barlavento – Como decorreu este encontro do Partido Democrático Republicano no Algarve? Marinho e Pinto – Este encontro decorreu muito bem, tendo contado com cerca de 150 participantes, na sua esmagadora maioria residentes no Algarve, além de quadros e filiados no partido. Foi um encontro preparativo do primeiro congresso do Partido Democrático Republicano, que terá lugar no dia 24 de maio, em Lisboa. De resto, este encontro realizado em Albufeira insere-se num conjunto de iniciativas que visa, justamente, preparar esse congresso. Essa Assembleia-Geral de Filiados vai eleger os órgãos nacionais do PDR, aprovar os estatutos e o programa político e ideológico do partido. Em relação ao programa eleitoral, tê-lo-emos durante o mês de junho ou no início de julho. b- Vai concorrer em todos os círculos eleitorais? MP – O PDR quer concorrer em todos os círculos eleitorais. E para tal, iremos tentar formar listas de candidatos em todos os círculos eleitorais do país. b- Contará com candidatos a deputados que já tenham representado outros partidos políticos, como o PS e o PSD? MP – Serão candidatos todas as pessoas que reunirem as qualidades que nós consideramos essenciais para o exercício das funções, independente do seu passado. O que nos interessa é o futuro e não o passado das pessoas. b- Será um Verão muito ativo para o seu partido? Tenciona percorrer o país, andar nos mercados, junto das populações? MP – Na altura própria, definiremos o itinerário e o modelo da nossa campanha. Mas será uma campanha que privilegiará a comunicação direta com os eleitores. b- Qual é a principal aposta do PDR nestas eleições legislativas? MP – Mudar este estado de coisas. Queremos mudar Portugal. Não somos uma alternativa ao Governo PSD/CDS; nós somos uma alternativa ao PSD/CDS e PS, que têm dominado Portugal nos últimos 40 anos. Somos uma alternativa a este sistema, não àqueles que dentro do próprio sistema se vão revezando para o perpetuar. Somos uma alternativa a este sistema decadente, de promiscuidades políticas e económicas, que colocou a política ao serviço dos seus agentes. Queremos recuperar a nobreza da política, queremos reconduzi-las às suas finalidades iniciais, originais de serviço público, de servir a sociedade, de servir Portugal. b- Prevê eleger deputados para a Assembleia República e fazer parte do próximo Governo? Com quantos deputados? MP – O povo português o dirá e dará resposta à sua pergunta. Apresentaremos candidatos à Assembleia da República. Eu próprio serei candidato. E, simultaneamente, direi com clareza ao país que serei candidato a primeiro-ministro. Em alternativa a esta alternância falsa, fátua, fraudulenta entre PS e PSD. b- O que está concretamente em causa no país? MP – O que está em causa no país, em primeiro lugar, é a utilização dos recursos públicos ao serviço e em benefício de particulares. Em benefício privado. Houve pessoas que ao longo das últimas décadas enriqueceram à custa do empobrecimento do Estado. Portugal nunca esteve tão pobre porque algumas das pessoas que se alcandoraram a lugares importantes na estrutura do Estado, enriqueceram. Enriqueceram – não há que hesitar em dizer- a roubar recursos públicos. É a corrupção, é o tráfico de influências, é a promiscuidade entre a atividade política e os negócios, as negociatas. É um conjunto de situações a que temos de pôr fim para reconduzir Portugal à sua verdadeira vocação histórica e ao estatuto de dignidade que deve ter a nível internacional. b- E se a coligação PSD/CDS vencer as próximas eleições legislativas, o que acontecerá a Portugal? MP – Acontecerão coisas más. Esta coligação já demonstrou que não tem qualquer respeito pelos cidadãos, pelo povo português. Mente descaradamente ao povo português. Na sequência das últimas eleições legislativas, fez exatamente o contrário daquilo que prometeu durante a campanha eleitoral. b- Em que aspetos mais critica a ação deste governo? O que mais o desiludiu? MP – Olhe, o corte nos salários, o cortes nas pensões de reforma, o aumento de impostos. Foram promessas que o PSD tinha dito aos portugueses que nunca faria. Mais: deitou abaixo o outro governo, acusando-o de querer fazer isso. E mal se apanhou no poder, a primeira coisa que fez foi exatamente seguir essa mesma política. Isso é desonestidade e nós não queremos pessoas desonestas na política. Nestes quatro anos, o que mais me desiludiu foi a mentira elevada a modelo de governação. O Governo PSD/CDS assenta na mentira permanente, na fraude, no logro, na farsa e a tentar dizer o contrário daquilo que faz. É um governo que serve objetiva e subjetivamente determinados fins específicos da sociedade portuguesa, desprezando os interesses do povo. b- Como avalia o processo de privatização da TAP? MP – Insere-se no processo de rapina dos recursos públicos do Estado português. Já nada nos resta. Temos pobreza e dívidas que estes governos deixam para as gerações futuras pagarem. b- O PS é alternativa? MP – Não, o PS não é alternativa. Qual é a alternativa que o PS hoje pode ser ao PSD se o país anda a alternar há 40 anos entre estes partidos? O CDS até já se aliou aos dois. Afinal, que alternativa é que este PS representa? Mudou o quê? De líder? Mas os outros não são os mesmos? As negociatas, as clientelas não são as mesmas? Insisto: o PS não é alternativa! Este Portugal é uma das grandes fraudes da política. b- E se o PS vencer, por exemplo sem maioria absoluta, como perspetiva o futuro do país? MP – Vejo Portugal com a mesma preocupação com que verei se ganhar a coligação PSD/CDS. No essencial, o PS, o PSD e o CDS estão de acordo na execução de políticas que favoreçam as respetivas clientelas. E para mim, tanto faz ser do PSD, como do CDS ou outro partido. O que deve ser respeitado, garantido e protegido são os interesses do país, do povo português e não os interesses das clientelas dos partidos. b- O Presidente da República Cavaco Silva diz que não dará posse a um governo minoritário resultante das próximas eleições legislativas, exigindo amplos consensos entre partidos. Como encara esse cenário? MP – O professor Cavaco Silva não é, hoje, uma voz moralmente autorizada para dizer certo tipo de coisas. Ele perdeu a autoridade moral. b- Porquê? MP – Porque ele próprio se deixou envolver. Não se portou como um verdadeiro Presidente da República. Portou-se, sobretudo no segundo mandato, como um presidente do PSD. Caucionou todos os desvarios e desmandos deste Governo, não utilizou a influência do seu cargo de Presidente da República para moderar certos ímpetos da maioria parlamentar. E, portanto, ele não tem autoridade para poder estar a dizer isso ou seja o que for. Trata-se de uma forma de estar a condicionar a liberdade de voto. É um apelo que está a fazer ao voto útil nos dois partidos do sistema de que ele próprio resulta enquanto Presidente da República e do qual é um dos principais responsáveis. b- Mas como será se não houver um governo com maioria absoluta resultante das eleições legislativas? MP – O PDR diz claramente que, hoje, na maior parte do mundo, existem governos de coligação. O que é preciso é estabelecer consensos para alianças de governo entre partidos que coloquem o interesse do país e do povo português acima dos interesses partidários e, sobretudo, das suas clientelas. b- E como encara um governo formado pelo PSD, pelo CDS e pelo PS? MP – Já se viu tudo neste país… Já houve coligações PS/CDS, PS/PSD e a atual PSD/CDS. Só falta haver essa coligação entre esses três partidos – PS, CDS e PSD. b- Está disponível para ser… MP (interrompendo de imediato) – Não estou disposto para ser muleta de ninguém! Estamos disponíveis, isso sim, para defender em todos os locais e em todos os momentos os nossos valores, as nossas propostas e o nosso programa. b- Como tem sido recebido no país? MP – Com muito entusiasmo, com muito carinho, com muita simpatia. Em todos os locais onde vou as pessoas incentivam-me a não desistir, a prosseguir este combate. Porque é um combate de regeneração e de redignificação do povo português. b- Quantas horas por dia destina a este seu novo projeto político? MP- Nem imagina… Tenho muito pouco tempo para dormir. b- Vai continuar como eurodeputado? MP – Se for eleito deputado para a Assembleia da República, deixarei o Parlamento Europeu, claro. b- Tem lamentado a atuação do Parlamento Europeu. O que mais o desilude? MP – Olhe, os ordenados que se pagam aos eurodeputados para representar povos miseráveis, como é o povo português, que estão sujeitos à austeridade, enquanto lá se vive na abundância faraónica. E é também a impossibilidade do Parlamento Europeu tomar iniciativas legislativas. Não é concebível que um parlamento não tenha capacidade para apresentar propostas de lei de forma autónoma. b- Tenciona doar pelo menos parte do seu salário de eurodeputado a alguma instituição em Portugal? MP (de pronto) – O salário é meu, não falo sobre ele. Não misturo política com moralismos… b- Qual será a primeira medida que tomará como deputado do PDR na Assembleia da República? MP – Apresentarei propostas de lei. Na altura se verão… b- O que gostaria de mudar? MP – Muita coisa, muita coisa. Estamos a elaborar o nosso programa, iremos apresentá-lo em tempo oportuno e, nessa altura, ficar-se-á a saber quais são as nossas prioridades, quais são as nossas propostas concretas. b- Mas qual é a grande estratégia do PDR para estas eleições? MP – É ser alternativa a este sistema. Não é só ao PS e ao PSD. b- Admite ser governo? MP – Essa será uma decisão que competirá ao povo português. Nós submeter-nos-emos com humildade ao veredito democrático. b- Neste almoço realizado em Albufeira, até se ouviu falar que o PDR poderá eleger uns doze deputados e o senhor seria o próximo ministro da Justiça… MP (interrompendo) – Não me pronuncio sobre resultados de eleições que ainda não tiveram lugar. Prognósticos, para mim, só fim do jogo. b- Mas consigo num próximo governo, o que poderá mudar em Portugal? MP (uma vez mais torneando a resposta) – Na altura própria apresentaremos o nosso programa eleitoral, de governação e ver-se-ão, então, algumas das medidas que tomaremos se o povo português nos atribuir responsabilidades políticas para tal. «Todas as despesas da campanha serão pagas dos bolsos dos militantes» Marinho e Pinto não sabe qual o montante a despender na campanha do PDR para as eleições legislativas, mas garante desde já que será «barata» por falta de dinheiro. Diz que «quem manda em Portugal são os portugueses» e respeitar os acordos internacionais «não é ceder as alavancas do poder aos outros». Já em relação às presidenciais, não esconde a sua disponibilidade para uma eventual candidatura. Porém, ressalva, «se na altura esse cenário se colocar será o partido a decidir» b- Não receia as decisões impostas por responsáveis de organismos internacionais, em Bruxelas, a Portugal? MP – Não tenho medo da Europa, antes pelo contrário. Sou um europeísta, quero mais Portugal na Europa e quero mais Europa em Portugal. A Europa é que manda em Portugal? É preciso moderar as situações. Não se trata de saber quem manda, porque quem manda em Portugal são os portugueses. Temos acordos que respeitamos. E quando respeitamos acordos celebrados não são as outras partes que celebraram connosco os acordos que mandam no nosso país. Respeitar os acordos não é ceder as alavancas do poder aos outros. b- O que pensa da legislação em preparação para a cobertura jornalística nas próximas eleições e a polémica daí resultante ao nível dos órgãos de comunicação social? MP – É vergonhoso o papel dos órgãos de informação nacionais que não respeitam o pluralismo democrático. Só estão a dar notícias sobre os partidos do sistema, justamente aqueles partidos que conduziram Portugal à beira do abismo. E estão a silenciar deliberadamente as alternativas que a sociedade portuguesa lhes tem dado. Estão a silenciar nomeadamente o PDR, a mentir e a deturpar as declarações do seu presidente, que sou eu. b- Mas o que lhe perguntei foi a sua opinião sobre a nova lei em preparação pelo PSD e pelo CDS… MP – Bem… a versão inicial dessa lei era a «lei da rolha», que instituía novamente comissões de censura, o «visto prévio» … b- Quanto vai custar em termos económicos esta campanha do PDR às eleições legislativas? MP – Não sei. Ainda não fiz as contas, nem serei eu que irei fazê-las. Procuraremos que seja uma campanha barata. Não temos dinheiro para a custear. Todas as despesas na campanha serão pagas dos bolsos dos militantes. b- Vai apoiar a candidatura de Sampaio da Nóvoa à Presidência da República? MP – Só falaremos sobre as eleições presidenciais depois das legislativas. Poderemos apoiar um dos candidatos já existentes; poderemos apoiar uma figura que ainda não apresentou a sua candidatura; poderemos, até, lançar um candidato próprio. Mas só falaremos acerca desse tema após as eleições legislativas. É que falar agora sobre as presidenciais é uma estratégia da atual maioria para tentar retirar importância às eleições. b- Gostaria de ser candidato a Presidente da República? MP – Se na altura esse cenário se colocar será o partido a decidir. Nunca será objeto de uma decisão pessoal, minha. Mas neste momento estamos preocupados é com as eleições legislativas e não com as presidenciais. b- Como analisa uma candidatura a Belém do social-democrata Rui Rio pela coligação PSD/CDS? MP – Não me pronuncio sobre as outras candidaturas. Acho que o doutor Rui Rio é um grande político, sério e honesto. Tem o seu lugar na política portuguesa, mas não comentarei as decisões que ele tomar. b- A cinco meses das legislativas, cada vez mais aumenta o número de pessoas a anunciarem que serão candidatos à Presidência da República. O que significa isto para si? MP – Significa a democracia a funcionar, significa a liberdade de decisão e que as instituições revelam alguma vitalidade. As pessoas estão a apresentar-se ao país e o povo fará a sua escolha e espero que conscientemente. b- Admite regressar à atividade de advogado e jornalista? MP – Nunca deixei de ser jornalista, nem nunca deixei de ser advogado. É claro que gostaria de voltar a exercer essas duas atividades, bem como a de professor. Não sei se as minhas últimas opções me permitirão fazê-lo.