Com as barragens do Algarve a encher vamos todos à FESTA! Temos água para mais de dois anos e já não é necessário evitar desperdícios, nem irrigar conscientemente, reaproveitar ou mesmo educar…
A água doce é um bem essencial e escasso, imprescindível para qualquer forma de vida. Inicialmente nas escolas, ensinava-se o ciclo da água, mas, atualmente e dada a importância da problemática da utilização e gestão deste bem escasso, passou a abordar-se o ciclo urbano da água.
Ainda assim, o nível de desempenho global do sector continua a estar muito aquém do que seria desejável, já que sem a adequada pedagogia, sensibilização e aceitação das populações, não me parece poder vir a ter essa viabilidade, apesar de amplamente estudado.
A conjugação de elevadas necessidades hídricas com fracos períodos de precipitação, tendencialmente mais reduzida a cada ano, tem provocado situações de manifesta insuficiência de água potável, tanto para as necessidades da população como, sazonalmente, para os seus visitantes.
Como agravante, temos as alterações climáticas e, no Algarve como na Bacia Mediterrânica, a gestão deste recurso tornou-se um foco primordial integrado numa política que se pretende de sustentabilidade da região.
A percepção geral sobre a gestão das águas, particularmente a potável e sobretudo no sul e no Algarve – com índices de seca muitíssimo preocupantes desde 2005 – é de enorme inabilidade.
O aquífero de Querença-Silves é o maior e mais produtivo sistema do sul de Portugal, e a albufeira da Bravura fornece água ao aproveitamento hidroagrícola de Alvor/Lagos, também para uso doméstico e campos de golfe.
A albufeira de Odelouca está ligada à albufeira do Funcho por um túnel, através do qual a água armazenada na Barragem de Odelouca é transferida até à ETA de Alcantarilha. As albufeiras Funcho-Arade, estão inteiramente orientadas para a agricultura, e as albufeiras de Odeleite e Beliche funcionam como um sistema – através do túnel que as liga e faz a transferência de água.
Desde o princípio deste século que o Algarve tem estado em frequente situação de secas, e uma vez que a atividade turística tem uma importância capital, o aumento da pressão sobre os recursos tem obrigado a uma mais preocupada gestão dos hídricos, que passa tanto pelo poder nacional, como regional e local, empresarial e mesmo particular, que têm de recorrer a soluções alternativas de usos e origens de água.
Contudo, nada alterará de livre vontade, e sem a uma adequada sensibilização das pessoas, que com a deficiente comunicação dos impactos das Alterações Climáticas no Algarve, não se tem promovido suficientemente a reflexão que leva à ação. Com o turismo e o regadio em manifesto crescimento, garantidamente que o futuro me parece cada vez mais incerto.
Ainda que as campanhas junto das escolas possam vir a surtir efeito, a longo prazo (a Águas do Algarve até tem um serviço de Educação Ambiental integrado no departamento de Comunicação), como a propaganda e a publicidade só surtem o seu máximo efeito pela repetição, urge atuar a esse nível pensando também nas gerações de mais idade (notemos que a esperança de vida tem vindo a aumentar) e não somente nas crianças.
Não muito distante, a aprovação para o Algarve da «construção de uma central de dessalinização, que vai custar 45 milhões, mas só garante 10% do consumo da região» é contestada pela academia por despropositada dimensão e errada localização, que tem vindo a mostrar ser bem mais útil e eficaz a construção de duas a três unidades mais pequenas e dedicadas.
Contudo, o atual projeto vai em 107,9 milhões de euros (and counting…), com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Águas de Portugal e Águas do Algarve, responsável pelo tratamento da água de consumo e residuais do Algarve, a monitorizarem o projeto.
«Aproximadamente 50% do esgoto gerado no mundo é tratado e somente 11% é reusado de maneira planejada». Contudo, não nos devemos regozijar por estarmos alinhados com esta infeliz estatística! Mesmo havendo no Algarve duas grandes ETAR (Portimão e Faro-Olhão) preparadas de raiz para produção de água para reutilização (ApR) ou águas residuais tratadas e certificadas, não podem prestar esse serviço porque enquanto em baixa, a salinidade interfere negativamente no processo, inviabilizando-o.
Já poderíamos estar a contar com esse serviço para lavagem de ruas, rega intensiva de culturas e de jardins públicos. As águas residuais tratadas e com características de qualidade adaptadas às funções – nomeadamente com vista a utilização sem riscos para a saúde e ambiente – têm a vantagem de poder ser reutilizadas inúmeras vezes, desde que a sustentabilidade económica seja garantida.
Com humildade e olhar crítico, poderíamos estudar e adoptar processos mais eficazes, como os de Israel onde o desperdício não ultrapassa os 7%, contra os mais de 41% em Portugal.
O exponencial aumento populacional e a consequente necessidade de maior consumo de água potável – resultante do abastecimento humano, da produção agrícola, pecuária, industrial, e mesmo da utilização recreativa e desportiva – tem levado ao incremento da pressão sobre os recursos hídricos naturais.
A introdução de culturas mais exigentes ao nível desse recurso – além dos citrinos, mais recentemente o abacate – não esconde o excesso de consumo em jardins (públicos e privados), pelo que a divulgação e implementação de Xeropaisagismo (jardins de espécies autóctones, adaptadas ao baixo consumo) também deveria ser uma prioridade.
A região tem de se reinventar, mudar paradigmas, opções, atitudes, e desenvolver políticas, serviços e comunicação que contribuam primeiro para a manutenção e, posteriormente para o aumento dos recursos hídricos, sem comprometer a saúde pública, e o funcionamento e desenvolvimento económico sustentável da região.
A sustentabilidade dos serviços de água não se resolve com aumentos constantes do preço do fornecimento, já que os desperdícios ambientais e económicos para o país não se resolvem assim.
Perde-se água nos canais de rega, entre barragens, muita nas deficientes condutas da rede de abastecimento municipal e intermunicipal, como também no descontrolo do consumo por furos, etc.
Algo de essencial e muito relevante está a falhar no sistema e nos processos de gestão da água no Algarve, bem como na sensibilização das populações, já que o desperdício de água doce não é uma fatalidade e têm mesmo de se implementar ou reforçar as medidas de governança dos recursos hídricos, também no sector agrícola (incluindo a pecuária), que é responsável por 75% (estimados) do uso de água em Portugal.
O enorme aumento das necessidades durante a sazonalidade, decorrente da pressão resultante do turismo de Verão (a população mais do que triplica no Algarve), bem como a da agricultura, são realidades que não têm sido encaradas com objetividade e não podemos voltar a ler notícias em 2025, como «Há 40 campos de golfe no Algarve a usarem água potável»!
Infelizmente, confirma-se que a Policy – no que à gestão da água em Portugal diz respeito – está razoavelmente divorciada da atuação política, ainda que verifique que já há suficiente doutrina (onde a academia tem contribuído enormemente), em relação a alguns dos temas relativos à qualidade da água no Algarve, sobretudo em quatro vertentes que me têm suscitado maior preocupação: Política da Água, Atitudes e Preocupações, Águas Residuais, Reutilização, que necessitam ser abordadas com mais profissionalismo.
Face ao exposto e na presença das enormes disponibilidades financeiras (PRR e Portugal 2030), ao manifesto reconhecimento dos problemas e principais questões a ser priorizadas, mas, sobretudo à escassez hídrica que não ficou agora definitivamente resolvida com as chuvas recentes, não me parece admissível que se mantenham as enormes perdas de água.
Também não podemos deixar de cuidar da utilização ponderada dos aquíferos, não se incentive e valorize a reutilização e, seguramente por razões de miopia política e relevantes interesses económicos, se privilegie a dessalinização no Algarve.
Entretanto, como suporte à recente estratégia «Água que Une» (projeto de investimentos ao longo dos próximos 15 anos) e visando promover a coesão territorial, foi criado em Julho de 2024 um Grupo de Trabalho multidisciplinar de empresas públicas, que pretende dar suporte à revisão do Plano Nacional da Água, articulado com o Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais.
Serão abordadas medidas como: Redução de perdas; Promoção da utilização de água residual tratada; Assegurar uma gestão integrada da água; Aumento da capacidade de armazenamento das infraestruturas existentes; Construção de barragens, interligações e novos sistemas; Reabilitação e optimização das infraestruturas; Restaurar ecossistemas e continuidade fluvial.
Parece ser um bom começo. Porém, no país da papelada, expedientes, intermináveis procedimentos administrativos e não somente, onde tudo se arrasta e atrasa, o professor Rogério Bacalhau até já referiu que não integrou a administração da Águas do Algarve em Janeiro, como aliás estava previsto, «devido à elevada burocracia»! Será que uma empresa indispensável e exemplar, se transformou numa empresa vulgar?
Sérgio Cordes Aniceto | Consultor de Gestão, Marketing e Imobiliário