O «barlavento» foi à aldeia de Alte, à procura de Pedro Domingues, um artista local para quem a bicicleta é o centro do universo e que recicla para fazer arte. Acabámos por encontrar um casal, porque a esposa Ana é a grande comunicadora e trave-mestra na comercialização das obras. Trinta e oito anos cada um e uma grande fé no seu projeto.
Numa conversa a três, descobrimos que, desde criança, Pedro Domingues teve gosto pelas artes plásticas, desenvolvendo o seu talento com o mestre Daniel Vieira, grande artista plástico local. Mas também teve formação em desenho técnico de arquitetura e foi a este que se dedicou como modo de vida. Nas horas vagas, dedicava-se à mecânica de bicicletas, que aprendera com o seu avô Germano Madeira.
Há cerca de três anos, ficou desempregado e…
Pedro Domingues – Senti a necessidade de fazer algo. Decidi relacionar a reciclagem dos materiais que sobram dos arranjos das bicicletas com a arte, fazendo os mais diversos objetos, como relógios e bijuteria. Mas isto é uma espécie de artesanato e toda a gente tenta reproduzir um objeto, embora cada um tente dar-lhe o seu cunho pessoal. De seguida, registámos a marca Germano, de transformação de materiais e de restauro, que engloba também uma coleção de t-shirts com o motivo «bicicleta» e equipamentos de ciclismo. E fazemos restauros em bicicletas antigas, tentando o aproveitamento de materiais, para baixar o custo. O nosso objetivo é incentivar as pessoas a andar de bicicleta, no dia-a-dia. Também vamos organizar, dia 29 de março, um passeio de bicicleta em Alte. Porque, além de sermos uma marca, somos daqui e queremos que as pessoas venham a Alte conhecer a nossa aldeia. E aproveitamos o passeio para angariar bens alimentares para o Centro de Animação Infantil de Alte.
Em suma, tudo o que se relaciona com a bicicleta está coberto pela marca Germano. Como surge o nome?
É uma homenagem ao meu avô, que teve uma loja de bicicletas em Alte, nos anos trinta do século passado, onde as vendia, reparava e alugava. E também foi músico, tocava acordeão.
Vocês têm feito grande trabalho de divulgação, através das redes sociais?
Temos, no facebook. No ano passado, organizámos um concurso de fotografias com uma frase sobre a bicicleta, que estão em exposição no Polo Museológico de Alte, para desenvolver a interação entre as pessoas e a marca.
Onde se encontra, também, uma exposição dos vossos trabalhos?
É verdade, até ao dia 28 de fevereiro.
Comercialmente, porque o vosso projeto é essencialmente de índole comercial, como está a situação?
A marca levou dois anos a implementar e, a bem dizer, tem um ano de atividade. Não beneficiámos de qualquer subsídio. Frequentei o plano de negócios durante um mês, no Centro de Emprego e Formação Profissional, mas deixei a meio, porque eles incentivam-nos a criar microempresas, mas depois travam-nos. Como se diz por aqui: «cortam-nos as pernas». A intenção do plano de negócios era abrir uma loja física, um «Bike Café». Mas preferimos ir devagar, não gostamos de dar o passo maior do que a perna. Como é que comercializamos? Além de termos uma página na internet e de estarmos no facebook, fazemos feiras e passeios de BTT com exposição dos produtos.
E qual tem sido a resposta?
Muito positiva. O público tem gostado e comprado. Mas o estrangeiro compra muito mais as bijuterias, porque nos outros países já existe muita gente a fazer estes trabalhos de reciclagem de produtos das bicicletas. Há três anos, fiz um estudo de mercado e não havia ninguém a fazer estes trabalhos de reciclagem, em Portugal. Aliás, havia empresas, mas trabalham de modo diferente: agarram na bicicleta e reproduzem aquilo tudo com peças novas e pinturas feitas à máquina. Não é esse o nosso objetivo.
E têm feito muitas recuperações de bicicletas antigas?
Recuperámos cinco, num ano. Somos pequenos e gostamos de fazer as coisas devagar e bem.
E o futuro?
É ir crescendo devagarinho. E abrir um «Bike Café», para termos um espaço físico. Agora, temos de meter as coisas na carrinha e ir ter com as pessoas. O que gostávamos era que elas viessem ter connosco. Inicialmente, pensámos em abrir em Alte, mas agora estamos a estudar outras alternativas e ainda não decidimos onde vamos fazê-lo. Alte é local de passagem de muita gente que anda de bicicleta, mas tem uma população pequena. Gostávamos que fosse aqui, porque ambos nascemos e crescemos em Alte, as nossas famílias são daqui. E porque pensamos que a aldeia necessita de uma injeção de qualquer coisa, para não morrer.
Entretanto, Pedro Domingues conseguiu emprego como mecânico numa loja de bicicletas, o que lhe permite alimentar a família, mas lhe deixa menos tempo disponível para se dedicar à marca Germano. Ao mesmo tempo, reduziu a necessidade e a urgência do projeto. Mas continuam apostados na divulgação e, em julho, vão fazer uma atividade com as crianças sobre reciclagem e bicicleta, para motivá-los a trocar a playstation pela bicicleta. Para junho, estão a programar uma concentração de bicicletas de vários modelos e épocas.