Seis em dez pessoas deslocam-se de automóvel na região. Em apenas uma década, o uso do transporte individual em deslocações pendulares aumentou de 30 por cento. Em contrapartida, entre 2001 e 2011, os transportes públicos terão perdido 20 por cento de quota de mercado. Estas são as principais conclusões a que a AMAL – Comunidade Intermunicipal chegou com o primeiro diagnóstico realizado no âmbito do VAMUS – Projeto de Mobilidade Urbana Sustentável do Algarve.
Os dados desvendam muito do que se passa hoje na região, em consequência das realidades com as quais as pessoas se deparam, todos dias, quando têm de escolher um meio de transporte para se deslocarem. O mais fácil é viajar de carro, por não haver outras alternativas integradas.
«No Algarve, o sistema [de transportes públicos] é deficiente. Isto é, nada liga com nada e, apesar de nós termos as nossas redes urbanas que funcionam, a mobilidade interurbana não tem uma visão global, de rede, integrada», explicou ao «barlavento» Jorge Botelho, presidente da CI – AMAL.
Solucionar estes problemas deverá ser um dos maiores desafios a que esta entidade se propõe, pensando a estratégia num horizonte até 2030, mas gerindo a 2020. Será, portanto, uma prioridade nos próximos 15 anos, afirmou ao «barlavento» Miguel Freitas, primeiro secretário da CI – AMAL e responsável técnico por este desafio.
Em simultâneo, a Comunidade Intermunicipal terá de resolver, até 2020, questões da mobilidade sustentável, dotando os concelhos com meios de mobilidade suave, como circuitos pedonais ou cicláveis, mas, ao mesmo tempo, melhorar a oferta do transporte público. Isso será feito através dos planos de ação de mobilidade urbana sustentável, mas também através da criação da autoridade intermunicipal de transportes, que vai gerir o transporte coletivo rodoviário de passageiros, entre concelhos e inter-regional.
Nesta fase de diagnóstico, a CI – AMAL identificou que entre Portimão e Lagos não há nenhum transporte direto. «Isto é, não há nenhum transporte que não tenha um transbordo de pelo menos 15 minutos, o tempo que as pessoas deveriam levar para fazer esse percurso», exemplificou Miguel Freitas.
A verdade é que o transporte público não pode chegar a todo o lado, tendo que existir uma vertente intermodal. Até aqui, o sistema foi sempre pensado na conciliação entre rodoviário e ferroviário. Para Miguel Freitas, há que apostar na integração do ciclável com o sistema de transportes de passageiros. Há que incentivar «o uso da bicicleta para apanhar um transporte público, com sistemas onde o utilizador possa deixar este veículo em segurança». Esta medida pouparia também bastante à economia familiar, pois o transporte no orçamento de uma família tem um peso de 10 a 15 por cento.
Perante estas conclusões, Jorge Botelho não tem dúvidas quanto à importância do VAMUS. «Em vez de estarmos à espera que alguém nos venha resolver o problema, que já tem 40 anos de existência, vamos tomar a iniciativa que até agora ninguém tomou, pelo menos, nesta fase da rede entre os municípios e as várias freguesias», resumiu o presidente da CI – AMAL.
«O diagnóstico está feito e obviamente aqui constrói-se uma resposta que tem que ser muito participada. Quanto mais entidades integrarem o processo, mais informação teremos e melhor resposta podemos dar. Numa lógica de partilha», disse ainda ao «barlavento».
Quais podem ser as próximas ações?
Numa segunda fase do VAMUS, até dezembro, serão desenvolvidos planos de ação, onde serão identificados quais os projetos a implementar. No que toca às iniciativas transversais à região, a CI – AMAL está a estudar novas formas de informação ao público residente e turistas, como um portal com todos os modos de transporte, horários e alternativas. Outra das ideias será a criação de um sistema integrado de bilhética, permitindo que, com um bilhete, seja possível a utilização de diferentes opções de transporte público. O Carpooling poderá ser ainda outra hipótese, baseando-se numa solução informática que facilite boleias, reduzindo a utilização do carro por apenas uma pessoa. A nível dos municípios, será dada particular atenção às redes cicláveis, ao bikesharing, ao estacionamento nos interfaces, à sobrelotação do terminal rodoviário de Faro ou à falta destas infraestruturas em concelhos como Lagos, Portimão e Olhão.
AMAL será autoridade intermunicipal de transportes até final do ano
A próxima Assembleia Intermunicipal, a realizar até ao final de 2016, determinará a transferência de competências para a CI – AMAL no âmbito do transporte rodoviário de passageiros. A data dependerá das assembleias municipais, onde será votado o contrato interadministrativo para a passagem das responsabilidades àquela entidade, adiantou Miguel Freitas, primeiro secretário da CI – AMAL. A certeza é a de que, até ao final do ano, o organismo que junta à mesma mesa os 16 concelhos algarvios será a autoridade intermunicipal de transportes, por delegação de competências. É ainda uma consequência dos acordos celebrados com o Instituto da Mobilidade e Transportes, acrescentou Jorge Botelho, presidente da Comunidade Intermunicipal.
Num primeiro momento, a entidade passará alvarás provisórios às empresas que prestam o serviço rodoviário de passageiros, tendo sido necessário validar, antes, todas as carreiras que existem a nível regional. «Os municípios estiveram a ver em cada concelho se aquela carreira correspondia ao horário que estava estipulado para saber se o alvará está a ser cumprido», explicou ainda Miguel Freitas. Após essa avaliação, a CI – AMAL emitirá esses alvarás provisórios com base na informação recolhida. «A partir dessa altura, teremos até 2019 para abrir concursos públicos para fazer novas concessões. Isto é, nesta fase a licença é transitória, permitindo manter as carreiras atuais. Ganhamos pela proximidade, porque temos agora uma autoridade de transportes na região», avançou.
Projetos paralelos
A Via Algarviana e a Ecovia estão a ser estudadas para ter um modelo novo de gestão integrado, pois até aqui a primeira tem sido gerida pela associação Almargem e a segunda pelos municípios. Há ainda rotas como a Vicentina, que, no âmbito do Plano de Ação de Desenvolvimento dos Recursos Endógenos, para o interior, já com dois milhões de euros aprovados para ações, receberá a operação mais importante do projeto READY (Turismo Ativo). Será a Ciclovia de Aljezur, integrada na Rota Vicentina. A CI – AMAL está ainda a trabalhar, com a Região de Turismo do Algarve, o Turismo de Portugal e a Associação de Turismo do Algarve no âmbito do programa Walking and Cycling. Esta é uma marca cada vez mais importante para a região, na melhoria da qualidade de vida das pessoas e do turismo algarvio.
VAMUS a números
• 6 em cada 10 algarvios deslocam-se de carro;
• Uso do carro cresceu 30 por cento numa década;
• Transporte rodoviário perdeu quota de 20 por cento numa década;
• No centro do Algarve (entre Albufeira e Tavira) uso do carro ultrapassou 38 por cento, enquanto o transporte rodoviário de passageiros perdeu 23 por cento dos utilizadores;
• Perderam quota, no Algarve, as deslocações pedestres, de bicicleta e de motociclo;
• Comboio registou aumento de 13,9 por cento nos utilizadores;
• Aumentaram as deslocações interconcelhias, ao ponto de, em concelhos como São Brás de Alportel e Olhão, mais de um terço da população se deslocar para um concelho vizinho;
• No Barlavento (entre Vila do Bispo e Silves) 97 por cento da população desloca-se em transportes coletivos;
• Oferta de transportes coletivos urbanos nos concelhos mais populosos da região cresceu, embora em Alcoutim, Vila Real de Santo António e Castro Marim não haja ainda qualquer serviço desta natureza;
• Um terço da população (33 por cento) dos concelhos de Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António desloca-se a pé, um valor que representa mais do dobro da média nacional;
• Zona Centro do Algarve soma 156 quilómetros de percursos cicláveis;
• 3,9 por cento dos vila-realenses optam pela bicicleta em deslocações pendulares;
• Quase 30 mil passageiros, em agosto deste ano, optaram por deslocar-se a Ayamonte por ligação fluvial.

