Último construtor de murejonas faz peças de arte únicas em Olhão

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Francisco Valério, 74 anos, pescador reformado de Olhão, acredita que é um dos poucos no Algarve que ainda domina a técnica de construção de murejonas, arte de pesca tradicional algarvia.

O ofício de pescador está enraizado em muitas famílias algarvias, por vezes, há várias gerações. É o caso de Francisco Valério, 74 anos, mais conhecido em Olhão por Ti Chico.

Começou por acompanhar o pai com apenas nove anos. Mais tarde, já com o seu barco, ele e mais um camarada, laborou por mais de 50 anos. Aposentou-se há pouco tempo, mas nem por isso quis deixar de estar ligado ao mar, mesmo quando abriu atividade como artesão.

«O meu barco, o Eduardinho, afundou há três anos. Tive um problema no coração e acabei por me reformar», começa por contar ao barlavento.

A filha, Laura Dias, 33 anos, funcionária pública acrescenta que «precisávamos de arranjar algo que mantivesse o meu pai entretido. Como ele sempre fez com tanto gosto as murejonas, tivemos esta ideia. Ele fez umas peças pequenas, mostrámos aos mais próximos e deram-nos ideias de usarmos outros fios e até fazermos candeeiros. Teve muita aceitação e fomos à nossa primeira feira em Olhão, há dois anos, para ver o feedback das pessoas. Tivemos imensas visitas».

Assim surgiu a marca, «Murejonas do Ti Chico», presente nas redes sociais, que segundo Laura Dias, «abriu todo um novo mundo».

No entanto, para Francisco Valério, a «enorme paixão», remonta aos tempos de criança.

«Quem fazia as murejonas era o meu pai. Aprendi a fazê-las com ele. Via e copiava. Era moço, tinha 10 anos. O meu pai usava as murejonas maiores para o polvo. Apanhávamos chocos, tamboril, besugos. Estávamos sempre rodeados de peixe. As murejonas eram alcatroadas para ficarem camufladas no fundo do mar. Era assim que o peixe entrava e comecei a fazê-las para a pesca. Alcatroava-as com um pincel quando era pequeno. Só mais tarde é que arranjámos uma bilha e um fogareiro para aquecer o verniz. Punha-as a secar e depois iam para o mar», recorda Ti Chico.

Hoje, já não é permitido pedir licenças para pescar com murejonas, só quem já estava autorizado para essa arte é que ainda pode continuar a usá-las. Foram substituídas por covos de plástico, que o Ti Chico também faz.

Mas com a marca do pescador, «a ideia é manter viva a memória das murejonas e modernizá-las com diversas cores e funcionalidades decorativas», explica Laura Dias.

Nas «Murejonas do Ti Chico» as encomendas e os pedidos podem ser personalizados. Muitas das murejonas são colocadas na parede, sem qualquer adereço, mas há quem escolha transformá-las em candeeiros, floreiras, bases para velas e até árvores de natal. Processos que podem demorar até sete horas, consoante o tamanho da murejona.

«As mais pequenas demoro quatro ou cinco horas, mas as maiores posso demorar seis ou sete. Sou o único que ainda sabe fazer murejonas e transformá-las em peças de artesanato só eu é que o faço. O Jacob (companheiro de pesca) também sabe fazer, mas ele já tem 94 anos. É o que faço durante o dia, murejonas, covos para a pesca do polvo e tomo conta do meu neto, Gonçalo Dias, de 4 anos».

Além de poderem ser usadas para diversos fins decorativos, podem ser pintadas com qualquer cor e ter diversos tamanhos, desde os 25 até aos 90 centímetros.

Os fios «é que são mais complicados porque não há de muitas cores», refere Francisco. Quanto às encomendas, a marca já teve pedidos por todo o país.

«Muitas no Algarve, Vila Nova de Milfontes e principalmente para Lisboa. No norte não tanto», revela Laura, e até para vários sítios na Europa, França, Holanda e Reino Unido.

«São turistas que já estiveram em Olhão e não conseguiram levar as murejonas no avião e pedem-nos para enviarmos», explicita Laura.

«Já sou conhecido», diz sorridente Ti Chico. «Além disso, ainda vendo algumas para os pescadores que têm as licenças, mas essas murejonas são com bocas maiores para os peixes grandes caberem, como os sargos. Há também muitos hostels, entre Olhão e Fuzeta, que têm murejonas antigas que estiveram no mar. Algumas estão enferrujadas. Pedem-nos para fazermos peças parecidas e nesse caso pinto-as de preto. Também tenho muitas peças minhas a decorar paredes de lojas ou restaurantes», detalha.

E como se faz uma murejona? Ti Chico tenta explicar. «Uso uma boia como boca. Corto braçadas de arame com alicate para os começos. Vou entrelaçando e a peça vai alargando. Quando chega ao tamanho maior, corto o arame. Depois dobra-se e faz-se para o outro lado. No fim, quando a murejona dá a volta e antes da boca fechar, retira-se a boia com um ferro. Fecho a boca com o fio e preparo-a. Antigamente usava cabo de aço e tinha de o desfiar e demorava muito mais tempo. Agora com este cabo de inox que as minhas filhas e a minha mulher compram, faço murejonas muito mais rápido», compara.

O sonho da família de Ti Chico era abrir uma loja, em Olhão, onde residem, com as peças do mestre. No entanto, parece não estar a ser tarefa fácil, uma vez que seria necessário mais pessoas a fazer esta antiga arte.

O problema é que ninguém consegue aprender a técnica. «Já todos tentámos fazer e ninguém consegue», desabafa a esposa de Francisco, a costureira Maria Valério de 73 anos.

A filha Laura, completa: «continuamos a tentar aprender, mas não conseguimos, só ele consegue».

Ti Chico conclui: «isto tem ciência». Para quem quiser encomendar uma murejona, basta contactar com a família através das redes sociais (Facebook ou Instagram), por telefone (912 310 866) ou email ([email protected] com). Os preços começam nos 25 euros, para as murejonas mais pequenas.

O que é uma Murejona?

No início do ano, Ti Chico recebeu um convite por parte do gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Olhão. O pedido era que fossem feitas diversas murejonas para decorar a Rua do Comércio durante o verão.

«No ano passado usaram as sombrinhas, este ano quiseram dedicar a decoração à cidade piscatória. Foi assim que o meu pai entregou 69 murejonas à Câmara. Teve desde janeiro a fazê-las e entregámos no final de maio. Até era para terem sido feitas mais, mas como só o meu pai é que as faz manualmente, leva muito tempo», conta Laura Dias ao barlavento.

É o próprio pai que acrescenta: «além disso ainda fazia os covos. Mas os covos levo 17 minutos e não canso tanto a vista.

No ano passado fiz 700 covos e desde novembro já fiz 2000». Para a filha, a iniciativa do município, «foi fantástica porque foi uma maneira bem bonita de homenagear os homens do mar, ao mesmo tempo que se promoveu e ajudou a divulgar Olhão por aquilo que é tão nosso».

A grande paixão de Ti Chico, as murejonas, serviam para apanhar diversos tipos de peixe tanto na Ria como no mar. De acordo com a filha, Laura Dias, «uma murejona era uma genuína arte/armadilha de pesca tradicional de formato esférico, feita à mão com malha de arame e arame de roda, cujo diâmetro oscilava entre os 60 centímetros e os 1,20 metros, dependendo do tamanho da embarcação e do seu destino de pesca. As maiores eram lançadas junto à costa e as mais pequenas dentro da Ria» Formosa.

«O isco mais usado era o berbigão pisado ou o mexilhão e este era colocado no fundo da murejona. Era uma arte de pesca usada para apanhar peixe miúdo, como o besugo, as bicas, mucharra, ferreira, sargo e safio».

No entanto, «podiam atrair outras espécies e até mesmo polvos. Os peixes ao entrarem na murejona, comem o isco que se encontra no fundo, mas têm dificuldades em sair pois no topo da murejona encontram-se pontas aguçadas de arame. É depois a tampa da murejona que permite retirar as espécies capturadas».

Ti Chico é mais prático na descrição: «joga-se o berbigão para dentro da murejona pela boca. Leva um cabo grosso, põe-se um alfoque e atira-se ao mar».

Município de Olhão homenageou a arte de pesca

O que é uma Murejona? No início do ano, Ti Chico recebeu um convite por parte do gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Olhão.

O pedido era que fossem feitas diversas murejonas para decorar a Rua do Comércio durante o verão.

«No ano passado usaram as sombrinhas, este ano quiseram dedicar a decoração à cidade piscatória. Foi assim que o meu pai entregou 69 murejonas à Câmara. Teve desde janeiro a fazê-las e entregámos no final de maio. Até era para terem sido feitas mais, mas como só o meu pai é que as faz manualmente, leva muito tempo», conta Laura Dias ao barlavento.

É o próprio pai que acrescenta: «além disso ainda fazia os covos. Mas os covos levo 17 minutos e não canso tanto a vista. No ano passado fiz 700 covos e desde novembro já fiz 2000».

Para a filha do artestão, a iniciativa do município, «foi fantástica porque foi uma maneira bem bonita de homenagear os homens do mar, ao mesmo tempo que se promoveu e ajudou a divulgar Olhão por aquilo que é tão nosso».

Eduardinho guarda muitas histórias

Francisco Valério, conhecido em Olhão e no mundo da pesca como Ti Chico, começou a acompanhar o pai na atividade piscatória mesmo antes de ter 10 anos.

Mais tarde, já com o seu barco, o Eduardinho, muitas foram as horas que passou na Ria Formosa e no mar do Algarve.

Apesar da embarcação ter afundado em fevereiro de 2017, foi recuperada em abril do mesmo ano e é neste momento o último barco típico de madeira de pesca tradicional do polvo com murejonas e covos.

Ti Chico era então o mestre do Eduardinho e quase sempre ia para o mar com apenas um camarada, quase sempre o Jacob. Foi com ele que passou as duas peripécias que recorda ao barlavento.

«Um dia, o Jacob estava a guerrear porque as murejonas dele não apanhavam peixe nenhum. Achava que a culpa de não entrar peixe era da murejona. Então, pedi licença para ser eu a tratar da murejona dele. Ele não usava pedras, mas a pedra essa essencial para a boia. A murejona é que sofria e arrastava, o berbigão saía todo e a arte não apanhava peixe nenhum. Quando percebeu que o problema era da técnica dele, disse-me logo que lhe tinha estragado o dia», relembra.

A segunda história foi na barrinha de Faro, mas prova também que a técnica de Ti Chico cedo começou a marcar a diferença.

«Estava com o Jacob. Parei o barco devagar porque estava um mar de fora [maior ondulação que há], contrária à vaga dos velhotes de 99 anos [a ondulação mais pequena]. Eu tinha um alador com um guincho de moer o berbigão no barco, mas o Jacob não sabia. Então, pediu para eu não parar o barco. Agarro em mim, vou buscar o guincho na popa e ligo o alador. O homem ficou maluco com tanto peixe. Chegámos a Olhão e fomos vender o peixe a Faro. Quem lá estava disse que já nem ia almoçar, que ia diretamente comigo para a pesca», revive.