Há 70 casos confirmados de intoxicação alimentar no «Portimão Street Food». A maioria dos quais com necessidade de intervenção hospitalar. A organização já garantiu ao «barlavento» que todas as responsabilidades estão a ser assumidas. Já a autarquia, parceira do evento, não quer repetir o evento.
O primeiro alerta surgiu por parte de amigos e conhecidos, e não demorou até ao telefone começar a tocar na redação do «barlavento», com o testemunho de pessoas de voz trémula, ainda em convalescença, debilitadas e desiludidas com o que aconteceu.
Segundo Joaquim Bodião, delegado regional adjunto de saúde do Algarve, as autoridades receberam o primeiro sinal de alarme às 23h00 de 30 de julho, uma vez que «várias pessoas estavam a dar entrada nos serviços de urgência locais», com sintomas de intoxicação alimentar.
«Logo no momento em que soubemos fomos recolher amostras de alimentos e, de acordo com o inquérito que fizemos, identificámos o estabelecimento que poderia estar implicado nesta situação», explicou.
Bodião confirmou que a colega Filomena Agostinho esteve no terreno até perto da 1h30 da manhã, «fez uma avaliação das condições de higiene no local e não encontrou nada de anormal com os alimentos que estavam a ser servidos», nem que justificasse o encerramento imediato do evento.
O relatório final, ainda em fase de execução, vai cruzar os resultados das análises às amostras de comida, com as análises feitas aos doentes. Estas últimas, embora não seja ainda um resultado final e definitivo, indicam que terá sido contaminação por «agente salmonela».
José Borralho, responsável da associação «Street Food Portugal», confirmou a origem do problema nas sandes de leitão, que segundo nos revelou, não poupou sequer familiares diretos e membros da sua equipa.
A ingestão das sandes estragadas terá acontecido na passada quarta-feira, dia 29, e só no dia seguinte é que os efeitos nefastos como distúrbios intestinais, vómitos, má-disposição geral se manifestaram.
«Estamos a falar em pessoas que foram hospitalizadas, que estiveram a soro para fazer a limpeza, com vómitos, com febres altas e que tiveram que estar internadas», reconheceu.
Borralho soube desta situação «através de um comentário no facebook» onde «é muito mais fácil começar a dizer umas coisas» desagradáveis, «do que procurar contactar a organização».
Ao evento, «foi imediatamente chamada a delegada de saúde que recolheu amostras» junto do MisterPig, «o único espaço que vende esse tipo de produto».
«Mal acabaram as recolhas de amostras, o empresário deitou imediatamente todo o produto fora» e renovou o stock, «independentemente de saber, se estava contaminado ou não, foi tudo para o lixo».
Agora, «estamos a passar o contacto dele às pessoas afetadas. Há seguros de intoxicação precisamente para estes casos e o empresário está a assumir todas as responsabilidades», garantiu ao «barlavento».
«Independentemente das normas de segurança HCCP estarem em dia, ninguém que vende comida e bebida está livre de uma situação destas», considerou.
Mas será este tipo de restauração ambulante mais vulnerável a estes problemas? «Não, não. Muitas vezes têm até condições melhores que as cozinhas de muitos restaurantes. Isso foi-nos dito pela própria ASAE, durante a inspeção» feita ao primeiro festival de street food, no Estoril, em abril passado.
Borralho sublinha que este é o terceiro festival de Street Food que organiza, e que «não há memória de haver um caso destes. Aconteceu num estabelecimento que nem sequer é um veículo móvel. É um contentor de restauração que é usado em muitos outros eventos. Estamos a falar de um empresário que está há mais de 10 anos no mercado», adiantou.
«As pessoas têm de perceber que estas coisas acontecem, às vezes até em nossas casas. Se a delegada de saúde tivesse encontrado indícios evidentes como maus-cheiros, teríamos de tomar medidas, como a eventual expulsão do estabelecimento em futuros festivais. Não foi o caso».
O médico Joaquim Bodião também não concorda com generalizações. «Vamos avaliar o que é que levou a que isto pudesse acontecer. Os alimentos não são confecionados no estabelecimento, são adquiridos a terceiros» e o responsável admite que eventualmente se possam ter deteriorado no transporte, devido às temperaturas de verão.
Já a presidente da Câmara de Portimão Isilda Gomes, entidade que cedeu o espaço, não se mostrou tão compreensiva, pois esta situação acabou por «criar uma péssima imagem da cidade».
Em declarações ao «barlavento», a edil confirmou que o «promotor assumiu a responsabilidade», mas, entretanto, este incidente já teve repercussões negativas. «Aliás, acabei de afirmar que no próximo ano não vou autorizar novamente», afiançou Isilda. «Que isto me chateou bastante, chateou».