O Algarve não tem apenas falta de trabalhadores. Tem, cada vez mais, dificuldade em oferecer condições para que os trabalhadores consigam viver na região.
Todos os anos, por esta altura, regressa a mesma discussão: a falta de mão de obra no Algarve. Empresários preocupam-se com a dificuldade em recrutar, associações empresariais alertam para a escassez de trabalhadores e multiplicam-se os apelos para encontrar soluções. No entanto, depois de mais de 20 anos a trabalhar na área dos Recursos Humanos (RH), acredito que a questão merece ser colocada de outra forma.
O Algarve não tem apenas falta de trabalhadores. Tem, cada vez mais, dificuldade em oferecer condições para que os trabalhadores consigam viver na região.
Ao longo dos últimos anos, o Algarve tornou-se mais atrativo para turistas, investidores e novos residentes. Este crescimento trouxe riqueza, dinamismo económico e oportunidades. Mas trouxe também um problema que deixou de ser ignorado: o acesso à habitação.
Hoje, um trabalhador que receba uma proposta de emprego para o Algarve faz uma pergunta simples antes de aceitar: «Onde vou viver?»
A resposta é muitas vezes desanimadora. As rendas atingiram valores incomportáveis para grande parte dos trabalhadores. Encontrar uma casa tornou-se difícil. Encontrar uma casa a um preço compatível com um salário médio tornou-se, em muitos casos, impossível.
Já não é raro entrevistar candidatos interessados numa função e perceber que a conversa muda de rumo quando se fala de habitação. O interesse existe. A vontade de trabalhar também. O problema surge quando a realidade dos custos de vida entra na equação.
O resultado está à vista. Há candidatos que recusam propostas de emprego. Outros aceitam, mas acabam por sair poucos meses depois. Há profissionais qualificados que optam por outras regiões do país ou pelo estrangeiro. E há empresas que, apesar de terem atividade, clientes e vontade de crescer, veem esse crescimento condicionado pela dificuldade em contratar e reter pessoas.
Mas existe uma consequência ainda mais preocupante: a dificuldade em fixar os nossos jovens.
Todos os anos, centenas de jovens algarvios concluem cursos profissionais, licenciaturas e mestrados. Muitos gostariam de permanecer na região onde cresceram ou de regressar após concluírem os seus estudos. No entanto, quando analisam o custo da habitação, a dificuldade em encontrar arrendamento e as perspectivas de construção de uma vida autónoma, acabam frequentemente por procurar oportunidades noutras regiões do país ou no estrangeiro.
O Algarve investe na formação dos seus jovens, mas está a perder uma parte significativa desse talento precisamente quando mais precisa dele. E esta é uma realidade que deve preocupar-nos. Porque uma região que não consegue reter os seus jovens está, inevitavelmente, a comprometer o seu futuro.
Importa também desfazer um equívoco. Este já não é apenas um problema da hotelaria e da restauração.
A dificuldade em recrutar afeta hotéis, mas também afeta lares, escolas, instituições de saúde, comércio, construção civil, manutenção, serviços, indústria e até a administração pública. A escassez de habitação e o aumento do custo de vida transformaram-se num problema transversal à economia algarvia.
O paradoxo é evidente. O Algarve é uma das regiões mais procuradas do país para viver, visitar e investir. Mas está a tornar-se uma das mais difíceis para quem trabalha e depende do seu salário para construir um projeto de vida.
Esta realidade deve preocupar-nos a todos. Não apenas os empresários. Não apenas os trabalhadores. Toda a comunidade.
Porque sem trabalhadores não há hotéis a funcionar, não há restaurantes a servir, não há comércio aberto, não há empresas a crescer, não há serviços públicos eficazes e não há economia regional sustentável.
Perante este cenário, é importante que o debate público vá além dos sintomas e procure enfrentar as causas do problema.
Se queremos que os trabalhadores consigam viver no Algarve, precisamos de aumentar significativamente a oferta de habitação. E isso exige decisões concretas.
Desde logo, acelerar os processos de licenciamento urbanístico. Não é aceitável que projetos habitacionais capazes de disponibilizar dezenas ou centenas de fogos permaneçam anos à espera de pareceres, aprovações e procedimentos administrativos. Cada mês de atraso representa menos casas disponíveis e maior pressão sobre os preços.
Em segundo lugar, é necessário disponibilizar mais solo para habitação destinada à classe média trabalhadora. O Algarve não precisa apenas de habitação social nem apenas de empreendimentos de luxo. Precisa de casas para quem trabalha. Para jovens casais, técnicos qualificados, professores, enfermeiros, profissionais do turismo, forças de segurança e tantos outros trabalhadores que garantem o funcionamento diário da região.
É igualmente importante incentivar a reabilitação de edifícios devolutos e imóveis atualmente sem utilização permanente. Em muitas localidades existem edifícios que poderiam regressar rapidamente ao mercado habitacional se os processos fossem mais simples e os incentivos mais eficazes.
Mas a habitação não é a única resposta.
O Algarve precisa de uma verdadeira estratégia regional de mobilidade. Um trabalhador não deve ser obrigado a utilizar viatura própria porque não existem alternativas viáveis para se deslocar entre concelhos. Uma rede de transportes públicos mais eficiente permitiria alargar significativamente a área de recrutamento das empresas, reduzir custos para os trabalhadores e aproximar oportunidades de emprego de quem delas precisa.
Também as empresas devem ser parte da solução. Muitas já disponibilizam alojamento, transporte ou outros apoios complementares. Mas importa criar condições para que mais organizações possam investir nestas respostas, através de enquadramentos legais e fiscais que incentivem o apoio à habitação dos trabalhadores sem penalizar quem procura encontrar soluções.
No caso dos jovens, importa criar condições para que o primeiro emprego e a primeira habitação sejam compatíveis. Continuaremos a perder talento enquanto um jovem licenciado conseguir encontrar emprego no Algarve, mas não conseguir encontrar uma casa que possa pagar. Fixar jovens não depende apenas de criar emprego; depende de criar condições para que possam construir um projeto de vida autónomo.
Precisamos ainda de uma maior articulação entre autarquias, empresas, instituições de ensino e Governo. O problema é demasiado importante para continuar a ser tratado de forma fragmentada. O Algarve precisa de uma estratégia regional para a atração e retenção de talento, com objetivos claros, metas mensuráveis e capacidade de execução.
Durante demasiado tempo discutimos os efeitos sem enfrentar as causas. Quando a procura aumenta e a oferta não acompanha, os preços sobem. Esta não é uma questão ideológica; é uma realidade económica.
O Algarve não precisa de mais estudos sobre o problema. Precisa de mais casas, mais rapidez nas decisões e mais capacidade de execução.
O Algarve construiu a sua reputação com base na qualidade da sua oferta turística, na capacidade das suas empresas e no empenho das suas pessoas. Mas nenhuma região prospera sem pessoas.
E talvez esteja na altura de reconhecermos uma verdade simples: o maior desafio do Algarve já não é atrair turistas. É garantir que aqueles que trabalham todos os dias para os receber — e os jovens que aqui nasceram e querem construir o seu futuro — conseguem continuar a viver aqui.
Porque a maior riqueza do Algarve não são os seus empreendimentos, as suas praias ou o seu clima. São as pessoas que, todos os dias, fazem tudo isso funcionar.
Se queremos um Algarve mais próspero, mais competitivo e com melhores oportunidades para todos, devemos começar por garantir que quem trabalha tem condições para aqui viver, crescer e construir o seu futuro. Afinal, uma economia forte não se mede apenas pelo investimento que atrai, mas também pela capacidade de reter as pessoas que a tornam possível.
Maria Merino | Diretora de Recursos Humanos