A Carrapateira, ao longo dos séculos XVI e XVIII, deve ter presenciado muitas tentativas de incursões de piratas mouros e potenciais agressões e destruição dos bens.
Povoação localizada na costa oeste do Algarve, na região sudoeste de Portugal, muito próxima da área do Atlântico vicentino, a Carrapateira pertence à Freguesia de Bordeira, por decisão diocesana desde setembro de 1848 e por decisão ministerial desde 1849. Atualmente, faz parte do município de Aljezur.
Desde muito cedo, é caracterizada como uma localidade estratégica para a defesa do Algarve ocidental e foi, ao longo dos séculos XVI e XVIII, que deve ter presenciado muitas tentativas de incursões de piratas mouros e de potenciais agressões e destruição dos bens dos habitantes desta antiga freguesia.
Nunca foi uma localidade com muita população, como outras do Algarve (Lagos, por exemplo, ou mesmo Sagres), mas a importância de que desfrutava, sobretudo ao nível da administração militar, é observada pela existência de uma fortificação edificada no século XVII, embora já tivesse algum muralhado que circundava a sua igreja, construída nos finais do século XV e inícios do século XVI.
Poderemos mesmo classificar esta povoação como uma localidade defendida por um muro, cuja população se refugiaria, em caso de ataques, na zona da igreja, esta assumida como algo parecido com uma fortificação defensiva da sua população antes da construção do seu forte, no ano de 1673.
A Freguesia da Carrapateira detinha, no conjunto da sua população, especialmente nos finais do século XVI, cerca de 250 pessoas, naturalmente centradas ao redor da sua igreja, mas também (e provavelmente em maior número) nas imediações, nos campos da sua área territorial.
Mas, se este número parece ser interessante para uma freguesia longe dos grandes centros populacionais, como Lagos e mesmo Aljezur, que apenas em 1898 se torna sede do concelho onde estavam integradas as povoações de Bordeira e da Carrapateira, como explicar a queda do cômputo populacional em 1607, melhor dizendo, nos inícios do século XVII, para 56 habitantes, ou talvez menos?
O que terá acontecido para que, em pouco mais de 10 anos, a Carrapateira apenas tivesse escassas dezenas de pessoas a viver na sua área territorial?
Uma das fortes justificações para que tal acontecesse relaciona-se com a peste e a fome que grassaram na região do Algarve em 1602 e que, por consequência, diminuíram o cômputo demográfico de todo o reino. Será que, durante a década anterior, os ataques dos mencionados piratas mouros se intensificaram?
Bens roubados, como as alfaias da sua igreja, o sino do campanário da sua capela e a captura de gente para os mercados do Norte de África?
Isto aconteceria porque, em determinado período, se os cativos não fossem resgatados, eram vendidos e integrados na sociedade marroquina e/ou no quotidiano argelino.
Também não podemos descurar que uma parte da população masculina pode ter sido arrolada para as praças portuguesas de Ceuta, Tânger, etc., bem como se tivesse deslocado para outras localidades algarvias à procura de condições de subsistência. Por outro lado, a existência de poucas pessoas a residir na povoação quando do arrolamento que nos dá a conhecer o seu número poderá estar associada ao momento em que muitos homens se deslocavam para as almadravas do atum e das xávegas, uma delas bem próxima da Carrapateira, através das suas embarcações, e que tinha o nome de Arrifana.
Nesta almadrava, como em outras, estes pescadores demoravam-se semanas nos locais (ou por períodos máximos de dois meses), construindo os seus alojamentos, com madeiras e outros materiais, nas praias e, para além de laborarem na sua instalação no mar, também as vigiavam em terra. Outras razões poderão ter estado na origem desta situação, mas a verdade é que, no ano de 1673, se concluiu a edificação do Forte da Carrapateira e, em 1635 (cerca de quarenta anos antes da construção do citado forte), construiu-se a Fortaleza da Arrifana. E, se em 1607 existiam cerca de 60 habitantes na Carrapateira, já no distante ano de 1733 o número conhecido é de 133 habitantes.
Números muito pouco avultados para uma povoação que tinha, desde há 60 anos, uma fortificação construída para a sua defesa, mas, assim entendemos, sobretudo para a defesa do litoral, cujas águas estiveram muito próximas outrora e que hoje estão afastadas por alguns quilómetros de terra, onde o mar terá recuado ao longo dos séculos e as terras pantanosas deram origem a várias culturas, dando lugar, hoje, a moradias como as que se observam.
Paróquia até aos anos 30 do século XIX, teve a sua importância no conjunto das terras fortificadas por instalações militares de costa e, se a sua edificação não foi a justificativa para a defesa da sua população (sempre pequena em agregados familiares ao longo dos séculos), a mesma resultou da necessidade de se criar uma barreira intransponível aos piratas mouros e turcos que destruíam as almadravas, nem sempre conseguida, mas que fazia parte de um conjunto de outras fortificações na costa ocidental algarvia, como as fortificações do Cabo de São Vicente, a da Carrapateira e a da Arrifana.
Caracterização do seu topónimo e a evolução socioeconómica
A Carrapateira apresenta uma denominação toponímica muito interessante e que, numa tentativa de se saber qual a sua origem, o que nos ocorre, de imediato, é a sua associação a um aracnídeo ectoparasita hematófago, vulgarmente conhecido por carrapato.
Contudo, existem outras interpretações que nos parecem fazer mais sentido. Damos como exemplo a designação toponímica estar associada a uma planta euforbiácea (Ricinus communis), de cuja semente se extrai um óleo purgativo e vermífugo. Também poderá estar associada a uma ave de rapina (Milvago chimachima) da família dos falconídeos. Outras derivações do topónimo também são conhecidas como Carapeto, Carapeteira e Carapito, tendo o significado de locais onde havia currais, comunidades de pastores, sendo a palavra também conhecida no tempo dos Fenícios como «Krrpt», que significa, linearmente, «curral de cordeiros».
No entanto, também chegou até nós o conhecimento da existência de um topónimo com a denominação de Carrapateira referente a um município que faz parte do Estado da Paraíba, Brasil, e cuja origem está associada a uma planta euforbiácea já referenciada (Ricinus communis), originária da Ásia Meridional e conhecida popularmente como carrapateira, mamoneira ou palma-de-cristo, que existia em abundância na região. A planta terá sido introduzida no Brasil durante a colonização portuguesa e, aquando da fixação demográfica na região por Francisco Vieira da Silva e sua família, no século XVIII, existia em abundância. Os habitantes do município denominam-se carrapateiros.
Em Cabo Verde, os frutos destas plantas (também conhecidas por brofeiras) serviam de alimento às cabras nas épocas secas.
Posto isto, a denominação associada a esta povoação parece estar interligada a uma planta que existia no Algarve e foi exportada para terras como Cabo Verde e Brasil, não com o intuito de ser plantada nesses locais, mas porque os seus frutos, transportados para alimentação animal e, quiçá, humana em situações de emergência alimentar, terão caído em terras férteis e aí germinado.
Os dados mais antigos indicam-nos a origem da Carrapateira na segunda metade do século XV e a documentação conhecida como sendo a mais remota relaciona-se com os seus registos de livros de batismos, casamentos e óbitos, datados de 1692, 1711 e 1727, respetivamente. Contudo, os livros designados por Mistos apresentam a data mais antiga como sendo a de 1645.
A ausência de documentação para o conhecimento da historiografia paroquial do Algarve do século XVI, sobretudo daquela localizada na área do Barlavento algarvio, resulta de inúmeras circunstâncias, como, por exemplo, a incúria, o desconhecimento das ferramentas necessárias para a leitura da documentação, sobretudo dos séculos XV a XVII (tipologia de letras de muito difícil leitura paleográfica), bem como manifestações climáticas do passado (tempestades, inundações, terramotos, guerras civis, saques e incêndios, etc.).
Entre a sedentarização de alguns agregados familiares, provindos tanto da sua vizinha Bordeira como de terras do concelho vizinho de Vila do Bispo, bem como da Freguesia de Aljezur, que nessa época não era concelho, apenas criado em 1898, a sua evolução histórica tem subjacentes dois denominadores comuns: a pesca e a defesa militar. Esta última alicerçada numa fortificação, sobretudo para defesa da costa e da apanha dos atuns e da sardinha, cujo rendimento anual teve como consequência uma atenção redobrada tanto por parte do Corregedor da Comarca de Lagos como do próprio governador do Algarve.
Numa tentativa de organizar um conjunto de informações sobre a sua população, pelo quadro infra observamos que, desde o primeiro cômputo populacional que podemos compilar até ao período em que foi extinta a freguesia, os quantitativos demográficos sempre foram diminutos. O ano de 1607, como temos vindo a referir, é aquele que nos evidencia ter sido o período em que menor número de pessoas aí terá vivido, acrescentando José Baptista da Silva Lopes que «Já foi três vezes saqueado de mouros».
No entanto, nada acrescenta sobre cativos e resgates, e o que sabemos é que um desses saques resultou do roubo de bens e não de pessoas.
Tal como noutras localidades do litoral do Reino do Algarve (e mesmo em zonas do interior), a captura de pessoas, sobretudo por parte de piratas mouros, constituiu algo muito presente na vivência das populações algarvias, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, e a documentação consultada dá-nos algumas informações importantes sobre esta temática.
A maior parte das populações cativas que a documentação nos apresenta refere-se a casos de pessoas isoladas, mas também a agregados familiares completos. A maior parte desses raptos tinha como objetivo o resgate a troco de dinheiro.
Nesta investigação, cuja temática tem a especificidade de dar a conhecer eventuais assaltos ocorridos na povoação, dando origem a moradores que teriam sido cativos na Freguesia da Carrapateira, qual foi o papel da edificação do seu forte, construído no século XVII (embora tivesse existido uma muralha defensiva de pequenas dimensões no século XVI), na salvaguarda da sua diminuta população e dos seus bens perante a eventual ocorrência de ataques relacionados com a povoação da Carrapateira?
Uma construção, mesmo de pequenas dimensões, teria os seus custos, e estes não seriam reduzidos se associarmos a necessidade de pagar soldo aos militares da sua guarnição.
Esta guarnição teria uma função anual ou apenas durante o período das almadravas?
E este forte tinha apenas uma função de defesa ou também de ataque, através das suas bocas de fogo?
Outra questão interessante relaciona-se com a área do Cabo de São Vicente. Se a zona do Cabo de São Vicente era bem vigiada com a existência da Fortaleza de Sagres no século XVI, como poderiam os piratas mouros chegar às águas da Carrapateira sem serem notados pela artilharia daquela fortaleza?
Ausência de homens para a sua defesa? Armas de guerra e pólvora em pequenas quantidades?
Desleixo dos responsáveis pela vigilância do litoral, permitindo a entrada dos piratas mouros em terra?
Para que possamos obter uma resposta, ou um conjunto de elementos que se possam consubstanciar em reflexões que nos ajudem a compreender a edificação de uma fortificação numa área populacional constituída por pequenos aglomerados familiares, temos de ter presente um dos estudos mais importantes para o conhecimento da defesa do litoral algarvio, que, no seu conjunto, toma o nome de Cartas dos Governadores do Algarve (1638-1663), da autoria de Alberto Iria.
Pelas informações contidas nessa obra, apercebemo-nos das dificuldades que os capitães-generais governadores do Reino do Algarve tiveram para suster ataques tanto de piratas como de corsários de várias nacionalidades, sendo a presença de atacantes do Norte de África uma constante ao longo dos séculos XVI e XVIII.
Por outro lado, para termos uma noção do número de cativos, cujo objetivo para o atacante era o seu resgate em dinheiro, temos de nos socorrer de investigações mais recentes sobre esta problemática, dando como exemplo os estudos de Edite Alberto, nomeadamente o trabalho De Regresso a Loulé: o Resgate de Cativos Cristãos nos Séculos XVII e XVIII, que nos oferece uma visão de conjunto sobre as localidades em que existiram incursões de piratas nas terras do Algarve.
Mas, se o resgate de cativos ocorridos no Algarve, levados pelos atacantes para o Norte de África, constitui, em termos da vivência da população algarvia, um dos maiores flagelos do seu quotidiano, resultante de resgates cujos números não ultrapassaram os 211 indivíduos registados no Reino do Algarve (num universo de 2499 pessoas entre 1655 e 1778), também não podemos esquecer o número de cativos algarvios e o respetivo resgate em período de guerra, nomeadamente aquando da batalha de Alcácer-Quibir, a qual provocou um número avultado de mortes de naturais do Algarve, bem como de vários que vieram a ser resgatados.

Tendo presente várias listagens provenientes de estudos centrados no resgate de cativos da batalha de Alcácer-Quibir, não apenas pelo número de homens em presença de várias nacionalidades, mas especificamente sobre algarvios, alguns deles residentes no Barlavento algarvio, onde se localizam a Carrapateira e Aljezur, então integradas no concelho de Vila do Bispo, apenas conseguimos identificar vinte e cinco nomes através da observação de milhares de registos.
Nem todos apresentam indicação da localidade de origem na região algarvia, alguns contendo apenas a menção «natural do Algarve», nem todos indicando a idade ou os custos associados ao respetivo resgate.
Por outro lado, apenas conseguimos identificar dois nomes, um associado a Aljezur e outro eventualmente associado ao Cabo de São Vicente.
Na verdade, temos conhecimento de um «Belchior Dias de S. Vicente» e de um «João Alveres de Aljessur». Se o primeiro nos suscita dúvidas sobre a sua naturalidade — será que se trata de São Vicente do Cabo, designação conhecida à época para esta localidade? —, o segundo é mais esclarecedor, por estar associado a Aljezur.
No entanto, o nome da Carrapateira não surge associado a nenhum deles, e o mais provável é que assim fosse, pois, atendendo ao reduzido índice populacional da povoação e coincidindo a batalha com os inícios do mês de agosto — antecedida por um recrutamento que durou vários meses — e com o período das almadravas, dificilmente os pescadores poderiam abandonar a sua atividade, tanto mais que o seu número seria tão reduzido que não poderiam prescindir dos seus ofícios.
Cativos e resgates de habitantes da Carrapateira nos séculos XVI e XVII
Especificamente relacionado com a povoação da Carrapateira, as informações de que dispomos não nos elucidam sobre tempos cronológicos, número de raptos, géneros, idades e locais de transporte desses cativos.
Como sabemos, o rapto e o subsequente resgate (nem sempre assim acontecia) têm origem, em Portugal, desde a formação do país e apenas em 1757, no caso marroquino, aquando da subida ao trono de Sidi Mohammed, se desenvolveu uma política de celebração de tratados de amizade e comércio com vista a solucionar uma situação marcada pelo aprisionamento de pessoas.
Portugal e Marrocos alcançaram esse entendimento em 1760, tendo sido nesse ano que ocorreu o último intercâmbio de cativos. Os resgates passariam, doravante, a ser tratados através da diplomacia, sem o cunho associado à guerra religiosa, mas antes como resultado de um acordo entre dois países.
Com o Tratado de Paz de 11 de janeiro de 1774, criaram-se as condições para a troca de embaixadas e o último resgate de cativos de que há conhecimento realizou-se na cidade de Argel, em 1811, na sequência de um Tratado de Trégua e Resgate assinado em 6 de julho de 1810.
Neste resgate foram libertados 600 portugueses cativos, sendo entregues quantias muito avultadas ao lado marroquino, provenientes de um peditório nacional. O Tratado de Paz Luso-Argelino foi celebrado em 21 de junho de 1813, sob o auspício britânico.
Mas, se apenas na segunda metade do século XVIII se normaliza, pela via diplomática, o processo de resgates que teria o seu epílogo no primeiro quartel do século XIX, o que aconteceu entre os séculos XVI e XVIII constituiu um processo de resgate por via dos trinitários, nos casos dos resgates gerais, embora também houvesse resgates particulares, custeados pelas famílias dos cativos.
Nesta zona da região do Algarve, localizada na cidade de Lagos, existiu um Convento de Trinitários edificado nos inícios do século XVII que, a partir de Lagos, funcionou como plataforma estratégica de resgates de cativos durante mais de dois séculos.
Tendo como função transportar listas de nomes e quantitativos para que os prisioneiros fossem resgatados, muitos desses homens morreram quando chegaram aos locais de resgate e outros regressaram sem que pudessem cumprir a sua missão.
Pelas listas conhecidas através dos estudos de Edite Alberto, os elementos de que dispomos são diminutos em relação aos de outras localidades do Algarve.
No que respeita à área da costa ocidental da região e, especificamente, ao eixo Sagres–Cabo de São Vicente, incluindo neste último local eventuais habitantes da zona da Carrapateira que, por mobilidade profissional, poderiam aí encontrar-se quando da sua captura, apenas podemos apresentar três exemplos.
O primeiro refere-se ao Resgate Geral de 1671, realizado em Argel, envolvendo Pedro Vicente, do Cabo de São Vicente, com 10 anos de idade, que permaneceu cinco anos em cativeiro. O segundo refere-se ao Resgate Geral de 1674, também localizado em Argel, sendo conhecido o nome de António Vicente, igualmente do Cabo de São Vicente, com 50 anos de idade, lavrador, que esteve em cativeiro apenas um ano.
Na relação dos cativos e resgates para os anos de 1655 a 1778, existe ainda um homem de Sagres que saiu do cativeiro através do Resgate Geral de 1729, realizado em Mequinez, de seu nome Tomás Vieira, com 60 anos de idade e que esteve em cativeiro durante 37 anos.
Outros quatro indivíduos da região, cuja proveniência toponímica não é específica, sendo apenas identificados como naturais do Algarve, merecem igualmente referência: Domingos Rodrigues, de 27 anos de idade, calafate, que esteve quatro anos em cativeiro; Manuel Figueiredo, de 19 anos, que permaneceu um ano em cativeiro; Manuel Ribeiro, de 40 anos de idade, lavrador, que esteve em cativeiro durante 10 anos; e Teodoro Correia, de 53 anos de idade, marinheiro, que esteve cativo durante 20 anos.
Como se pode observar, estes homens (um dos quais era ainda uma criança de 10 anos) permaneceram muito tempo em cativeiro e, para termos uma noção do período decorrido entre a captura e a libertação por meio de resgate, o exemplo mais elucidativo é o de Tomás Vieira, que foi raptado em 1692, com 23 anos de idade, e resgatado aos 60 anos.
Os valores do resgate não eram iguais e dependiam não só do tempo de cativeiro, mas também da idade e do sexo.
Em termos dos valores envolvidos nos resgates (nem sempre conhecidos), para o grupo anteriormente referido, o valor mais elevado esteve associado a Teodoro Correia, ascendendo a 518 000 rs.
O mais baixo refere-se a Tomás Vieira, cujo resgate ascendeu a 345 600 rs. Por norma, eram valores muito elevados, tratando-se de um negócio para os capturadores, que sabiam que os interessados nos resgates tudo fariam para pagar as quantias necessárias para os trazer de volta às suas terras de origem.
Como temos vindo a referir, não existem informações específicas sobre eventuais capturas de homens, mulheres e crianças (em agregado familiar ou individual) relacionadas com a Carrapateira. Existem indícios de que poderão ter existido cativos (e eventualmente resgates), mas o que sabemos limita-se a roubos e saque de bens da sua população.
Conhece-se um caso circunscrito à Carrapateira, datado de setembro de 1553, relativo a uma carta emitida por D. João III dirigida ao corregedor da comarca de Tavira para que o mesmo averiguasse o incumprimento do morador de Lagos João Fernandes da Costa, o qual tinha a obrigação de repelir cinco embarcações de mouros que atacavam no Cabo de São Vicente.
Este morador não cumpriu a sua obrigação e refugiou-se numa propriedade sua. Como consequência do seu ato, os habitantes da zona ficaram indefesos e, no caso presente, relacionam-se com habitantes da Carrapateira que tiveram de fugir e viram os seus bens saqueados, uma vez que os moradores da localidade «… desempararam o lugar e os mouros entraram nele e o roubaram do que acharam…».
Os habitantes da Carrapateira fugiram, mas nada mais se sabe a seu respeito.
Perante o sucedido e após ter recebido um recado do juiz da Raposeira, Lourenço Vaz, corregedor da comarca de Lagos, este foi «(…) ele próprio com agente de caualo acudir ao rebate», tendo D. João III mandado averiguar as responsabilidades com vista à aplicação das respetivas medidas punitivas.
Provavelmente outros casos existiram, mas não dispomos de informações que confirmem a existência de cativos relacionados com a Carrapateira.
Todavia, se tivermos presente que muita da documentação se refere a episódios relacionados com o Cabo de São Vicente, nomeadamente a ataques de mouros naquelas águas, muito bem poderá ter acontecido que as gentes da Carrapateira tenham sofrido vários ataques de mouros ao longo dos séculos.
Uma das questões que temos de ter presente na salvaguarda das gentes e dos lugares do Reino do Algarve por parte dos governadores das fortalezas algarvias relaciona-se com as condições existentes, nomeadamente ao nível das guarnições e dos materiais de defesa, bem como das espingardas, peças de fogo e pólvora, esta quase sempre em quantidades insuficientes.
Se existia uma linha de defesa ao longo da costa algarvia (em número superior a 40 fortes, fortalezas e baterias, pelo menos nos finais do século XVIII), estas deveriam dispor das condições necessárias à sua operacionalidade. Contudo, os problemas relacionados com a manutenção dessa capacidade nem sempre se concretizavam e, em certos momentos, colocaram em causa a salvaguarda de bens e pessoas, constantemente atacados por piratas marroquinos, argelinos, entre outros.
O Forte da Carrapateira, como salientámos, foi construído em 1673 e tinha quatro baluartes, estando artilhado com seis peças de fogo e guarnecido por onze soldados. Contudo, em 1762, praticamente cem anos depois, tinha ao seu serviço apenas três soldados, sendo um efetivo e os outros dois destacados da cidade de Lagos.
Três décadas depois, em 1796, a fortificação já não se encontrava operacional e, em 1822, deixara de desempenhar qualquer função.
A sua edificação foi justificada pela necessidade de defesa dos agregados familiares existentes na povoação, mas sobretudo pela salvaguarda das almadravas e xávegas da costa ocidental, como a Arrifana, bem como pela vigilância defensiva relativamente aos que tentavam a travessia da costa vicentina entre o Cabo de São Vicente e o litoral algarvio, não apenas piratas mouros, mas também castelhanos que, à data da construção da fortificação, eram inimigos de Portugal.
Uma das grandes preocupações dos governadores militares sediados em Lagos, enquanto sede da Praça de Guerra do Algarve, foi sempre dispor das condições necessárias para fazer frente aos atacantes na região algarvia e assegurar a defesa das praças do Norte de África.
Os algarvios eram constantemente solicitados para arrolamentos destinados às praças do Norte de África, como testemunha um excerto de uma carta datada de 1638, enviada por Martim Correia da Silva ao seu filho, com vista a que promovesse o arrolamento, mediante pagamento adiantado, de homens de várias condições sociais, incluindo nobres (estes sem soldo, uma vez que beneficiavam de muitos privilégios), dos «lugares de Loulé, Albofeira, termo de Silves, Villa Nova, Alvor e Lagos, Aljezur».
Parece, no entanto, que apenas 10 homens se ofereceram para seguir para o Norte de África, considerando ser mais vantajoso alistarem-se na armada do Brasil que se encontrava em Lisboa.
Estamos, pois, perante uma constante falta de militares para a defesa das costas algarvias, atendendo ao número de praças e à necessidade da respetiva guarnição, uma vez que os algarvios detinham muitos privilégios, provenientes já do século XV, e apenas existindo dinheiro para custear os arrolamentos seria possível constituir contingentes militares para a defesa do reino.
Outro dos problemas vivenciados no Algarve, e comunicado pelos governadores aos monarcas deste período — centrado nas cartas enviadas a Filipe III, D. João IV e D. Afonso VI — relacionava-se com o armamento dos homens que laboravam nas almadravas e nas xávegas, onde as armas destinadas à salvaguarda dos bens eram utilizadas pelos próprios.

Numa carta datada de 2 de agosto de 1639, o governador Henrique Correia da Silva informa Filipe III do seguinte:
«(…) desde o cabo de São Vicente atee o Estreito de Gibaltar toda esta costa he infestada de uerão e de inuerno de mouros e turcos que farião grandes danos na terra se se lhe não acudisse a defender, o que não pode ser sem armas e o exemplo he que não ha muitos que na barra da cidade de Tauilla defendeo meo filho Martim Correa com a gente da terra hua não biscainha a dous nauios de turcos que estauam batendo uma artelharia, e que tinhão ya metido dentro 40 homens que deitou fora della com muito risco de sua pessoa e trouxe a não para dentro. (…) a gente das almadrauas dos atuns plo proveito da Fazenda de Vossa Magestade e porque se detem dous mezes naquele offiçio leuam consigo mosquetes e armas que pera isso tem em suas cazas, e aos que faltão lhas mando emprestar do almazém, donde tão bem lhe deu poluora e munições pera se defenderem. Os barcos que andão pla costa navegando a sardinha que os cercos e xauegas matão não andão desarmados, trazem mosquetes com que se defendem das lanchas dos mouros e alguns trazem requeiras assi portugueses deste Algarue como os castelhanos da Andaluzia».
Pelo exposto, aos homens que trabalhavam nas capturas de atum e de sardinha era permitido possuir armamento, mas, em muitas situações, seria através do Armazém das Armas (eventualmente através do Armazém Regimental localizado em Lagos) que lhes seriam disponibilizadas armas para fazerem face aos ataques dos mouros e da pirataria turca.
Contudo, nem sempre havia pólvora necessária para esse armamento e, numa carta datada de 13 de julho de 1639, o governador citado já fazia referência à falta de pólvora, salientando:
«(…) Poluora não tem esta cidade nem Reino e alguus lugares de todo estão sem ella»,
Pólvora esta que seria fundamental para combater uma esquadra avistada entre:
«(…) a 12 as 7 da tarde auiza o capitam dAlgezur que aparecerão ao cabo de São Vicente dessoutra parte de Portugal 18 naos groças, e que são 13, aparecerão as mesmas, e que uinhão na uolta da terra, e duas dellas diante a reconhecer a barra, o homem que trouxe o auizo, diz que depois de o ter recebido se descobrirão mais 8».
Bem como era utilizada nas almadravas para:
«(…) e empregar o procedido della em atum».
Concluindo, os exemplos aqui mencionados são elucidativos de que o Algarve estava constantemente a ser atacado, tanto por mar como por terra, por piratas mouros e turcos, e que tanto militares (sempre em falta para a defesa da região e das praças do Norte de África) como pescadores se encontravam deficientemente armados, sendo a falta de pólvora e munições uma constante.
A referência a cativos e ao local de cativeiro, identificado como Argel, também surge nestas cartas, mas não constitui um elemento fundamental do seu conteúdo. O grande enfoque é, sem dúvida, a necessidade de homens para a guerra e de armamento para a defesa.
José António Martins | Historiador
Nota: As imagens geradas por Inteligência Artificial (IA) são meramente ilustrativas e destinam-se a apoiar a contextualização visual do presente ensaio histórico. Não constituem representações rigorosas ou documentais dos acontecimentos descritos.
