Luís Encarnação anuncia a reativação da marina na Boca do Rio, um hotel de média dimensão e a criação de um museu de arqueologia na Mexilhoeira da Carregação.
A Câmara Municipal de Lagoa tem vindo a estruturar uma nova urbanidade na Mexilhoeira da Carregação, assente na requalificação da frente urbana do Arade, na reativação da marina junto à Boca do Rio e na aprovação de vários projetos de turismo residencial, concentrando naquele território uma das principais apostas de regeneração urbana do concelho.
Segundo o autarca Luís Encarnação, a intervenção na frente ribeirinha pretende devolver centralidade urbana à Mexilhoeira da Carregação, recuperar o espaço público, a atividade náutica e apoiar o investimento privado. E justifica que a freguesia tem uma «carga histórica e um simbolismo» que sustentam a valorização em curso.
«O Cais do Calhau foi, em tempos, o porto mais importante do rio Arade. Era dali que partia a exportação dos frutos secos. Queremos valorizar essa memória», exemplifica, ao trazer vários eventos para aquele local.
Segundo o autarca, o município lagoense tem vindo a investir na requalificação da baixa da freguesia, com obras em fase de conclusão. Está prevista para breve a inauguração da requalificação do Jardim João II, que dará nova dignidade à zona central.
Em paralelo, está a ser recuperada a Ermida de Santo António, em parceria com a Fábrica da Igreja, com o compromisso de a tornar visitável, dada a sua importância patrimonial e afetiva para a população local.
O investimento privado também marca presença na zona, como é o caso da recuperação do antigo Solar do Calhau para fins turísticos.
Marina na Boca do Rio vai ser concessionada
Na calha, segundo o autarca, está a reativação da marina de recreio localizada junto ao Boca do Rio Resort. O município adquiriu o lote II do empreendimento a uma entidade bancária, através de uma hasta pública anunciada em setembro último. Assumiu também o protocolo que existia entre a Docapesca e o antigo proprietário relativo à utilização daquele espaço.
Para já, «está concluído um levantamento das necessidades» operacionais e está a ser preparado «um caderno de encargos que nos permita, muito em breve, lançar o concurso público», adianta.
«Este não é o nosso core business e, portanto, iremos deixar isso ao sector privado», justifica o autarca, até porque não faltam interessados em assumir a concessão.
O autarca revela que está aprovado o licenciamento de uma nova unidade hoteleira de média dimensão, com cerca de uma centena de quartos.
«Toda a margem esquerda do Arade, entre o Parchal e a Mexilhoeira da Carregação, tem projetos turísticos em análise ou já aprovados», refere Luís Encarnação, e indica que a aposta no turismo residencial se articula com a estratégia municipal de requalificação do espaço público.
MUSE vai reunir espólio arqueológico
Mais ambicioso é o plano do município para criar naquela freguesia o Museu de Achados Arqueológicos de Lagoa (MUSE), a instalar no Antigo Solar do Júdice, edifício propriedade da autarquia.
«Não há um museu arqueológico em Lagoa, é uma lacuna que nós identificámos», afirma Luís Encarnação. «Queremos criar um equipamento que possa receber os achados e contar a história do nosso território».
Segundo o autarca, o edifício será adaptado para responder a três funções essenciais: uma área de depósito e reserva para recolher e trabalhar o material arqueológico do concelho, um espaço dedicado à investigação e uma zona de visitação pública.
O mapa de pessoal do município aprovado para 2026 já prevê a contratação de técnicos especializados para desenvolver o trabalho museológico.
O futuro equipamento cultural está também diretamente ligado ao projeto MUSA – Musealização dos Achados Arqueológicos do fundo do rio Arade, uma iniciativa cofinanciada pelo Programa Regional Algarve 2030, com um investimento superior a 3,4 milhões de euros.
O plano, que antecede a expansão do porto comercial de Portimão, deverá identificar novos achados, além dos que já estão inventariados no leito do rio, a expor em ambas as cidades. Outros materiais deverão permanecer submersos. «Há vários que não é possível retirar, mas também temos interesse que fiquem preservados, para depois dinamizarmos a vertente de turismo subaquático», explica.
Além disso, o MUSE permitirá acolher, no seu território de origem, todo um espólio do concelho que está disperso por outras instituições e até em mãos de particulares. «Com este projeto, vamos alterar esta realidade. Queremos que os achados possam ser vistos, estudados e valorizados aqui», remata.
Casa da Cidadania coordenará polos culturais do concelho
O novo equipamento será inserido numa rede museológica municipal, estruturada a partir da Casa da Cidadania, em Lagoa, com vários polos temáticos distribuídos pelo concelho. «A Casa da Cidadania será a base», explica Luís Encarnação, que enumera o que está a ser feito.
«Na Mexilhoeira da Carregação teremos a arqueologia; em Ferragudo queremos avançar com o Museu da Pesca Artesanal; e no Calvário estamos a trabalhar num polo ligado aos costumes e ao folclore, onde aproveitamos a presença do rancho local».
A rede incluirá ainda o Museu do Vinho, a criar no edifício da antiga Adega Cooperativa de Lagoa, cuja construção será exigida como contrapartida ao promotor privado que está a adquirir o emblemático espaço.
O investidor terá que preservar as características arquitetónicas do edifício, incluindo as cubas e as caves, onde o município terá um espaço dedicado à história da produção vitivinícola no concelho.
Luís Encarnação lembra que a recente mudança da Única – Adega Cooperativa do Algarve para Silves, devido à revenda do edifício onde funcionava, é temporária.
«Os nossos juristas estão a avaliar se a Única poderá manter a sede no futuro museu, que será municipal. Depois, inclusive, o plano é termos um espaço onde possa dinamizar os seus produtos, as suas atividades», prevê.
«A produção vitivinícola faz parte da história e da identidade da Lagoa. Nós não a queremos perder. A Única é uma instituição com 80 anos», sublinha.
«O município tem toda a disponibilidade para, conjuntamente com todas as partes interessadas, encontrarmos um enquadramento legal e urbanístico que permita o seu regresso, e eventualmente, explorar uma área que também é muito importante hoje para a viabilidade de projetos vitivinícolas, que é o enoturismo».
Questionado sobre o futuro daquele espaço emblemático, o autarca revela apenas que «ali vai nascer aquilo que o Plano do Diretor Municipal e a unidade de planeamento permitem. E o que permitem é comércio e serviços», além de uma nova bolsa de estacionamento.
«Nós exigimos ao promotor, numa primeira reunião, duas coisas. Primeiro, conservação da fachada, da parte arquitetónica, que tem interesse patrimonial e espaço para a criação do Museu do Vinho».
Com tudo isto, Lagoa ficará com uma rede museológica diversificada. «Será uma oferta que se espraia ao longo do ano», explica o autarca, que destaca a importância de mitigar a sazonalidade através da cultura e património.
Ainda em relação à Casa da Cidadania, atualmente em fase final de obras de recuperação dos antigos Paços do Concelho, deverá estar concluída até fevereiro de 2026.
O projeto museológico, designado MUCITE (Museu da Cidadania), inclui uma forte componente digital, com mais de 10 mil documentos já disponíveis para consulta, e deverá abrir ao público no final de 2026.
