Projetos Skins e EarlyCod, financiados pelos fundos europeus geridos no Algarve, são exemplos de exportação da ciência de ponta que hoje se faz na região.
Quem aprecia uma boa posta de salmão talvez não saiba que a indústria deste peixe enfrenta um desafio sanitário, devido ao piolho-do-mar (Lepeophtheirus salmonis). Há, por isso, um forte interesse em continuar a encontrar diferentes soluções que permitam mitigar os impactos deste parasita nas produções.
«O Skins é um projeto nacional no qual trabalhamos com vários parceiros. O interessante é que não temos salmões em Portugal. Por isso, vamos avaliar modelos in vivo, ex vivo e in vitro nas nossas instalações, de forma estandardizada, de salmonídeos», explica Ana Gonçalves, investigadora das empresas algarvias Sparos/Riasearch e também do laboratório colaborativo GreenCoLab, sediado na Universidade do Algarve (UAlg).
O objetivo é estudar a introdução de «aditivos sustentáveis», como diferentes tipos de algas nas rações, que possam ajudar a robustecer o salmão durante o cultivo. Pretende-se «acelerar a regeneração e a cicatrização da pele», acrescenta a bióloga marinha, doutorada em Biociências Marinhas Aplicadas, com especialização em Gestão da Saúde de Peixes, pela Universidade de Ciência e Tecnologia Marinha de Tóquio.
Segundo a investigadora, a pele é a principal barreira de defesa dos peixes, sobretudo no salmão, que passa por processos muito complexos: inicia o ciclo de vida em água doce, depois migra para água salgada e sofre modificações estruturais. Ao longo deste ciclo, «é frequentemente agredida» pelo ectoparasita. O piolho-do-mar é um crustáceo hematófago que se alimenta de sangue e do muco da pele do salmão, provocando danos cutâneos e feridas que são «uma porta de entrada» para outras complicações.
«Não mata o peixe diretamente, mas é um fator de stress, tal como qualquer outro problema de saúde. Por isso tem de ser mitigado», acrescenta a cientista.
A praga «faz parte da condição de cativeiro e por isso acontece com mais frequência nas produções do que em meio natural. Os nossos colegas nórdicos têm tratamentos não farmacológicos e ambientalmente sustentáveis, mas o problema persiste. Também tem a ver com as alterações climáticas. Quando a temperatura da água aumenta, a probabilidade de infestação cresce», descreve.
E o impacto económico é significativo. «Investem-se milhões de euros para que, quando chegue ao nosso prato, o salmão tenha a qualidade que conhecemos e aceitamos na Europa».
Com este projeto, «Portugal vai dar um grande contributo aos produtores do Norte com novas soluções para um problema que está longe de ser resolvido», conclui a investigadora.
Liderado pela Riasearch, Lda., o projeto Skins conta com o apoio do Programa Regional ALGARVE 2030. Tem um valor total elegível de 579.572,64 euros e um financiamento aprovado de 484.004,50 euros. Envolve várias entidades não empresariais do sistema de investigação e inovação português: a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), estes dois últimos afetos à Universidade do Porto. No Algarve, abrange os laboratórios colaborativos GreenCoLab e S2AQUAcoLAB.
Cracas à algarvia para larvas da Noruega
Bacalhau de aquacultura é, para muitos portugueses, desconhecido. Acostumados ao tradicional consumo do selvagem quando seco e salgado, poucos sabem que existe produção de bacalhau fresco em cativeiro — sobretudo na Noruega — e que terá uma contribuição algarvia.
«Nos supermercados, os lombos de bacalhau fresco à venda não são todos pescados no Mar do Norte. Muito desse peixe é de aquacultura», confirma Luís Conceição, investigador sénior em nutrição e cofundador da Sparos, empresa de biotecnologia especializada no desenvolvimento de rações para a indústria da aquacultura, com sede em Olhão.
A Sparos tem em mãos o projeto EarlyCod, que nasce de uma parceria com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), afeto à Universidade do Porto, e a empresa norueguesa Planktonic.
O objetivo é melhorar a alimentação das larvas de bacalhau numa combinação inovadora de microdietas produzidas pela empresa algarvia, adaptadas especificamente às necessidades deste peixe do Atlântico Norte e Ártico.
Na base está um alimento vivo alternativo fornecido pela empresa norueguesa — larvas de craca — isto é, a fase inicial de desenvolvimento do crustáceo conhecido por se agarrar às rochas e aos cascos das embarcações.
Para já, os resultados dos testes têm revelado «não só uma melhoria no crescimento» como uma redução significativa de malformações esqueléticas, «um problema que pode afetar até 20% dos juvenis» e impactar toda a linha de produção.
«Ficámos surpreendidos com a percentagem de malformações. A nossa dieta parece ter um efeito muito positivo na redução dessas anomalias», afirma Luís Conceição.
Para conseguir este resultado, a microdieta tem de conter proteínas, lípidos, ácidos gordos essenciais (como os ómega-3), vitaminas e minerais, mas tudo compactado numa partícula — do tamanho da cabeça de um alfinete — e que a larva consiga ingerir facilmente.
«Para isso, o cheiro, o sabor e a textura da partícula também contam, pois determinam a apetência pelo alimento. Uma dieta nutricionalmente perfeita, mas pouco atrativa, pode levar as larvas a comerem menos e, por isso, crescerem pior ou até morrerem», compara.
Os bons resultados obtidos nos ensaios de validação permitem estimar que «seja possível lançar um novo produto no mercado no início de 2026».
O projeto EarlyCod conta com financiamento do Programa Regional ALGARVE 2030, no valor total de 369.737 euros e um financiamento aprovado de 229.131 euros (61,97%).
Financiamentos anteriores permitiram desenvolver uma ração para alimentar um peixe limpador usado na luta biológica contra o piolho-do-mar do salmão e que, neste momento, é um dos produtos principais da Sparos, vendido para produtores na Escócia e na Noruega.
A Sparos também está a desenvolver rações para larvas de alabote, no âmbito do projeto FlatFIRST, numa parceria com o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, a portuguesa Flatlantic e a norueguesa Sterling White Halibut.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», recém-editado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.





