Os mais antigos recomendavam servir chá de adelfa às sogras ou ao cônjuge, um remédio pouco santo para quem destes se quiser livrar. É uma referência que ficou gravada na crença popular, na sabedoria de tempos idos, que ainda vive entre os monchiqueses mais idosos. A história passou de geração em geração, por ter como protagonista uma planta venenosa. A verdade é que a adelfa que existe no concelho de Monchique, é única, estando na calha de uma candidatura para a sua conservação. Aliás, é uma das plantas pela qual este concelho está inserido na Rede Natura 2000.
Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, acarinhou esta candidatura, até porque considera a espécie única e característica de uma parte da encosta da Fóia. É o que torna as fotografias desta zona tão divulgadas por quem visita o ponto mais alto do Algarve. «É quase um cartão de visita nosso. Além da importância da conservação, tem também uma unicidade estética», disse o edil ao «barlavento».
A Câmara de Monchique é, assim, um dos parceiros numa candidatura ao projeto Life, encabe
çada pela Universidade de Évora, que será entregue este mês. «A ideia é melhorar o habitat» do rododendro ou adelfa (Rhododendron particum subespécie baeticum) nos terrenos camarários, pois esta planta só existe em dois locais em Portugal, justificou Sónia Martinho, engenheira florestal na autarquia. Ocorre com mais frequência nas encostas da Fóia, havendo também algumas manchas na Picota. Depois, só será possível encontrá-la a uns bons quilómetros de distância do Algarve, na Reserva do Cambarinho, no município de Vouzela. Com esta candidatura, a intenção «é dar mais visibilidade à planta», que existe desde o Terciário, «praticamente desde a era dos dinossauros», e que a nível de conservação da natureza também é muito importante.
O problema é que os condicionalismos humanos, entre outras situações, têm vindo a provocar a regressão do habitat natural desta planta. Só existe em dois locais, pois somente sobrevive a determinado tipo de temperatura, altitude e humidade. Na Fóia, existe em encostas viradas a norte que recebam a influência atlântica, nas zonas mais húmidas. Também «gostam mais de solos ácidos», constatou.
«Vamos fazer a plantação de mais rododendros para expandir o habitat», que está quase em vias de extinção. Caso seja aceite no projeto Life, a autarquia retirará plantas, «na sua maioria, infestantes», como as silvas ou os fetos, e outras abundantes mas sem valor a nível de conservação, para colocar a adelfa no seu lugar», avançou Sónia Martinho.
Aliás, as plantas a substituir, a «nível dos incêndios» são prejudiciais, pois «têm altos teores de combustibilidade», sublinhou ainda a engenheira. Já a adelfa, «é uma daquelas plantas prioritárias de conservação. E claro, tem associada alguma fauna e flora», resumiu.
Para já, caso seja aprovado, o primeiro passo será da Câmara, mas a estratégia é que os proprietários privados de terrenos na zona de influência vejam também com bons olhos a iniciativa camarária e sigam o exemplo. «Estes projetos têm que dar uma ideia de continuidade e a maioria dos proprietários também não quer onerar os seus terrenos com determinado tipo de ónus», ainda que neste caso fosse apenas uma planta.
A candidatura podia ter sido feita em 2015, mas Sónia Martinho explicou que «as condições não estavam reunidas», pois há critérios muito «exigentes». Os responsáveis aperfeiçoaram e a candidatura será agora apresentada. O objetivo, além da conservação, é também a sensibilização, por isso haverá uma componente que prevê a criação de um percurso, com placares de informação, que permitam que as pessoas percebam o valor do que ali está. Outras das ideias é sensibilizar no local os mais novos, com visitas de estudo das escolas.
Rui André aposta neste projeto, pois o conjunto de todas as especificidades fazem com que Monchique se torne único. «Há caraterísticas muito especiais a nível destes habitats. Temos muitas outras plantas e espécies até de fauna que ocorrem só aqui, o que torna o concelho tão especial a este nível», reforçou. O autarca vai mais longe e considera uma dádiva que a planta continue a sobreviver em Monchique após milhares de anos. Existe em pequenos arbustos, a flor é rosa quase arroxeada, com uma folha brilhante e espessa e tem tanto de bonita como de venenosa. Mas nada como ir espreitá-la, apenas espreitá-la, num passeio a Monchique.