O desportista portimonense de 39 anos, 29 dos quais dedicados ao windsurf, é uma pessoa discreta e afável, que acolheu o «barlavento» com muita simpatia. Segundo ele, foi o padrinho, o recentemente falecido advogado e político local Francisco Florêncio, quem o iniciou na modalidade que não mais abandonou.
Miguel Martinho – Comecei a progredir, a tirar título atrás de título e êxito atrás de êxito. Devo muito a todas as pessoas que me ajudaram a chegar a este patamar e vou ver se continuo por mais tempo, apesar da idade já ser um pouco avançada.
barlavento – 39 anos são uma idade avançada para um velejador?
Não! É uma questão de mentalidade. Se a pessoa quiser, vai e aprende; se não quiser, para. Mas sinto-me bem e preparado para continuar e progredir.
Falemos de êxitos e vitórias. Já foi campeão mundial, entre outros títulos?
Fui, em 2006. E já fui campeão europeu por três vezes. Se lhes juntar 17 vezes campeão nacional, já são alguns êxitos.
Não dá grandes hipóteses aos outros, a nível nacional?
Acontece que me entreguei mais a isto, numa altura em que as pessoas pensavam que este desporto era mais para a brincadeira. Daí conseguir tirar os êxitos que tirei. E também pelo apoio que tive dos meus pais, porque no início é sempre à conta dos pais, porque não existem apoios. Infelizmente, em Portugal, se não forem os pais a dar a mão nos primeiros passos, é muito difícil ser-se um atleta profissional.
Quando as vitórias começam a aparecer, as coisas mudam?
Depois, é uma questão de gerir. Embora não haja grande afluência de patrocínios, sempre aparece um apoio ou outro, aqui e além. É uma questão de gerir os mesmos.
Existem apoios estatais a atletas de alta competição no windsurf?
Sou atleta de alta competição há alguns anos, mas não há apoios; só há deveres. Se fizesse as contas ao que a Federação me deve, são para aí 30 ou 40 mil euros. São os apoios de há mais de dez anos, que nunca recebi. Nem faço conta com isso.
A modalidade já é olímpica?
Na minha classe, não. A modalidade olímpica usa uma prancha mais pesada, um conjunto mais igual para todos, é mais lenta. O nosso material é mais sofisticado. O casco de uma prancha olímpica pesa vinte quilos e as nossas pesam oito ou nove. Foi a única coisa que faltou na minha carreira: ir a uns jogos olímpicos.
E nunca pensou em ser olímpico?
Já, mas é complicado. É muito rigoroso e disciplinado demais para aquilo que é. É trabalhar durante quatro anos para ir a uns jogos, sem ser valorizado. Veja que os atletas vão aos jogos e o impacto no aeroporto, no regresso, é… ninguém. Para eles, acabou ali. As notícias nos jornais são que lhe vai ser retirado o apoio olímpico, porque não ficou nos dez primeiros. Entretanto, esquecem-se do seu currículo, nesses quatro anos, em que, se calhar, foi campeão do mundo ou da Europa. A única coisa que interessa é que falhou nos Jogos Olímpicos, quando é muito mais difícil ser campeão do mundo ou da Europa do que ganhar uma medalha de ouro. Isso não conta?
Mais difícil porquê?
Nos olímpicos, há uma pré-seleção, apurando-se um atleta por país. São cerca de trinta e seis participantes. No mundial, as inscrições fecham aos cento e vinte, mas pode haver mais, já tendo chegado aos cento e sessenta atletas. Nos Açores, rondaram os oitenta, porque se torna bastante dispendioso lá ir.
Os campeonatos, tanto o europeu como o mundial, obrigam a deslocações, por vezes noutros continentes. Que apoios existem?
No meu caso, não me posso queixar, porque tenho tido o apoio do meu clube, o Clube Naval de Portimão, para quem só posso ter palavras de agradecimento. Sem eles, não tinha conseguido chegar onde cheguei.
Os últimos dois campeonatos mundiais foram nos Açores e o terceiro também está previsto para lá, segundo me parece?
Não sei se vai ser, porque há muita contestação. O local não é dos melhores, em termos de vento, que não é certo, sopra de todos os lados. É horrível. Vamos tentar mudar para outro continente, ou outro local.
Velejar em prancha requer força, equilíbrio, técnica, um misto de todos?
É um desporto muito técnico. Requer força e esforço físico, como é óbvio, mas exige muita técnica, que vai ficando mais apurada, com o passar dos anos. Por isso, encontramos grandes velejadores já com uma certa idade.
Existe grande diferença entre velejar numa prancha e num barco?
Existe, porque o barco ainda é mais técnico, porque trabalha com vento mais fraco. Temos de ser mais minuciosos. O windsurf, como vai mais rápido, exige menos técnica. Já jogamos com o vento nosso e com o vento aparente. Não deixa de ser técnico, mas torna-se mais fácil.
Qual é a preparação de um velejador de prancha à vela?
Tento treinar diariamente. Faço preparação física e, sempre que as condições climatéricas o permitem, vou à água. Mas nem sempre estão a nosso favor. Treino sempre com amigos, porque só em conjunto se pode ver as diferenças de andamento que existem. Sozinho, é mais físico, sem conseguir ter um termo de comparação. Este atleta de alta competição de invejável palmarés, com família constituída e uma filha para criar, não consegue viver do desporto e tira o seu sustento da exploração do bar do Clube Naval de Portimão situado na marina. A localização é privilegiada, porque a prancha e a vela estão na porta ao lado e o mar a dois passos.