Após um inverno particularmente intenso e marcado por níveis elevados de precipitação, importa começar desde já a preparar a resposta para a época de incêndios de 2026.
Do ponto de vista técnico, o cenário que se desenha é exigente. A elevada disponibilidade hídrica registada traduziu-se num aumento significativo da carga de combustível fino, nomeadamente vegetação rasteira e no desenvolvimento do estrato arbustivo.
Este crescimento ainda se encontra ativo e tenderá a manter-se durante os próximos meses, coincidindo com o período legalmente estabelecido para a realização das faixas de gestão de combustível. Em termos práticos, estamos perante uma quantidade de biomassa superior à verificada em anos anteriores, o que representa um fator acrescido de risco.
Podemos sempre reforçar o combate aos incêndios com mais meios, mais equipas no terreno e mais investimento, mas isso, por si só, não resolve o problema de fundo. O que realmente faz a diferença é o trabalho feito antes de começar a época crítica. Um bom planeamento do território, com uma gestão florestal organizada e contínua, reduz de forma significativa o risco e a intensidade dos incêndios.
Em Portugal, grande parte da área florestal está fragmentada e muitas vezes sem manutenção regular, o que facilita a acumulação de mato e material combustível que alimenta os fogos. Por isso, prevenir passa inevitavelmente por ordenar melhor a floresta e garantir uma gestão ativa ao longo de todo o ano.
A limpeza de terrenos, a criação de faixas de gestão de combustível e a manutenção das áreas florestais são medidas essenciais para diminuir o perigo quando chegam os meses mais quentes. Estas ações não têm o impacto mediático do combate direto aos incêndios, mas são decisivas para reduzir a probabilidade de grandes fogos e proteger pessoas, habitações e ecossistemas.
Se houver um esforço sério nestas tarefas ao longo de 2026, será possível enfrentar o verão com muito mais segurança e tranquilidade. Investir na prevenção é, na prática, a forma mais eficaz de proteger o território e evitar que cada verão se transforme numa nova crise.
Nos termos do Decreto-Lei n.º 82/2021, os proprietários são obrigados a proceder à limpeza dos seus terrenos até 30 de abril, sendo que, após essa data, se intensificam as ações de fiscalização e se inicia o período de intervenção subsidiária por parte dos municípios, que decorre até 31 de maio. No entanto, face às condições excecionais deste ano, é previsível que se verifiquem constrangimentos significativos na execução atempada destas operações.
Acresce que, enquanto decorrem as ações de limpeza, a vegetação continua em crescimento vigoroso, impulsionada pela humidade residual dos solos e pelas condições meteorológicas ainda favoráveis ao desenvolvimento vegetativo. Este desfasamento temporal entre o pico de crescimento e o período legalmente definido para a gestão de combustível cria dificuldades operacionais evidentes, reduzindo a eficácia das intervenções quando não executadas no momento ótimo. Na prática, parte da vegetação removida pode voltar a regenerar em poucas semanas, comprometendo o esforço realizado e exigindo, em muitos casos, intervenções adicionais não previstas.
Este ciclo apenas deverá abrandar com a subida consistente das temperaturas e a diminuição da disponibilidade hídrica no solo, o que tipicamente ocorre no início do verão. A partir desse momento, inicia-se o processo de secagem da biomassa, com uma rápida transição de material verde para combustível fino morto. É precisamente nesta fase que se verifica um aumento significativo da perigosidade de incêndio rural, uma vez que a continuidade horizontal e vertical do combustível, aliada à sua elevada inflamabilidade, favorece a ignição e a propagação rápida do fogo, sobretudo em dias de vento e baixa humidade relativa.
Perante este enquadramento, impõe-se uma reflexão técnica mais aprofundada sobre a adequação das medidas atualmente em vigor, não apenas ao nível dos prazos, mas também dos critérios de execução e monitorização.
Poderá justificar-se a introdução de maior flexibilidade na gestão dos calendários de limpeza, ajustando-os às condições edafoclimáticas de cada ano, bem como o reforço dos mecanismos de acompanhamento no terreno. Concomitantemente, será essencial garantir um aumento da capacidade operacional, quer ao nível de meios humanos, quer de equipamentos, de forma a dar resposta a um volume de trabalho significativamente superior.
Paralelamente, torna-se essencial antecipar e intensificar estratégias de sensibilização e comunicação com a população. Não basta informar sobre as obrigações legais; é necessário promover uma verdadeira consciencialização para o risco acrescido que se perspectiva.
O mês de março deverá ser aproveitado para estruturar campanhas robustas, tecnicamente fundamentadas e territorialmente adaptadas, que possam ser implementadas com intensidade logo no início de abril. Estas ações deverão envolver não só proprietários e produtores florestais, mas também a população em geral, promovendo comportamentos preventivos e uma maior corresponsabilização na gestão do território.
Espero, sinceramente, que o Governo e as autarquias consigam antecipar este cenário e implementar medidas proporcionais ao risco, permitindo-nos atravessar o verão de 2026 com maior segurança e previsibilidade.
Este não é um exercício de alarmismo, mas sim um apelo à antecipação e ao planeamento. A resposta eficaz aos incêndios começa muito antes da época crítica, na gestão do território e na redução da carga de combustível.
Termino com uma nota que tenho vindo a reiterar ao longo dos anos: as ações de limpeza florestal só terão um impacto verdadeiramente estruturante quando a biomassa resultante destas intervenções for devidamente valorizada. A sua integração em cadeias de aproveitamento energético, nomeadamente através de centrais de biomassa, não só contribuiria para a redução do risco como acrescentaria valor económico ao território.
Jorge Carvalho da Silva | Vice-Presidente da AsproCivil – Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil
