A apresentação do programa para 2016 do Teatro Lethes, em Faro, teve direito a passadeira vermelha e casa cheia, na sexta-feira, 8 de janeiro.
A noite era de novidades, mas a crítica ao subfinanciamento da cultura no Algarve e um piscar de olho ao projeto de Faro, Capital Europeia da Cultura em 2027 acabaram por ser a tónica do discurso acutilante de Luís Vicente, diretor artístico da ACTA – estrutura residente no velhinho Teatro Lethes.
«Tivemos de pôr de parte alguns projetos muito interessantes, pois não conseguimos reunir condições financeiras para trazê-los cá. Mas quero acreditar que esta situação em 2017 vai melhorar com certeza», afirmou o ator, aproveitando assim as presenças em palco de Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve, e Alexandra Gonçalves, diretora regional de Cultura do Algarve.
«O próximo ciclo 2017-2020 será para nós absolutamente determinante. Toda a região vai precisar de mais financiamento, porque o senhor presidente da Câmara de Faro teve o atrevimento absolutamente notável de candidatar Faro a Capital Europeia da Cultura em 2027. Esta candidatura vai requerer seguramente um grande grau de exigência», considerou.
Vicente citou como exemplos eventos «que não temos e poderíamos ter», como o Festival de Teatro de Avignon, cidade do sul de França com 95 mil habitantes. Em 2015, com 30 espetáculos atraiu 1,5 milhão de espetadores. Citou ainda o Festival de Teatro Clássico de Mérida, cidade espanhola de 58 mil habitantes. «O número de espetadores em 2005 foi de 158302. Não temos o Palácio dos Papas, como em Avignon, não temos o Museu Romano de Mérida, mas temos outras coisas nas quais é necessário investir».
Allgarve foi «cartaz para vender casas»
Segundo Vicente, estas cidades investem numa estratégia cultural «que valoriza o produto artístico nacional. Não quer dizer que não haja produto artístico internacional. Há e muito bom. Mas não sufoca o produto nacional».
Uma crítica ao programa Allgarve que «não pode voltar a acontecer, de maneira nenhuma. Foi uma coisa que não correu nada bem. Aqui há tempos estávamos numa determinada circunstância a conduzir reflexão sobre uma série de aspetos que dizem respeito à cultura na região e aconteceu alguém falar no Allgarve. Uma outra pessoa que até já teve responsabilidades governativas disse: Oh, isso foi feito para vender casas. Não pode ser isto, ok? Não é o que vemos em Avignon ou Mérida que são projetos culturais de fundo, com uma relação muito intensa com o turismo. Não são manifestações de entretenimento», comparou.
Balanço positivo e destaques da programação
Ainda assim, «apesar de todas as contrariedades e de toda a crise, desde que aqui estamos no Teatro Lethes, temos aumentado o número de espetadores», destacando-se ainda a grande procura pelos serviços educativos. «As atividades estão ocupadas de segunda a domingo».
Relativamente a novidades, Luís Vicente destacou o concerto da guineense Karyna Gomes (9 de julho), a peça de teatro «I Can’t Breathe» de Elmano Sancho (27 de fevereiro) e a nova criação da ACTA, um texto encomendado a Jacinto Lucas Pires, «Catarina» (18 a 27 de Novembro e 1 a 4 de dezembro).
Outra novidade, para a qual já há pré-inscrições, são os dias abertos (17 a 20 de março). «Vamos abrir o palco a quem quiser afirmar o seu talento. Podem fazer tudo, só não é permitido temas religiosos ou propaganda de qualquer espécie. De resto, liberdade total», garantiu.
A 9 de maio (Dia da Europa), António Branco, reitor da Universidade do Algarve conduzirá um debate com eurodeputados e ainda no âmbito da política destaca-se «um espetáculo de intervenção que as pessoas precisam de ver, porque, infelizmente, hoje estamos a viver na democracia do medo. Precisamos de dar um grito, em comédia, para cortar com este ambiente», segundo disse um dos protagonistas, os Irmãos Machado (26 de Março).
Algarve sem força política para afirmar a Cultura
Luís Vicente começou por sublinhar que estamos «no princípio de um fim do ciclo». No final de 2016 termina o contrato quadrienal de financiamento entre a ACTA e Estado. No entanto, há «um problema de fundo» que já se arrasta há quase uma década. «No Orçamento Geral do Estado há um determinado montante para a Cultura, que é distribuído pelas regiões político-administrativas – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.
O teto do financiamento por estrutura em cada uma destas regiões é de 400 mil euros, exceto em uma. Quando chegamos ao Algarve, o teto chega a 250 mil euros». Segundo lhe explicaram «isto decorre da aplicação de uma fórmula, que nunca vi, apesar de ter pedido taxativamente», lamentou. «É um problema regional. O argumento mais razoável que me tem sido dado é que o Algarve não tem força política para impor os seus pontos de vista, não só no que diz respeito à cultura, mas também no que diz respeito a outras atividades», lamentou.
A programação completa de 2016 do Teatro Lethes pode ser consultada aqui.