Professora de Ciências Naturais, Celina Carpinteiro nasceu em Paris há 35 anos. Filha de emigrantes, veio nova para Portugal e começou a jogar futebol, em Leiria. Já no Algarve, teve uma lesão impeditiva de praticar desportos de contacto, durante três meses. Entrou no ciclismo, já lá vão dez anos, sendo hoje uma das atletas mais premiadas do país, quer em estrada, quer em BTT.
O «barlavento» entrevistou-a na véspera da sua partida para a Polónia, onde participa uma prova por etapas, durante sete dias, fazendo equipa com a parceira Isabel Caetano. Atleta de alta competição e professora contratada, um trabalho precário em Portugal, tem residência no concelho de Loulé, mas nunca sabe onde vai ensinar. Esteve em Leiria no último ano letivo e ficará em Silves, no próximo. Não é fácil, para quem necessita de treinar assiduamente. Nem para pensar em descendência, segundo confidenciou ao «barlavento».
b – Porquê o ciclismo como alternativa ao futebol?
Celina Carpinteiro – Fui incentivada pelo meu marido, na altura meu namorado, e decidi experimentar. O espírito de competição lá estava, fui evoluindo, entrei em competições nacionais e obtive resultados encorajadores. De vez em quando, conseguia um pódio, ia encurtando a distância em relação às atletas mais fortes, o que me dava motivação. Fui subindo degrau a degrau. Agora, tiro pódios e primeiros lugares.
Poder-se-ia dizer que «há males que vêm por bem»…
Sem dúvida. No futebol, nunca teria competido em campeonatos da Europa e do mundo, nem alcançado o destaque que o ciclismo me deu.
Compete em estrada e em BTT?
Exatamente e por duas equipas diferentes. Fazia estrada com uma equipa da zona do Cartaxo. Mas eles decidiram acabar com o ciclismo feminino. Então, com outra colega, formámos uma equipa no Algarve – a Cinco Quinas Município de Albufeira – com três atletas em competição, obtendo bons resultados. Fora de estrada, represento o BTT Loulé.
Não são duas modalidades muito diferentes?
São. Mas complementam-se muito. No BTT, andamos em terra batida, em montes, a bicicleta tem um guiador reto, pneus largos com cardado, os andamentos são mais leves. Na estrada, é um pneu muito fino, bicicleta mais aerodinâmica e mais leve, andamentos mais pesados. E são muito diferentes em termos de competição. No BTT, a participação é mais solitária, é a maratona, vou ao meu ritmo. Na estrada, em pelotão, muitas vezes não andamos ao nosso ritmo, mas ao que é imposto pelo pelotão. A tática, na estrada, é mais importante do que no BTT.
Tem conseguido melhores resultados em estrada ou em BTT?
Penso que já se equiparam. Na estrada, sou vice-campeã, porque não consegui revalidar o título. Mas fui tricampeã. No BTT, sou tetracampeã. Também já ganhei várias Taças de Portugal, em ambas as modalidades. Tenho conseguido mais internalizações em estrada pela Seleção Nacional, o que é sempre motivo de orgulho. Tal como poder transmitir a minha experiências às atletas mais novas. As provas internacionais por etapas que faço no BTT, pelo clube, também me dão muito gozo.
A Celina continua a correr em Elite, embora o pudesse fazer em Masters. Porquê?
Teoricamente, é a classe mais forte. Podia ganhar tudo mais facilmente na categoria Masters, onde posso concorrer, desde os 30 anos. Mas é mais aliciante continuar na Elite, com miúdas de 20/25 anos, e poder bater-me com elas. É mais importante um pódio em Elite do que uma vitória em Masters. É isso que me apimenta os treinos, e que me dá mais vontade de treinar.
Quantas vezes treina, semanalmente? E como consegue conciliar os treinos com a docência?
Treino seis dias por semana. Ocasionalmente, se o corpo me pede descanso, escuto-o. No inverno é muito complicado e complemento com treinos de ginásio. Não faço tantas horas na rua como no verão. Quando a hora muda, vou treinar logo às seis e meia da manhã, ou a partir das seis da tarde.
No panorama nacional, já sabemos que está no topo. No plano internacional, ganhou o Titan Desert, na única vez em que participou, em 2011. Como foi essa experiência?
É uma prova com muito mediatismo, tal com a Cape Epic, na África do Sul, considerada o «Tour de France» no BTT. Fui integrada numa equipa de ilustres, ao lado de Marco Chagas, Vitor Gamito e os Anjos, que praticam esta modalidade. Vencer foi um pulo muito grande a nível de imagem. Em Espanha, é dado um valor enorme a quem ganha essa prova. Ainda hoje, quando lá vou, reconhecem-me como «la campeona del Titan 2011».
E não voltou a fazer essa prova?
Não, por constrangimento de trabalho. Implica tirar uma semana, em maio. Costumo fazer permutas com os meus colegas. Trocar uma ou outra aula, um ou outro dia, é fácil. Uma semana é mais complicado. Também gosto de fazer provas diferentes, vou fazendo novas ou repetindo aquelas que são muito importantes e de que gosto.
E a Cape Epic?
Já fiz três vezes, duas delas com o meu marido, que também é atleta. Foi lá que me pediu em casamento. É uma prova fantástica, mas que obriga a muita logística. Embora já tenhamos ido mais longe, como Timor, no ano passado, uma experiência maravilhosa. As férias, tanto as minhas como as do meu marido, acabam por ser agarrar na bicicleta e ir conhecer novos destinos, onde haja provas. E temos visto muito do mundo.
Há uma pergunta que não podia ficar por fazer. Como resolvem as vossas necessidades, pedalando durante quatro ou mais horas?
Para as mulheres, é mais complicado, obviamente. Em competição, nunca tenho vontade, por muito que me hidrate, porque também se transpira muito. Mas tenho colegas que já me disseram que têm de parar mesmo e ir atrás do arbusto. Mas nunca passei por nenhuma (risos).
Quantos anos mais vamos ver a Celina a pedalar?
Muitos.