O aspirante Geoparque Algarvensis, projeto que une os municípios de Loulé, Silves e Albufeira tem «grande potencial» para vir a juntar-se à Rede Global de Geoparques (GGN) da UNESCO, já em 2025.
A Associação Geoparque Algarvensis (AGA) recebeu a segunda visita técnica dos membros do conselho executivo da Rede Mundial de Geoparques da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura], entre os dias 2 e 5 de agosto, em Loulé, Silves e Albufeira. O objetivo foi verificar o progresso feito no âmbito da candidatura a submeter até antes do final deste ano.
«Há um grande potencial e envolvimento por parte dos três municípios que quiseram juntar-se e trabalhar em conjunto para valorizar este território. Não é fácil. Desde janeiro, vejo que há uma boa evolução do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, mas há muito ainda por fazer. Creio que se os esforços seguintes continuarem neste sentido, existe a possibilidade de um resultado positivo», disse Guy Martini, presidente do Conselho dos Geoparques Mundiais da UNESCO, aos jornalistas, à margem no último dia do programa.
E o que precisa de ser feito? Respondeu Artur Sá, coordenador da cátedra UNESCO de «Geoparques, Desenvolvimento Regional Sustentado e Estilos de Vida Saudáveis», da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
«Sobretudo um trabalho de continuação neste compromisso comum. Apesar de o território Algarvensis ser formado por três concelhos, na verdade, aquilo que se propõe é um território único, respeitando, naturalmente, esta designação. Aquilo que há a fazer é continuar na senda do trabalho realizado até agora, um trabalho com bastante compromisso e profissionalismo».
Mas todos «devem estar cientes que estes são apenas os primeiros passos de um projeto que se sobrepõe para ser para gerações. Portanto, não é algo de caráter político, embora tenha de contar com o apoio político. Esse é o grande desafio. Todos perceberem que naquilo que estes três concelhos convencionaram chamar o território Algarvensis, o que se propõe fazer é criar condições para que seja um território de desenvolvimento regional sustentável, feito com com pessoas e para as pessoas».
Então, «é muito importante que todos sintam que fazem parte e aproveitem as ocorrências singulares do património natural, geológico, biológico e cultural. Tanto o tangível como o intangível. É tudo isso que faz um potencial muito interessante que é preciso trabalhar», concluiu.
Por outro lado, Guy Martini teve alguma dificuldade em escolher um ponto forte da candidatura, embora «se essa pergunta for feita do ponto de vista geológico, temos dois sítios fantásticos que contam a evolução da vida, desde há 200 milhões de anos», referindo-se à Rocha da Pena, onde foi encontrado o Metoposaurus algarvensis e também, à Praia dos Arrifes, onde estão a ser estudadas e valorizadas várias pegadas de dinossauros do Cretáceo Inferior, algumas das quais inéditas.
«Há muitos fósseis de eras passadas que nos dão a conhecer vários ambientes. Em termos de natureza, temos partes da costa que são fantásticas, como o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado. Temos as pessoas, em Armação de Pêra, que estão ligadas à tradição da pesca artesanal. Não defendem apenas a necessidade de protegerem os recursos naturais, mas também compreendem a defesa de artes tradicionais, como o alcatruz», acrescentou Guy Martini. «É um elo fantástico entre o trabalho em barro, a sabedoria local e a técnica da pesca. Na verdade, toda esta cultura e histórica é fantástica. E no fundo, é isto que temos de apresentar: o verdadeiro e genuíno».
Toda esta variedade, segundo o responsável, é um dos melhores argumentos da candidatura. «Sim, está a criar-se uma entidade comum, para reconectar a população através do desenvolvimento. Temos pessoas do litoral, com ligação à pesca mas também ao desenvolvimento imobiliário e pessoas do interior, com recursos muitos diferentes. É boa ideia reunir estas, ao criar um novo fluxo de circulação, até de turistas, da costa, onde hoje estão concentrados, até ao interior. Penso que isto criará uma economia mais igualitária no território».
«É uma visão fantástica e um projeto para os próximos 20 anos. O objetivo deve ser uma população que possa defender os seus valores e a sua natureza», resumiu.
Sá corroborou: «para o Algarve, é muito importante que haja projetos que valorizem o interior e outros produtos» que não apenas o sol e mar. «Até porque esta é uma abordagem holística ao território. Tudo aquilo que é identitário e diferenciador e que permite, digamos, às pessoas que o visitam, terem uma experiência imersiva, tudo isso é fantástico. Além disso, traz aos locais, àqueles que aqui vivem, novas oportunidades em termos de desenvolvimento, de emprego, novos produtos. Uma nova realidade que, se devidamente compreendida e depois aproveitada, trará às novas gerações, melhores condições de vida que as dos seus pais».
«Claro que hoje em dia enfrentamos muitos desafios, e nestes territórios estamos muito atentos às questões da sustentabilidade, mas também às questões associadas aos riscos naturais e às alterações climáticas. Até em termos de ciência, estes territórios assumem-se como uma espécie de laboratórios vivos, laboratórios de educação, mas também de sustentabilidade. Isto é inovador. Como costumamos dizer, os geoparques mundiais da UNESCO são os novos territórios do século XXI».
«E o Algarve pode vir a ter um, se continuar a trabalhar da forma que estão a trabalhar. Será uma questão de tempo», previu Artur Sá.
Segundo Martini, todos os anos a UNESCO recebe entre 15 a 20 candidaturas. Algumas são rejeitadas de imediato, outras são adiadas, de forma a poderem amadurecer. Cada país pode fazer duas candidaturas por ano. Não concorrem umas com as outras.
Em Portugal, para 2024, só está prevista a do Algarve, segundo ambos os responsáveis. A decisão deverá ser conhecida no próximo ano.
«Se o trabalho for feito, de acordo com as nossas recomendações, com a estratégia, sim há uma grande possibilidade. Mas, repito, há trabalho a ser feito», sublinhou, de novo, Martini.
Agora, «estamos numa missão de de aconselhamento. Temos um compromisso de apoio a estes territórios que estão a desenvolver projetos. Cada vez que visitamos o território, no final, enviamos um relatório em que indicamos um conjunto de recomendações para ajudar os responsáveis locais a continuar o seu trabalho, a seguir um caminho e, eventualmente, a fazer algumas correções. Tentamos que quando a candidatura for encerrada e enviada à UNESCO, esteja nas melhores condições possíveis, porque na Rede Global de Geoparques (GGN), o que queremos mais é territórios novos, vibrantes e contribuintes ativos para essa rede».