«Petróleo», de Inês Filipe, estreia no Teatro das Figuras, em Faro, na quinta-feira, 14 de maio. O texto, vencedor do Prémio Novas Dramaturgias José Louro 2025, conta com a encenação de Sara Vicente, a primeira que assina para a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve.
A cama é o principal dispositivo cénico onde um trio — um casal heterossexual aberto (Carmo e André) e um amigo de longa data (Fábio) — desafia as fronteiras da relação, num registo que oscila entre drama e comédia. Na peça, conforme a noite avança e o álcool flui, o que parece um triângulo amoroso moderno revela camadas ambíguas de intimidade, desejo e fragilidade emocional. Até se tornar desconfortável.
A própria ideia de «Petróleo» nasce dessa acumulação de sedimentos emocionais e desgaste relacional, explica a encenadora, Sara Vicente, 36 anos. «Procurei a definição de Petróleo e acho que tem a ver com sedimentos, profundidade e sujidade. Se aplicadas ao relacionamento pessoal, em vez de à natureza, diria que é um pouco por aí. A história é acerca de limites e perspectivas de consentimento. O que é que é o espaço confortável de uma pessoa e como esse espaço pode ser violentado».
Em boa verdade, esta peça era para ter sido encenada por Luís Vicente, diretor da ACTA, mas Sara Vicente considera que o texto «tem uma comunicação direcionada às camadas mais jovens. Coloca em jogo aquilo que é o consentimento. Então, se calhar, fazia sentido ser tratado por uma mulher mais jovem e capaz de estar mais dentro do assunto por experiência de vida».

Fisicalidade além do texto
A ideia inicial da encenadora, no primeiro ensaio, a 11 de março, era minimalista. «Não havia nada, os atores faziam tudo num palco vazio. Só que, entretanto, devido ao texto, comecei a precisar de níveis de representação e de haver uma diferença entre as personagens estarem em pé ou sentadas, muito próximas ou mais distantes. Então comecei a sentir necessidade da cama», neste caso, um elemento cénico já com histórico teatral, pois foi usada na peça «A Noite de Molly Bloom», adaptação do último capítulo do romance «Ulisses», de James Joyce, levada à cena pela ACTA em 2021.
A jovem encenadora também dispensou os adereços imaginados pela autora e optou por substituir os objetos pelos gestos de uma desenfreada noite de copos. «Tentei fazer com que a fisicalidade dos atores bastasse para as ações em cena».
Zonas abertas e texto invertido
Uma das decisões mais marcantes da encenação foi alterar a ordem das cenas originalmente propostas pela autora, Inês Filipe. A opção serviu para antecipar a discussão entre o casal, fazendo com que o público ouça primeiro os relatos do que terá acontecido e só depois veja o episódio que lhes dá origem.
Sara Vicente diz que percebeu logo, na primeira leitura, uma dramaturgia construída sobre zonas abertas, entrelinhas e diálogos inacabados. «Senti e depois vi no corpo e nas propostas dos atores: há vários assuntos que derramam e parecem ficar em ponta solta, não são levados até ao fim. Não se fecham e não são cristalizados, justamente para que cada pessoa possa ter o seu ângulo de visão, a sua perspectiva», sobre o que se terá passado entre as três personagens.

E acrescenta: «a maioria das vezes em que nos deparamos com uma falta de consentimento, não estamos envolvidos. Temos de ouvir a situação e tendemos logo a deslegitimá-la, entre aquilo que parece e aquilo que efetivamente é».
«Então quis dar essa hipótese: uma coisa ser primeiro conversada e falada, discutida, e só depois ser vista como aconteceu. A discussão entre o casal vai dando pistas. Obviamente, na escrita, ela surge depois do episódio em si. E então achei que poderia ser interessante trocar a ordem».
Mas aconteceu mesmo? «Aconteceu, mas os limites são variáveis. É um assunto sensível», tal como uma das personagens explica. No final, «o público decide se, com aquilo que viu e com as pistas que lhe foram dadas, onde é que se coloca». E se o público ficar confuso entre os três pontos de vista? «Também é válido».
Reforço de última hora no elenco
O processo de casting teve um sobressalto. A duas semanas de entrarem em ensaios, um dos atores saiu do projeto. A solução chegou pelo Tiago Leal, que vive no Porto. «Foi um pânico», mas a solução de última hora trouxe uma vantagem: o facto de ter sido formado na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), tal como a encenadora, facilitou a integração. «É engraçado como a escola às vezes faz os profissionais. Temos nomenclaturas iguais, e já sabemos o que é que o outro está a querer dizer».
O elenco conta ainda com Carlos Pereira, discípulo direto de Filipe Crawford, com um percurso que atravessa a Commedia dell’Arte, a máscara e o teatro físico. Neste trabalho, «ele ajudou-me, pois tem uma sabedoria física muito diferente da minha, fruto de muitos anos de experiência e de muito calo como ator».
Já Carolina Teixeira, que foi uma das duas protagonistas de «Pedras com Asas», que a ACTA estreou em 2022, além de atriz, trabalha nas urgências de pediatria do hospital. Aliás, houve um esforço da equipa para que pudesse conciliar a vida profissional com os ensaios.
Legado familiar não condiciona trabalho de palco
Sara Vicente é filha da atriz Alexandra Diogo e de Luís Vicente, ator, encenador e diretor artístico da ACTA. Questionada sobre as influências do pai, Sara afirma que «o meu trabalho é muito diferente do dele. Tenho uma relação com a fisicalidade e acho que as nossas vertentes, as nossas leituras, se separam e divergem bastante».
E acrescenta: «há muitos anos que fazemos isto e, portanto, também conseguimos conversar como colegas, muito facilmente. Às vezes, até com uma intimidade maior, porque entendemos e sabemos muito bem de onde é que cada um vem».
O pai «tem vindo aos ensaios, está muito contente com o resultado. Fará sempre parte da minha vida e da minha experiência, faça o que eu fizer. Da mesma forma que a minha mãe, que é atriz, também o fará. Obviamente, são influenciadores da minha vida, estiveram perto demais para não ser».
Sara Vicente começou no VATe (Vamos Apanhar o Teatro), a trabalhar com teatro de marionetas, no serviço educativo da ACTA, que transforma um autocarro de dois pisos numa sala de espetáculos itinerante. E, desde então, passou por várias funções.
Apesar de ser a primeira encenação, «não sinto peso, porque já conhecia a autora. Conseguimos conversar de uma maneira muito natural. O facto de esta ser a minha primeira encenação, também tem de ser relativizado. Não posso tratar isso como se fosse o meu golpe de génio, porque certamente não o será. Ainda é cedo para isso», destaca.
E mais: «não coloco pressão. Trato tanto o meu pai, como a autora do texto e os outros colegas que me acompanham, como profissionais, o que nos interessa é até onde é que a nossa capacidade criativa nos pode levar. Ao melhor que podemos fazer. Não me interessam estatutos, nomes, hierarquias. Essas coisas não são comigo», sublinha.
A ACTA «foi onde aprendi mais na minha vida — entrei na companhia e, de repente, comecei a fazer desde bilheteira a frente de sala, a acompanhar digressões, fazer produção, dossiês de espetáculos e espetáculos. A ESMAE é a minha escola de formação, mas a ACTA é a minha escola também, da mesma forma».
Em relação ao futuro, «estou ansiosa para voltar para o palco depois desta experiência. Tenciono também construir um percurso académico e artístico. A academia interessa-me, não só a prática, mas levar a prática também comigo para a academia», revela. E «sempre que a ACTA precisar de mim e me chamar, estarei disponível e presente para ajudar».
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«Petróleo» tem classificação etária para maiores de 16 anos. Os bilhetes custam 10 euros (7,50 euros para maiores de 65 anos e cinco euros para menores de 30 anos). Os bilhetes estão à venda na plataforma BOL.
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O Prémio Novas Dramaturgias José Louro é promovido pelo Teatro das Figuras, a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve/Teatro Lethes, o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve (UAlg) e tem como parceiros a Câmara Municipal de Faro, o CET- Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa e Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
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Fotos: Bruno Filipe Pires






