Ambos somos membros da Plataforma pela Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo e estivemos presentes na sessão de esclarecimento promovida pela Galp sobre o projeto de hibridização eólica em Alcoutim. Vimos manifestar o nosso profundo desacordo com a forma como a notícia publicada retrata essa sessão.
A leitura da peça dá a entender que foi apresentada uma visão equilibrada, transparente e esclarecedora do projeto. No entanto, essa não foi a realidade vivida por quem esteve na sala.
Apesar de a Galp ter procurado transmitir a imagem de um projeto moderno, positivo e compatível com o bem-estar das populações, ficaram por referir preocupações muito sérias levantadas pelos habitantes locais — preocupações que não podem ser reduzidas a simples «mitos», como fizeram os técnicos da empresa.
Desde logo, não foi apresentado qualquer mapa do projeto, nem foram clarificadas a dimensão das estruturas ou as distâncias aos aglomerados urbanos previstas.
Também não foi devidamente abordado o impacto expectável da escala e da proximidade das turbinas às populações. De facto, foram os próprios presentes que esclareceram que estão projetadas estruturas com mais de 200 metros de altura — cerca do dobro do Cristo Rei, em Lisboa — e que algumas poderão localizar-se, de acordo com o mapa proposto nos documentos da consulta pública de 2025, a aproximadamente 1700 metros de Velhas e 900 metros de Marim.
Trata-se de turbinas eólicas de nova geração, substancialmente maiores do que aquelas a que estamos habituados. Acresce que o projeto prevê distâncias extremamente reduzidas para infraestruturas desta escala, visivelmente desadequadas para a envolvente, com evidentes impactos sonoros, visuais e paisagísticos.
Ainda assim, os técnicos da Galp afirmaram que a poluição visual seria reduzida, uma vez que se pretende usar a rede elétrica existente e, sendo as pás maiores, a velocidade de rotação é inferior — o que, na opinião dos mesmos, causa menor impacto visual.
Foi igualmente afirmado pela Galp que é um «mito» a existência de impactos na saúde das populações vizinhas de parques eólicos. No entanto, tivemos oportunidade de elencar, ao pormenor, diversos processos judiciais em diferentes países europeus movidos por comunidades que vivem junto destas infraestruturas, nos quais foram reconhecidos problemas graves de saúde, como perturbações do sono, ansiedade, stress e enxaquecas. Perante estas questões, os técnicos presentes não deram respostas concretas.
Outra matéria apresentada de forma redutora foi a do transporte e montagem das estruturas. Foi dito que o impacto seria minimizado, nomeadamente através de transportes noturnos. Porém, tivemos oportunidade de lembrar que a própria documentação técnica do projeto identifica intervenções muito significativas no território: postes de luz a retirar e repor, curvas e rotundas a alterar, taludes a escavar, valas a abrir, entre outras obras necessárias para permitir a passagem e instalação dos equipamentos. É evidente que o impacto deste processo vai muito além de «transportar as peças à noite».
Importa igualmente sublinhar que ficou claro, ao longo da sessão, que a população presente desconhecia por completo a verdadeira dimensão do projeto. Em nenhuma fase anterior — desde o processo de avaliação de impacto ambiental até agora — as populações foram devidamente informadas sobre o que está realmente em causa.
Na sessão, apenas foi referido que o novo projeto contemplará 19 ou 20 turbinas, em vez das 23 inicialmente propostas, sem que fosse apresentado um mapa, sem que fossem indicadas as dimensões das turbinas de nova geração consideradas, sem que fosse explicada de forma transparente a implantação concreta do parque, nem detalhadas as consequências reais para quem vive nas proximidades. Em vez disso, foi dada grande ênfase aos benefícios genéricos da energia renovável e a projetos sociais associados — como painéis solares para algumas instituições ou a oferta de bicicletas elétricas —, sem que isso substitua a obrigação de informar com rigor sobre a verdadeira dimensão e o impacto do empreendimento.
Também na questão da biodiversidade e dos mecanismos de mitigação — nomeadamente no que respeita aos sistemas de deteção automática de aves — as respostas dadas foram insuficientes, cingindo-se à indicação de relocalização ou eliminação de algumas turbinas, sem que fossem indicadas quais. Não foi devidamente esclarecido, por exemplo, como foram avaliadas as limitações desses sistemas em terrenos com orografia complexa, como é o caso desta região. Foi mesmo referido que tais tecnologias podem funcionar melhor em contextos como o mar ou zonas desérticas, onde a deteção é mais simples — o que levanta dúvidas legítimas sobre a sua eficácia neste território.
De facto, apesar da visível disponibilidade dos técnicos para justificar as opções do projeto e responder às questões colocadas — afirmando, em todas as ocasiões, que a Galp recorreu sempre à melhor informação científica —, muitas das dúvidas levantadas não ficaram devidamente esclarecidas.
Em suma, a sessão procurou passar a ideia de que se trata de um projeto inteiramente positivo, participado e socialmente benéfico, e que as principais preocupações levantadas não passam de equívocos ou “mitos”. Contudo, quem esteve presente assistiu a algo bem diferente: uma população preocupada, mal informada, a colocar questões sérias sobre saúde, impacto visual, território, biodiversidade e qualidade de vida, sem obter respostas satisfatórias.
Por isso, consideramos que a notícia publicada não reflete com rigor o ambiente vivido na sessão nem as preocupações efetivamente expressas pelos habitantes. Julgamos ser importante que esse retrato seja corrigido, por respeito à verdade dos factos e às populações que serão diretamente afetadas por este projeto.
Mafalda Rangel | habitante de Velhas
Miguel Rodrigues | Guia de Turismo de Natureza que desenvolve parte da atividade profissional neste território







