Diz-nos que os seus quadros «são o fruto das sessões de terapia, das experiências da minha vida e das histórias das outras pessoas». Descreve-se como uma pessoa extremamente intensa, porque tudo o que faz é com espírito, alma e corpo, numa entrega total. Uma floresta imensa, com muitas valências e extrema criatividade, só limitada pelo fator financeiro. Não há revolta em si. Pelo contrário, sente um desejo de evolução a todos os níveis, em equilíbrio. Encontra-se pela escrita e transmite sentimentos pela pintura, recusando-se a fazer quadros comerciais. Tinha 15 anos quando decidiu, em consciência, ser artista. Já fez várias exposições em Lagos desde 1996. Diz que a arte lhe traz muitas alegrias, só não dá para viver.
barlavento – Qual é o seu objetivo, quando cria?
Susana Calado – Levar as pessoas a refletir sobre si próprias. Muitas andam tão preocupadas com a sua imagem, o seu quotidiano e as dificuldades que vivem, que se esquecem de estar bem consigo mesmas, que é o mais importante na vida. Procuram no exterior, quando tudo está dentro de nós.
O que inspira as suas obras?
A minha vida é o resultado da busca por um equilíbrio constante. A criatividade é oscilante e impulsiva, mas consigo controlá-la, graças à terapia. De vez em quando, tenho períodos de grandes brainstorms, que são como viajar numa galáxia, experimentando chuvas de estrelas, ou fogo-de-artifício, intenso e fugaz. Nesses momentos, passo as ideias ao papel. Faço esquemas que guardo. A terapia ensinou-me a ter autodomínio sobre a criatividade. Não podemos querer fazer tudo, senão perdemo-nos. Nos períodos de acalmia cerebral, agarro nas minhas notas, faço escolhas e começo a produzir. Os artistas passam cá para fora uma imagem negativa. Eu sou uma artista feliz, equilibrada, estruturada. Não preciso de uma garrafa de vinho para criar, não necessito de erva para rir. Vejo artistas que dizem fazer algo “porque me apetece”. Não faço porque me apetece. Faço esboços, estruturo e produzo. É lógico que existe um processo de criação e de libertação.
Que materiais usa?
Já pintei em porcelana. Fiz bijuteria e usei cabos de aço. Dou uns toques em escultura. Mas a minha imagem de marca é o trabalho em resina e fibra de vidro, no qual sou autodidata.
Como surgiu a resina e fibra de vidro?
Por acaso. Foi uma colega que um dia me disse que tinha esse tipo de material, deixado por uma artista francesa. Experimentei e saíram os quadros «Costela de Adão» e «Angel», que está na Futurlagos. Talvez por influência do meu pai, que foi chefe de cozinha, ando a descobrir sabores e paladares e pinto com especiarias da Índia e de Marrocos, porque a fibra de vidro permite-o.
Mas música é a sua grande musa inspiradora?
Não pinto sem música. Nem consigo viver sem música.
Considera-se pintora ou artista plástica?
Artista plástica. Os pintores são completamente diferentes. Há uma charneira enorme entre ambos. A minha base é a pintura impressionista, à qual dou movimento, vida. Depois, uso ferrolhos, tábuas velhas, seguindo os meus croquis, que funcionam como guias.
A sua obra segue alguma linha, ou é errante?
Está estruturada em três grandes projetos, que já têm corpo: contrastes, tradição e o jardim de Éden. Vou fazendo quadros que têm cabimento nestes projetos, o que me vai permitir desenvolvê-los por vários anos a fio. O contraste pode produzir um livro ou levar-me ao palco com uma orquestra.
Porquê dar o nome «contraste» a um projeto baseado na música?
Não sei. Na altura, achei que a música não tinha nada a ver com a pintura… e há uma ligação enorme. Tudo era um contraste, o velho com o contemporâneo, o abstrato e o verniz da resina misturados com coisas antigas. Parecia que nada tinha a ver com nada. No entanto, hoje existe um fio condutor.
Que projetos para o futuro?
Quero ir para fora e ter projeção internacional, mas vejo-me limitada pelo aspeto financeiro. Adorava poder ir a Amesterdão tirar um curso de ilustração e trabalhar num livro. A vida permite-me isso? Não! Há muita coisa que quero fazer cá? Há! Existe uma dualidade, escrevo e encontro-me a mim mesma. E posso dizer que estou em paz e sou uma pessoa feliz. Posso ter pouco dinheiro, mas tenho muito mais do que isso, porque tenho uma qualidade de vida enorme.
Neste momento, Susana Calado prepara-se para dar um salto qualitativo nas suas exposições, apresentando «Contrastes» no Porto, onde espera encontrar uma recetividade adequada à sua obra.