Todos os dias, a um ritmo avassalador, sacrificamos e vendemos memória e identidade. O Algarve, tal como o conhecemos, muito em breve irá desaparecer.
Pedras del Rei, circulando na estreita estrada que liga o aldeamento à 125, deparo-me com um número vasto de velhas oliveiras centenárias decepadas. Três já mortas. Paro a fotografar. Aparece o empreendedor. Conversa amigável. Mostro-me algo indignado com os cortes. Explica-me que foram transplantadas. O terreno do qual é arrendatário vai dar lugar a uma plantação de abacates. As oliveiras foram transplantadas para abrir o campo ao novo cultivo.
Diz-me que vão rebentar. Talvez… mas algumas já estão secas; a não ser que o clima seja muito generoso e pródiga a natureza, duvido que resistam. O homem tem e não tem culpa. Quer ganhar dinheiro e os abacates é que estão a dar. Tem cara de esperto e a provecta idade das oliveiras e o contexto da paisagem pouco ou nada lhe dizem. Diz-me que mais à frente há duas que estão a ser acompanhadas pela universidade do Algarve. Sim, há oliveiras milenárias por aqui, classificadas e estudadas, as quais agora ficarão vizinhas de um campo de cultura intensiva de frutos tropicais.
Todos os dias, a um ritmo avassalador, sacrificamos e vendemos memória e identidade. Não por culpa dos imigrantes, afirme-se de passagem. O Algarve, tal como o conhecemos, muito em breve irá desaparecer.
Como é possível continuar a permitir-se este tipo de licenciamentos no litoral (e até no barrocal) que autorizam a destruição da paisagem de sequeiro de características mediterrânicas, a qual é cada vez mais diminuta no meio de plantações de frutos tropicais e novas urbanizações. Para mais em Tavira?!… cujo município pertence à rede da Dieta Mediterrânica do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Intervenções deste tipo ameaçam a beleza identitária da sua paisagem rural com a contínua substituição de amendoeiras, figueiras e oliveiras por abacateiros. Numa zona de oliveiras que são autênticos monumentos, testemunhas naturais de um passado histórico milenar, de povos e culturas que aqui se fixaram, é um verdadeiro atentado.
Já agora, a quem compete, senhores técnicos e fiscais, se por lá passarem, quando o sistema de rega estiver a funcionar, digam ao empreendedor para também regar as velhas oliveiras. Pode ser que rejuvenesçam…
Talvez seja chegado o momento do município de Tavira, região de Turismo do Algarve, universidade, CCDR (agricultura) começarem a equacionar uma eventual candidatura a Património Imaterial da Humanidade, a dieta tropical, tendo em conta os muitos restaurantes de sushi e comida asiática existentes na cidade de Tavira e a considerável alteração da paisagem agrícola com grandes áreas de abacates e demais frutos tropicais.
Paulo Penisga | Professor
