Está a nascer um novo mercado na freguesia do Montenegro, em Faro, que quer afirmar-se às quartas-feiras e aos domingos.
Às quartas-feiras e aos domingos, vendedores e curiosos começam a ocupar o antigo espaço do Equinostrum, um centro hípico encerrado há anos. Trata-se de uma iniciativa privada de João Parreira, mais conhecido por «Russo» das bifanas.
A ideia surgiu devido à ausência de mercados pontuais neste concelho. O mais próximo é o mercado de Quarteira às quarta-feiras, em Loulé.
O promotor decidiu avançar porque «há muitas pessoas que querem vender e não conseguem vaga no mercado de Quelfes e no Parque das Cidades», que já estão bem estabelecidos. Em conversa com outros colegas, encontrou a solução de abrir espaço no Montenegro, onde cabem velharias, artigos em segunda-mão, roupa, frescos, veículos e até embarcações, se alguém quiser trazer a negócio.
Parreira garante que pediu esclarecimentos à Câmara Municipal de Faro e que foi dispensado de formalidades. «Disseram-me que como é um recinto privado, não precisa de licença de ocupação de espaço público, não precisa de mais nada. A única coisa que tive de licenciar foi a roulote de comes e bebes», resume. Ainda assim, admite que terá de comunicar ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), pois o terreno situa-se dentro do Parque Natural da Ria Formosa.

Os últimos dois meses foram dedicados a limpar o local, onde se acumulava lixo «um monte de acácias e canas». Agora, quem quiser vender pode instalar-se sem pagar nada. «Estamos no início. Se algum dia se vier a cobrar uma pequena taxa será apenas para ajudar nas despesas da recolha do lixo», adianta. «Terei de alugar dois contentores que serão recolhidos por um privado», apesar de já ter sido feito um pedido à FAGAR, que não acredita ver satisfeito.
Para já, o mais importante é atrair feirantes, tendeiros e adeleiros. «Não há nada em Faro. Acho que a ideia vai ter aceitação. Há pessoas que vivem disto e só encontram espaços ao domingo. Aqui podem vir também durante a semana», acredita o organizador. O horário será das 8h00 às 17h00. No futuro, «antes das 15h00 ninguém sai», garante João Russo que já conta com uma grande experiência em eventos ambulantes.
Sobre a utilização do espaço, Parreira esclarece que chegou a um acordo de cavalheiros com o proprietário: «Eu limpo e cuido e podemos usufruir».
Entre os feirantes está Vítor Coelho, um veterano do adelo e não há quem não o conheça no mundo das velharias e dos colecionáveis. Presença assídua há mais de dez anos no circuito regional do compra e vende, diz que só não vê a economia a melhorar.
«As pessoas continuam a vir às feiras e mercados. Mas hoje é mais fraco do que era antes. Não há poder de compra. As pessoas não ganham dinheiro para a comida, quanto mais para isto. Desde há uns seis anos tem havido um declínio. Só faço isto por vício mesmo», sublinha, apesar dos preços baixinhos na sua banca.
E o sortido que traz é rico: anéis, colares e bijuteria diversa, loiça, terrinas antigas, bric-a-brac decorativo, relógios, pavões em metal, quadros e molduras.
«São coisas que vou arranjando, que as pessoas já não querem e eu trago para vender», diz.

Os objetos em bronze são os que mais sucesso fazem. E não se pense que é o investimento externo quem mais ordena.
«Os estrangeiros não compram tanto como as pessoas dizem. Se virem que tenho uma santa ou um Nossa Senhora à venda, não ligam. Se vierem coisas para decorar a casa, já gostam mais», compara.
Sobre o evento em Faro reconhece o risco. «Não há este hábito. Não sei porquê, mas parece que as pessoas não aderem muito. Mas nós, com com a nossa força de vontade, vamos fazer para que venham», afirma
A perseverança e a persistência compensam, pois segundo conta, «no inicio, quando fizemos a feira em Almancil era igual. Agora já está diferente. Mas foi um trabalho de anos conseguir fidelizar» o público.
Quem delira com esta oferta são os colecionadores de postais e de calendários e há quem o procure em dias de feira, logo de madrugada, ainda nem a banca está montada, em busca de novidades.
Por sua vez, Dionísio Dias, vendedor de frescos, acha que o novo evento tem boa localização, «e tem todas as condições para arrancar. Mas é preciso investir para ter resultados a curto prazo, porque senão, pode vir a ser um falhanço».
Este pequeno produtor traz batatas, tomates, pimentos, maçãs, tudo cultivado na horta do Besouro. Diz que falta fazer a marcação e numeração dos espaços para evitar conflitos entre vendedores, se houver ocupação indevida, e também preparar o espaço para o inverno, sob pena de se formar um lamaçal.

Dias concorda que os mercados ainda são atraentes. «Acho que sim e cada vez mais. Porque é onde as pessoas vão à procura de alguma coisa diferente daquilo que há nas grandes superfícies. Hoje, muitos querem valorizar a natureza».
E também a saudade vende. «Vão à procura de recordações, de algo que faça lembrar os avôs. Porque senão não tinha tanto interesse. Ainda há pouco, chegou aqui uma pessoa e disse-me: estas uvas não são estrangeiras! Respondi: são portuguesas. Levou um quilo. Normalmente é assim que sou abordado e por isso vejo o que motiva e traz as pessoas aos mercados».
Paula Dias é agricultora na Quinta das Marias, na Luz de Tavira. Faz o mercado de Loulé aos sábados e aos domingos vende no Largo do Carmo, em Faro. Vê com bons olhos o novo evento. «Aqui mistura-se tudo, como se faz noutros mercados», por exemplo, o de Estoi, que acontece no segundo domingo de cada mês. «Este algo novo para quem possa vir. O espaço em si está bom. Agora falta divulgar mais para isto começar a mexer».
Quem quiser participar pode contactar o organizador através de telefone (917 733 918).