Guia Prático para a COVID-19 tem linguagem e grafismo simples, claro e conciso, de fácil leitura para todas as idades. Tem por objetivo ser entregue em centros de saúde, escolas e estruturas residenciais para idosos de forma a combater a desinformação sobre a doença.
Um grupo de quatro estudantes do terceiro ano do Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da Universidade do Algarve (UAlg), desenvolveu um Guia Prático para a COVID-19 com o intuito de educar para a literacia em saúde, sensibilizar e reunir informação fidedigna e relevante, num só documento, para um acesso rápido da população.
Temas como o que é um vírus, o que é a COVID-19, onde surgiu, quais as diferenças em relação à gripe, quarentena e isolamento, síndrome pós-COVID, vacinação e até que tipo de apoio cada pessoa pode pedir, estão englobados no documento.
O projeto foi levado a cabo, durante cinco semanas, por Carolina Malhão, 26 anos, Diogo Rama, 27 anos, Duarte Próspero, 26 anos, e João Cardoso, com 34.
A ideia surgiu quando Carolina e Duarte, ambos colaboradores na linha da Saúde24, se aperceberam do grande volume de chamadas apenas para fazer perguntas «que seriam totalmente desnecessárias caso as pessoas tivessem acesso à informação correta», começa por explicar ao barlavento, Carolina Malhão.
Além disso, depois de os quatro estudantes terem realizado os seus estágios clínicos em Medicina Geral e Familiar, aperceberam-se também que a informação existente nos centros de saúde é muito dispersa.
Por tudo isso, «tivemos a ideia de fazer um guia prático, destinado à população, no qual poderíamos explicar a COVID-19, embora sem ser de forma científica. E portanto, falámos com os responsáveis pelas unidades curriculares do nosso curso de medicina» que acolheram o projeto.
Parece simples, mas teria que haver um ponto de partida. «Durante o estágio reparámos que há muitas questões, relacionadas com vários tópicos dentro da saúde, que as pessoas têm conhecimentos errados. No caso da COVID-19, há muita desinformação, o que faz com que haja muita dificuldades em ter uma ideia correta da doença. Por exemplo, algo tão importante como a vacinação, acaba por não ter impacto em certas pessoas devido à falta de informação», explica João Cardoso.

Outra das lacunas que o Guia Prático quer colmatar é o ruído que circula nas redes sociais. Diogo Rama afirma que «desmistificar notícias falsas (fake news) é um dos pontos mais importantes para nós. Uma pessoa que está convencida de uma mentira vai tornar-se um perigo para a comunidade, sem sequer se aperceber disso. Não podemos desistir desses cidadãos, temos é de os fazer perceber» que não podem confiar em informações avulsas e de fontes duvidosas.
O último ponto identificado pelos finalistas, que motivou à criação do documento, prende-se com a questão de que a informação válida que existe, muitas vezes utiliza um léxico técnico que pode não ser compreendido por todos, sobretudo por quem não tem conhecimentos específicos na área da saúde.
«Uma das ideias principais é mesmo simplificar as temáticas da COVID-19, de maneira a que as pessoas fiquem informadas de forma real, verdadeira, simples e clara. Isto para que, todo o tipo de atitudes, como comportamentos individuais de etiqueta respiratória, ou adesão à vacina, seja facilitada por quem de facto está habilitado a explicar o que se conhece sobre esta doença.
Ou seja, a principal premissa que nos fez avançar é a literacia em saúde, de forma simples e ao alcance de todos», acrescenta João Cardoso.
Assim nasce o «COVID-19, Guia Prático da Doença», documento com 24 páginas de informação organizada em tópicos, infografias, ilustrações, esquemas e analogias simples, tudo pelas mãos dos quatro estudantes.
A revisão científica ficou a cargo de médicos e professores que compõem a comissão científica do MIM da UAlg.
De acordo com Diogo Rama, «definimos uma ordem sequencial das ideias e quisemos apresentar a doença como se uma pessoa não soubesse mesmo nada sobre ela. O Guia começa com uma sequência cronológica com os maiores eventos, de como surgiu na China, quando foi decretada a pandemia e quando se identificou o primeiro caso em Portugal, para contextualizar» o público-alvo.
«Achámos também importante esclarecer o que é um vírus, com uma explicação básica ilustrada. Em seguida, aprofundamos o que é a COVID-19, o que a causa, e identificamos o que a distingue, por exemplo, da gripe. Claro, falamos sobre a etiqueta respiratória e a importância da higiene das mãos e do uso de máscara. Abordamos os meios de proteção e, de seguida, da vacinação. Explicamos primeiro o que é uma vacina e distinguimos os mecanismos de duas vacinas diferentes, como a da Pfizer e da Astrazeneca. Usámos uma analogia com um autocarro com terroristas», brinca Diogo Rama.
O colega João Cardoso continua: «abordamos também algumas questões relacionadas com a quarentena, com o isolamento, com o tempo de incubação do vírus e porque é que as pessoas têm de ficar em casa determinado número de dias. Abordamos a questão do isolamento mesmo no caso dos testes darem negativo e o porquê do tempo de incubação».
«Até explicamos qual a diferença e porque é que existem pessoas sintomáticas e pessoas assintomáticas, ao nível biológico», utilizando uma alegoria visual, «porque é que há pessoas que desenvolvem sintomas, e sintomas graves, e porque é que há quem não desenvolva nenhuns», diz Carolina Malhão.
Mitos e outros projetos
Os últimos capítulos dizem respeito aos apoios financeiros, à desconstrução dos mitos e a projetos que outros colegas do MIM também estão a desenvolver no âmbito da COVID-19.
«A pandemia está interligada à economia. Sabemos que os rendimentos foram muito afetados e quisemos abordar essa questão. Não explicamos o porquê, mas abordamos os vários tipos de apoios que existem, através da Segurança Social e que o governo disponibiliza. Descrevemos os passos que as pessoas devem seguir para os obter e para quem se destinam. Achámos que era importante» passar essa mensagem de esperança, caracteriza Cardoso.
Por fim, «explicitamos alguns mitos muito comuns, tais como o uso das máscaras, a falta de oxigénio, o uso de antibióticos e a ingestão de bebidas alcoólicas. Selecionámos alguns dos mitos que fazem também parte da Organização Mundial de Saúde (OMS) e explicamos o porquê de não serem corretos e o porquê de serem de outra maneira. O último ponto foi dar ao leitor a ideia do que o MIM da UAlg está a fazer».
Em boa verdade, este projeto de intervenção comunitária surge no âmbito de uma unidade curricular, Módulo Escola do Estudante (MEE), onde outras iniciativas semelhantes estão a ser desenvolvidas. «Este é apenas um projeto de um grupo. Existem mais trabalhos realizados por colegas para as pessoas saberem que a UAlg está muito ativa desde o início da pandemia», sublinha.
E a quem se destina o Guia Prático da COVID-19? Diogo Rama responde: «o público-alvo principal são os jovens e os adultos porque são quem está mais exposto à desinformação. No entanto, o nosso objetivo é que seja distribuído em escolas, mas que a minha avó, por exemplo, também o consiga ler, entendê-lo e achá-lo interessante».
«A ideia inicial é que esteja distribuído, em formato físico, nos centros de saúde, o que irá necessitar de aprovação pela Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, em escolas, nos lares de idosos e em instituições de cuidados médicos».
O formato digital já está disponível no site da Faculdade de Medicina e de Ciências Biomédicas da UAlg.
«Primeiro queremos focar-nos no Algarve e para isso até já contamos com a parceria com o Algarve Biomedical Center (ABC), mas se houver adesão e se for possível escalarmos para algo maior, claro que estamos disponíveis», garante o futuro médico.
