Há um extenso complexo de grutas debaixo da ETAR da Companheira, em Portimão. Um património subterrâneo delicado que sobreviveu a uma obra pesada, que fomos conhecer numa visita exclusiva, com dois espeleólogos da Associação Geonauta.
A história remonta às primeiras semanas de maio de 2015, quando, durante os estudos de levantamento do maciço calcário da Companheira, os técnicos identificaram, com alguma surpresa, quatro vazios no local onde viria a ser construído um dos enormes tanques de decantação da futura ETAR de Portimão.
Na altura, tendo em conta as características cársicas do terreno, «nada faria prever a relevância que estas cavidades viriam a assumir após serem exploradas, destacando-se pela grande riqueza natural no que respeita a formações (espeleotemas)».
Quem o diz são Márcia Grosso, 39 anos, e Carlos Oliveira, 52 anos, espeleólogos da associação Geonauta.
Após esse reconhecimento «houve sempre uma preocupação acrescida na preservação destas cavidades e na harmonização das mesmas com a continuidade da obra», contam ao «barlavento».
É manhã de quarta-feira, 14 de fevereiro. Equipados com capacetes e lanternas especiais, fatos de proteção e botas, arneses de segurança e uma parafernália de cabos, o par destaca-se à distância por entre os operários que trabalham na obra.
«Havia uma grande pressa em fazer uma primeira avaliação, porque isto foi um imprevisto. E mesmo com a existência das grutas, a obra teria que avançar. Relocalizar os tanques estava fora de questão», sublinhou Márcia, designer de interiores, enquanto prepara a linha de vida e outras redundâncias de segurança para a descida.
A primeira expedição que fizeram às cavidades, quando a ETAR começou a ganhar forma, onde nunca ninguém tinha entrado, no dia 12 de maio de 2016, deixou-os deslumbrados. A formação de uma gruta depende da alquimia entre as águas subterrâneas e propriedades físicas dos terrenos ao longo do tempo.
Carlos Oliveira, um veterano na exploração espeleológica do Algarve, garante que não há duas cavidades iguais. E que não têm conhecimento de existir na região um cenário parecido sequer ao que iríamos presenciar, quer no que respeita ao tipo de formações, quer à sua tonalidade. Estas características únicas devem-se, segundo os espeleólogos, às condições edafoclimáticas locais, atuais e passadas, bem como à proximidade de água do Rio Arade e de todos os detritos que circularam no interior.
«As ribeiras do Algarve são de escoamento. Aqui vemos o resultado da erosão por abalos e nota-se que o movimento de água era lento», diz Carlos Oliveira. Entretanto, um grupo de engenheiros, em ronda técnica para observar o progresso da construção da ETAR, depara-se com um espetáculo inédito.
Márcia Grosso acaba de arrestar uma grua hidráulica com um martelo pneumático. Deveria estar a partir rocha, mas, para já, é mais útil aos espeleólogos. Bem travada, a máquina servirá para criar pontos de fixação para as cordas e cabos que nos levarão a esta viagem ao mundo subterrâneo. O operador entrega-lhe as chaves. Dali não sairá para lado algum. Já nós, bem, veremos…
O briefing é curto: «se fizerem o que dissermos, correrá tudo bem», avisa Carlos, enquanto desaparece pela terra adentro com um à vontade invulgar. Os 15 metros de descida vertical são feitos em duas etapas. Uma primeira pelas manilhas que conduzem a uma espécie de túnel apertado, e daí, para o fundo da primeira concavidade.
O pulso acelera um pouco. Por cima de nós, é nítida a laje escura de betão armado da superestrutura do tanque de decantação. Ainda está vazia, mas já pinga.
«É a condensação. Aqui em baixo a temperatura ronda os 22º centígrados. Lá fora está mais frio», explica Carlos Oliveira. Há algum tempo que não visitava o local. Por isso, decide ir à frente, avaliar as condições de segurança da cavidade e eventuais perigos. Nada a temer (a não ser, talvez, a subida de regresso à superfície dos jornalistas).
O primeiro contacto visual com a gruta justifica de imediato todo o esforço investido. À entrada «temos um corredor alto, onde se consegue andar de pé, sem rastejar. Noutras grutas há mais desníveis, mas neste caso as cavidades são mais planas, representam menos perigo e são de fácil progressão para os visitantes».
Outra característica que a torna muito apelativa para os espeleólogos «é o facto de nunca ninguém ter cá vindo», descreve Márcia Grosso.
A visão humana mostra as suas limitações. Não por causa do escuro. É insuficiente para absorver tantos pormenores. Cada recanto resgatado da obscuridade pela lanterna revela depósitos de calcita, texturas diferentes das paredes naturais.
As estalagmites e espeleotemas brilham, gotejam, desdobram-se em «bandeiras». Aqui e ali há formações «couve-flor», como lhes chamam na gíria dos espeleólogos. Há lagos em miniatura, poças e os rastos lentos que o elemento água desenhou.
«Cada cavidade tem uma beleza própria pela maneira como se desenvolve. Todas são especiais. Ver uma pela primeira vez, que não tem ação humana, é de facto um grande privilégio», diz Márcia.
«Isto é só natureza, só tem a parte geológica. Nunca foi habitada», acrescenta Carlos Oliveira, sentado junto a uma generosa estalagmite que estima ter uma idade aproximada de cerca de 300 mil anos.
Excetuando a primeira sala que está coberta de pó resultante dos trabalhos da obra, «diria que todas as outras galerias da cavidade estão em elevado grau de preservação». Desde a primeira visita, as ações de monitorização eram realizadas entre duas a três vezes por semana, ainda antes da construção da ETAR avançar.
«Observávamos os fissurómetros, e em função do seu estado era avaliado o fator de risco tanto para as máquinas, como para a preservação da cavidade. Alguns equipamentos pesam várias toneladas e sem esta monitorização apertada poderiam estar sujeitos a um abatimento da cavidade e consequentemente a serem engolidos. O nosso teto é o chão deles. Tivemos que elaborar e interpretar a topografia da gruta para podermos sugerir uma adequação dos meios mecânicos no local», diz Carlos Oliveira.
Um trabalho arriscado? «Embora em muitas situações os espeleólogos integrem equipas multidisciplinares, tais como biólogos, geólogos, arqueólogos, por norma os espeleólogos são sempre quem têm o primeiro contacto com a cavidade. Se detectarmos algum achado fora do nosso âmbito temos sempre por obrigação informar a quem de direito, no caso de vestígios humanos ou de presença humana, o alerta será obviamente dirigido a um arqueólogo. Os espeleólogos realizam a prospecção de terreno», diz o espeleólogo da Geonauta, marinheiro de profissão.
Entretanto, progredimos cerca de 50 metros pelas galerias, às vezes de pé, outras rastejando. Carlos desafia-nos a encontrar o caminho de volta às linhas da vida. Qual a direção correta no labirinto? A expedição dura cerca de duas horas, talvez mais. O tempo perde o sentido, e o espaço, também, na visão dos mais inexperientes.
«Já há muitos arqueólogos a fazer formação de espeleologia porque neste meio conseguem fazer as teses mais exclusivas que os outros não fazem», aponta Márcia Grosso. E com razão. No regresso à luz do dia, ainda descemos para entrar no algar, a norte, onde uma equipa de arqueólogos, aprovada pela Direção Geral do Património Cultural, investigou todos os possíveis vestígios de presença humana em tempos remotos. Desta vez, contudo, uma simples escada facilitou o acesso.
Geonauta saúda conservação das grutas
A Geonauta é uma associação espeleológica sem fins lucrativos, fundada em 1978. Com diferentes dinâmicas ao longo dos anos, deu um contributo fundamental em muito do que hoje se sabe acerca das grutas algarvias. E continua a ter um papel ativo, dinamizada também por Cristiano Cavaco, Zozimo Freire e Paulo Beirão. Carlos Oliveira, 52 anos, um dos pioneiros deste coletivo saúda a postura da Águas do Algarve, em ter construído acessos às grutas.
«Acho que é um exemplo. Conseguiu-se fazer a ETAR na mesma, sem estragar nada. Se fosse há uns anos, com pessoas de sensibilidades diferentes, neste momento, isto estaria cheio de cimento», disse ao «barlavento». «Foi o que aconteceu no Escarpão», perto de Paderne, considerada uma das principais grutas do Algarve, com dois níveis verticais e um lençol freático ativo. Está inacessível desde 2003 porque «uma boa parte da areia retirada para construir a Marina de Albufeira foi lá entulhada. Foram muitos metros cúbicos, toneladas, de tal forma que hoje não é exequível retirar».
Grutas algarvias têm dado muito à ciência
A Associação Geonauta apoiou a entomologista Sofia Reboleira, que descobriu novas espécies para a ciência na região algarvia. Em 2009, a bióloga, então doutoranda na Universidade de Aveiro, descobriu um inseto sem olhos e sem asas, no âmbito do doutoramento, chamado Litocampa mendesi. Depois encontrou, numa gruta perto de Portimão, um pseudo-escorpião chamado Lusoblothrus aenigmaticus, tão raro que foi considerado pela comunidade científica uma relíquia biológica, quase um fóssil vivo. Descobriu ainda o maior inseto subterrâneo terrestre da Europa (Squamatinia algharbica), outro antepassado vivo, que terá sobrevivido a vários episódios de alterações climáticas refugiado no meio subterrâneo, só existente na fauna cavernícola algarvia.
Selar grutas seria «política da terra queimada» diz Joaquim Peres
«A Águas do Algarve não tem no seu core business, a exploração turística ou cultural de espaços. Aquilo que a empresa teve foi o cuidado de preservar o geoespaço, para que possa vir a ser objeto de estudo pelas entidades competentes, quando assim o entenderem. Portanto, apenas criou as condições de acessibilidade. Penso que grupos organizados como a Geonauta poderão aceder e fazer os estudos que acharem que devem ser feitos», disse Joaquim Peres, presidente do conselho de administração da Águas do Algarve, remetendo a tutela para a Direção Geral do Património Cultural.
Questionado sobre se não seria mais fácil selar tudo, para não ter inconvenientes, Joaquim Peres responde que «essa seria uma política da terra queimada, esquecer tudo aquilo que é o passado e passarmos à frente. Não é essa a postura da Águas do Algarve, no que respeita às questões da cultura, dos antepassados, da história. Há que garantir condições de vida às gerações de hoje, preservando a existência de ontem».


















