaço subterrâneo. Instalada no coração da mina, a exposição reúne esculturas em argila e outras peças noutros materiais que evocam as forças fundamentais da natureza — Terra, Água, Ar, Fogo e Éter.
As obras dialogam entre si e com o sal-gema, formado há milhões de anos pela evaporação do antigo mar de Tetis, que «transporta a memória do oceano primordial e da passagem do tempo geológico».
Fiona Issler, artista natural do Reino Unido e radicada no Algarve desde 1968, explica que o processo criativo partiu de um conceito adaptado ao espaço da mina.
No caso desta exposição, a peça «Éter», composta por cristais de antigos candelabros suspensos numa rede de pesca e prismas que refletem a luz, foi concebida especificamente para o local. «Isso permitiu-me abrir asas, expandir e fazer peças de outro tamanho», refere.
As restantes obras foram criadas ao longo do tempo, com diferentes ritmos e desafios. O elemento «Fogo» foi o mais difícil de criar. «Como é que se retrata sem que pareça uma pessoa a arder no inferno?», explica, acrescentando que esta escultura representa «o ser humano a domar o seu lado selvagem».
Segundo a artista, «o fogo é o lado selvagem do homem. Queima, magoa, arrasa, destrói», mas pode ser transformado. «Nós temos a capacidade de crescer e polir o nosso fogo interior», diz, sublinhando que na escultura apresentada «vemos um fogo transmutado».
As peças em argila resultam de processos distintos, alguns com cozeduras a altas temperaturas. «O desafio é que nunca sabemos se a peça sai inteira — se recebe, digamos, a bênção do fogo», nota.
Outra peça em destaque aproveita amostras de tecido de uma loja de decoração para representar Iemanjá, a deusa dos mares. Também aqui há presença de manualidades e de saber local com rendilhados artesanais.
«Nós vivemos num mundo com muitos excessos. Há materiais de enorme qualidade que são simplesmente descartados», aponta. Por outro lado, «a sabedoria que ainda há nas mãos das nossas pessoas está-se a perder. Quem ainda faz renda? E quem a valoriza?», questiona.
Para Fiona Issler, o objetivo desta exposição passa por criar uma ligação sensorial e emocional com o público. «O meu objetivo é tocar numa certa memória. Fazer com que as pessoas olhem para a água, para o vento ou para a terra de uma outra maneira», afirma.
A artista defende uma maior consciência da relação entre o ser humano e a natureza. «Nós não somos o topo da cadeia. Somos aqueles que mais asneiras fazemos», diz, admitindo que a exposição pode «contribuir para uma mudança de atitude» perante o meio ambiente.
A instalação explora ainda a ideia de unidade entre os elementos. «O que permeia tudo é o éter», resume, acrescentando que a exposição cruza diferentes dimensões do território: «eu sou artista de Santa Bárbara de Nexe. Santa Bárbara é a padroeira da mina e protetora dos mineiros. E convidei Mónica Pedros, das vinhas de Nexe, que produz vinho neste território, para esta inauguração».
Segundo Carlos Caxaria, CEO da Techsalt SA, a mina deixou de explorar sal-gema para apostar na vertente turística. «Começámos mal em 2021 por causa da pandemia, mas temos vindo sempre a crescer. Em 2024 já atingimos 15.800 pessoas e no ano passado chegámos aos 20.000 visitantes. Estamos, na minha opinião, a 80 por cento da atual capacidade, muito próximo do limite daquilo que era expectável», refere.
A empresa mantém planos para instalar um elevador com jaula dupla, num investimento de cerca de seis milhões de euros. E há outros projetos para expandir a atividade que aguardam candidaturas a fundos europeus.
A mina da Campina de Cima dispõe de um terreno com 3,5 hectares, para o qual foi apresentado um projeto de loteamento à Câmara Municipal de Loulé. O plano prevê uma componente turística, com nova unidade hoteleira, e uma componente habitacional.
«O hotel não é a nossa área de negócio. Objetivamente, quem quiser olhar para isso, defendemos que seja numa ligação estreita com a mina, por exemplo, através do potencial da saúde, haloterapia», explica, referindo-se a uma terapia respiratória em ambiente rico em sal, indicada para problemas de saúde como asma, bronquite, sinusite ou rinite alérgica.
«Também tiramos sal, mas já não é um negócio. A indústria extrativa aqui acabou», acrescenta. «Em termos de atividade turística, o céu é o limite. Temos 40 quilómetros de galerias para desenvolver atividades», como exposições, palestras, concertos e um serviço educativo para escolas e universidades.
Aliás, esta componente tem sido, segundo o responsável, o principal motor da mina, que emprega cerca de 15 jovens mineiros dedicados à operação e manutenção do espaço. Quanto ao sal-gema, a mina dispõe de um stock suficiente para cerca de cinco a seis anos.
«Esta mina já teve mercado para 120 mil toneladas por ano. Hoje o mercado é de três a quatro mil toneladas», estima.
Sobre o Geoparque Algarvensis, Carlos Caxaria considera que a importância é partilhada. «Diria que, se este não é o sítio mais importante, é seguramente o segundo», afirma.
A exposição «Os 5 Elementos» pode ser visitada na Mina de Sal-gema até 20 de outubro.








