Crítica a «A Vida das Peles», de Joana Rocha, um livro de contos onde o corpo, a vingança e a violência simbólica moldam o universo feminino.
O título do último livro de Joana Rocha poderia facilmente ser algo dito por uma personagem de um filme de Pedro Almodóvar, possivelmente de «Tudo Sobre a Minha Mãe», onde alguns dos contos de «A Vida das Peles» presentes não estariam deslocados.
Neste livro, editado pela Urutau, a mulher surge, em diferentes dimensões, provida de uma animalidade crua, onde os odores e os fluídos a representam num sufoco inevitável, mas suave, sedoso e progressivo.
A partir desse sufoco, as suas personagens escolhem entre pagar o preço de ser mulher ou o da vingança, decisão que funciona como fio condutor dos onze contos de «A Vida das Peles», sem, por isso, os sujeitar a uma voz monocórdica e repetitiva.
A leitura é aqui, mais que feminina, do reino das feromonas, contra todas as expressões e efeitos do poder patriarcal e, não sendo todos os homens, são quase sempre homens para quem a única resposta possível à sua frieza é o gelo seco e letal, ao estilo revanche bíblica — não exatamente como forma de crueldade, apenas como a única possibilidade de conduta além da submissão silenciosa.
Em «A Vida das Peles» há pontos de fuga, há tortura elaborada, há loucura normalizada, há desforra doentia e inocência na eminência da destruição, nas várias histórias onde cada personagem parece habitar o espaço entre o estar a salvo e a salvação, alargando o fosso nuns casos e, noutros, esbatendo as suas fronteiras, confirmando invariavelmente a frase de abertura do livro: «a noite estava demasiado calma».
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário