David Roque licenciou-se em História pela Universidade de Lisboa, tendo posteriormente feito uma pós-graduação em ensino.
De nascimento portimonense, no ano de 1977, mas de criação ferragudense, é professor de História, na Secundária Júlio Dantas, em Lagos, animador do Clube de Escrita Criativa de Lagoa e autor, enquanto Porventura Correia, de três livros infantis e, contos em coletâneas e poesia.
barlavento: Ser professor de História é uma vocação ou foi um acaso biográfico?
David Roque: A vida é feita da mistura das duas coisas, escolhas e acasos, mas penso que pelos catorze anos já tinha mais ou menos definida a minha vocação humanística e depois a História surgiu com grande naturalidade, porque é uma disciplina muito abrangente para o conhecimento do Homem. Ser professor é uma consequência do gosto que tenho pelo conhecimento e pela necessidade de o ofertar aos mais jovens.
Os seus alunos interessam-se por História, ou os adultos em geral?
Tenho sempre alguns alunos interessados pelo passado e pela interpretação da realidade, contudo, confesso, serão uma pequena minoria. Em parte, será incapacidade motivacional minha, porém o que sinto é que a sociedade em geral se afasta das humanidades e se ofusca com as luzes do mundo virtual e do rito tecnocrático. Com os alunos acontece o mesmo, muito embevecimento pela informação fácil e pelo ludismo do mundo virtual e pouco apreço pelo sentido complexo e difícil do verdadeiro conhecimento. São reflexos do mundo atual, onde, como se viu com a pandemia, facilmente se esquece a dignidade humana para garantir a salvação imediata.
Acha que esse sentido humanístico o aproximou do ativismo?
Sim. Com 16 anos era dos maiores leitores da biblioteca da Associação Cultural e Desportiva de Ferragudo, pelo que fui convidado a integrar os quadros jovens da direção, o que não neguei, apesar de ser muito introvertido. Foi um namoro de 10 anos em que aprendi muito sobre associativismo e penso que fiz um trabalho meritório na biblioteca da associação e no espaço infantil, o Sapinho (SAPO – Serviço de Apoio Pedagógico e Ocupacional). Depois veio a política, com a entrada na vida partidária e cargos como deputado municipal em Lagoa e atualmente em Lagos, bem como membro da coordenação distrital. Refletir o mundo é também procurar agir sobre ele.
E como chega à escrita?
Sempre fui muito imaginativo, como quase todas as crianças, e, durante a adolescência esse processo foi-se orientando para a escrita. Primeiro a poesia e depois as narrativas curtas. Depois, no ensino secundário, graças à professora Ana Gonzaga, comecei a compreender e a apreciar a palavra de forma mais completa. Foi ali que nasceu o Porventura Correia.
Quem é esse Porventura Correia?
É o meu eu literário. Uma figura que surgiu aos meus 15 ou 16 anos e se me colou à pele. poeta e ficcionista um tanto heteróclito. Alguém que já publicou três livros infantis e contos em coletâneas, sendo que uma destas resultou do Prémio Santos Stockler. Ou ainda a mistura do David ativista e do Porventura escritor numa revista de residência universitária, em Lisboa, chamada Do Desassossego, onde residentes de todos os cursos e territórios nacionais tiveram a hipótese de se exprimir.
É nesse momento que surge o interesse pela escrita criativa?
Sim, perto do final da minha licenciatura. Queria dominar melhor as ferramentas de escrita, para me melhorar pessoalmente. Comecei por aquela que ainda considero uma obra maior, «Eu Escrevo o Meu Primeiro Romance», de Timbal-Duclaux, um precioso guia de técnicas. Depois pensei que poderia divulgar e espalhar a mensagem, e penso que foi em 2001 que ministrei a primeira oficina de escrita criativa na ACD Ferragudo, e foram-se seguindo várias, sempre com poucas pessoas. Talvez tenha sido um precursor no Algarve, não sei bem. Mas teve impacto de microescala. Depois foram oficinas na Secundária António Aleixo, em Portimão, na Associação de Lagoa Ideias do Levante e na Biblioteca Municipal de Lagoa. Por fim, em 2018, a pedido de muitos participantes destas oficinas, na colaboração entre ACD Ferragudo e Biblioteca Municipal de Lagoa, cria-se o Clube de Escrita Criativa de Lagoa, que, disseram-me recentemente, é o único do Algarve. Fico satisfeito por pôr jovens e adultos, das mais distintas origens, a refletir a ficção e a exercitar o músculo escrevinhador, e sempre que alguém do Clube publica ou ganha algo é uma felicidade para todos nós.
Não sente que toda essa atividade o pode prejudicar no seu próprio percurso literário?
É um dispêndio de energia generoso que tem o seu retorno. Os desafios que coloco aos participantes servem para mim próprio, porque imagino como os ultrapassaria. Ensinando, aprendo muito e incluo na minha escrita estas descobertas constantes. Uma mente jovem e imaginosa é a maior arma de qualquer autor ficcional. Lembro-me do quão divertido e exigente foi, durante o primeiro verão da pandemia, com a Analita Alves (um nome a reter no mundo da escrita criativa), projetar, lançar e gerir o Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo, com o precioso enquadramento institucional da Fundação Poeta António Aleixo e a participação no júri do António Venda, Fábio Nobre e José Teiga. Durante 10 semanas recebemos textos de mais de 60 participantes nacionais e classificámo-los semanalmente, como num torneio.
Quanto aos meus livros, vou escrevendo ao ritmo que a minha atividade profissional permite, porque ser professor é muito exigente em termos intelectuais e emocionais. Já tenho alguns contos publicados; vem aí uma coletânea de contos do nosso Clube; e preparo uma novela. Também participo na revista literária online «Palavrar», em que colaboro com a edição, ao mesmo tempo que também escrevo algo. Assim, a imersão nos projetos também me obriga à criação. Dentro de mim tenho a urgência da escrita e entropia caótica do universo inteiro.
Tem escritores ou obras preferidas?
É difícil responder. Não leio tanto quanto gostaria. O meu gosto de adolescente formou-se nos clássicos escolares, de Camões a Pessoa, passando por Garrett, Herculano, Camilo e Eça. Aprecio bastante Saramago, mas também me impressionou um outro Saramago, o Rui, que nos oferece a imaginosa «A Fraude», ou o recém-descoberto (por mim) Afonso Cruz, com uma obra que acho majestosa, «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas». Sou eclético e disperso como em tudo na minha vida, e aprecio a literatura que seja imaginosa, bem escrita e com tridimensionalidade humana.
E quanto à História, também desenvolve uma atividade mais científica ou apenas se dedica à literária?
Em 2020 publiquei uma história sobre a economia de Ferragudo setecentista, a partir de um trabalho meu que tinha ganho, em 2017, uma menção honrosa no Prémio Nacional de Ensaio Histórico António Rosa Mendes. E recentemente saiu um artigo sobre o terramoto de 1755 no primeiro número da Arade – Revista do Arquivo Municipal de Lagoa. Fazer historiografia implica uma ascese e comprometimento elevados, o que construir ficção não exige tanto. São dois mundos distintos e ambos me são prazerosos.
Para terminarmos, o que gostaria de ver no Algarve, algo que considere por cumprir?
O Algarve é uma região muito rica, mas carente de quase tudo, com níveis elevados de desemprego e das mais baixas taxas de jovens com ensino superior. Falta saúde e transportes do século XXI, mas também há carência de cultura. Há muito dinamismo associativo e artistas que trabalham heroicamente para que se acrescente ao pão uma alma humana. O investimento na cultura deveria triplicar, os poderes públicos não podem continuar a ver a cultura como uma flor na lapela, umas buchas para dias de festa. Alguém consegue imaginar a Itália sem o Renascimento e as suas grandes realizações? A riqueza sem cultura é apenas uma miséria capitalista. O património material é para o camartelo ou preserva-se uma ou duas coisas para o postal turístico, enquanto a cultura imaterial evanesce ou aboneca-se para o turista. Falta cumprir um Algarve do império do espírito.
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