A Associação Recreativa e Cultural de Músicos (ARCM) pode vir a ter de abandonar a Fábrica da Cerveja devido à degradação do edifício e à falta de licenciamento, admite o presidente da Câmara Municipal de Faro.
O que está em cima da mesa, para já, é a possibilidade de a Associação Recreativa e Cultural de Músicos (ARCM), principal entidade utilizadora permanente da Fábrica da Cerveja, que ocupa desde 2014, ter de vir a sair, a muito curto prazo, por motivos de segurança e salubridade do edifício.
«Essa é a grande preocupação que temos neste momento, porque a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANPC), após uma visita ao espaço onde o coletivo tem as suas atividades, obriga-nos a encerrá-lo. Não tem licença [de utilização] nem projeto de incêndios aprovado e, por isso, as pessoas que as frequentam estão em risco», alerta António Miguel Pina.
O autarca refere, contudo, que os serviços do município estão a tentar «perceber se é possível criar as condições para manter ali a ARCM, ou caso não seja possível, encontrar uma outra solução para que mantenha a sua atividade, que é muito importante no panorama cultural e de formação da cidade».
O barlavento contactou José Jesus, vice-presidente da direção da ARCM, que se escusou a comentar.
Um «sonho» sem dinheiro
Por outro lado, o presidente da autarquia farense reafirma que não existem projetos municipais para reabilitar a Fábrica da Cerveja e lamenta que executivo anterior tenha «vendido um sonho» sem financiamento para o realizar.
António Miguel Pina desvaloriza também os receios manifestados pelo «Movimento Pela Fábrica», que contesta uma eventual venda do imóvel a privados, e que acusam o atual executivo de se afastar dos objetivos definidos no Plano Estratégico para a Cultura 2030.
O autarca admite que «há, de facto, uma entidade que apresentou uma intenção de perceber qual era a vontade da Câmara e o que ali poderia eventualmente ser feito, mas é tudo ainda muito prematuro».
O barlavento sabe que a entidade em causa é o grupo AP Hotels & Resorts, proprietário do Hotel Eva Senses, em Faro, que terá manifestado interesse em adquirir o imóvel, propriedade do município, para fins turísticos.
Apesar de não «desmentir nem confirmar» uma eventual alienação ou concessão deste património da cidade, Pina sublinha que «essa questão não foi ainda minimamente ponderada. O movimento está a ter informações e demonstra a sua posição, o que é legítimo», reconhece.
Por outro lado, ainda sobre o plano apresentado em fevereiro de 2022, a propósito da candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura 2027, pelo anterior executivo liderado por Rogério Bacalhau, Pina lamenta que tenham sido criadas expectativas na comunidade desde então.
Na altura, foi apresentado publicamente um plano estimado em 13,4 milhões de euros para revolucionar a Fábrica da Cerveja, enquanto hub cultural moderno, que mudaria toda a envolvente do centro histórico, e que seria para avançar mesmo que a candidatura viesse a ser rejeitada, tal como acabou por acontecer.
Mas, «títulos de jornal e notícias de redes sociais não pagam obras» e, por isso, «não há qualquer projeto, nem tão pouco os 13 milhões. Nem estamos dispostos a investir valores dessa ordem. Esse sonho foi vendido sem ter a sua devida repercussão nos cofres da cidade», sublinha António Miguel Pina.
«E, da nossa perspectiva, essa não é a primeira prioridade. A primeira prioridade são coisas bem mais simples. As estradas, os caminhos, as pedras das calçadas, a habitação e a necessidade de construirmos mais jardins de infância para termos uma oferta pública de 100%, e mais espaços desportivos. A área da cultura em Faro já está bastante desenvolvida. Não se pode dizer que tenhamos cultura a mais. Temos é as outras áreas a menos», comparou.
Pina lembrou que «durante este mandato, na área das infraestruturas culturais, o grande investimento que a cidade vai fazer é a aquisição do Teatro Lethes, por 4 milhões de euros», à Cruz Vermelha Portuguesa, imóvel que também está a precisar de intervenção urgente ao nível da conservação e restauro.
Ainda em relação à Fábrica da Cerveja, o futuro está «completamente em aberto. Aliás, a cidade tem um desafio: há um imóvel, que é seu, que está altamente deteriorado, requer investimento avultado, e não tem nenhum para o efeito».
Várias sedes, nenhuma definitiva
Esta já não é a primeira vez que os «músicos» enfrentam problemas de alojamento. Em março de 2010, o coletivo recebeu uma ordem de despejo para abandonar os armazéns que ocupava no complexo da antiga moagem, junto à estação de caminho de ferro, e que está hoje a ser demolida.
Houve contestação e os artistas, mais de duas centenas que ali ensaiavam, recusaram-se a sair sem alternativas. Naquele local, a ARCM dispunha de 18 salas de ensaio, estúdio de gravação e uma sala de espetáculos que acolhia concertos, teatro e outros eventos, que manteve durante 11 anos.
A 7 de agosto de 2013, o coletivo lançava a seguinte nota à imprensa: «23 anos, cinco meses e quatro sedes após a sua fundação, eis que foi reconhecida a importância do trabalho, esforço e contributo realizado pela ARCM, no desenvolvimento da cultura na cidade de Faro e região, ao proceder-se à escritura, no dia 15 de julho, do terreno atribuído pela Câmara Municipal de Faro», na altura presidida por Macário Correia.
«Importa agora olhar para o futuro e darmos continuidade a este projeto, que tanto tem ajudado esta cidade, quer no desenvolvimento do panorama cultural, quer no âmbito social», lia-se.
Em nova nota, a 17 de novembro de 2013, a associação anunciava a disponibilização da Fábrica da Cerveja por parte da autarquia de Faro, já a partir de dezembro desse ano.
No entanto, as condições do espaço não estavam «adequadas à atividade e até março (de 2014) os esforços serão dirigidos à limpeza, obras de adaptação e construção de salas de ensaio e restante infraestrutura técnica necessária» para «o realojamento das bandas e restantes agrupamentos artísticos», tudo com a carolice associativa, ajuda e boa vontade de amigos, sócios e empresas que se associaram à causa.
Na altura, mantinha-se o objetivo da construção da sede definitiva no terreno, cedido pela autarquia, na Horta do Ferragial.
Entretanto, nasceu a Escola de Música Moderna do Sul (EMMS), em setembro do 2021, projeto pedagógico com o objetivo de formar uma nova geração de músicos.
