Com 85% da faturação no mercado internacional, a FastSeal- Unipessoal, Lda., microempresa criada por Filipe Tomaz, em Pechão, desenvolveu software para um nicho muito restrito e dominado por gigantes industriais. Tem clientes em todo o mundo, sobretudo nas economias emergentes. E o que faz? Vedantes hidráulicos e peças em plástico de engenharia.
Podem ser simples ou de grande complexidade. Os vedantes hidráulicos fazem o mundo moderno funcionar. Filipe Tomaz, 46 anos, percebeu bem a importância destas peças, muitas vezes imperceptíveis ao olhar na maioria das aplicações, a trabalhar com o pai e o irmão numa oficina familiar, a serralharia Mastor, entre Pechão e Olhão que repara máquinas agrícolas, retroescavadoras e outros equipamentos industriais.
«Enquanto estudava na Universidade do Algarve (UAlg), em Faro, no curso de Engenharia de Sistemas e Computação, continuei sempre a trabalhar em metalomecânica. Reparávamos maquinaria que usa estes vedantes, cuja função é essencial para todos os atuadores hidráulicos. Por vezes, quando precisávamos destas peças, tínhamos de esperar vários dias, até que fossem feitas em Lisboa para podermos concluir as reparações», recorda.
Um protótipo e as primeiras linhas de código
Para servir melhor os clientes, Tomaz pensou então em comprar algo capaz de produzir este tipo de peças, uma tecnologia dominada por um conjunto restrito de fabricantes na Áustria, «onde tudo começou».
Viajou até àquele país da Europa central e viu que «para fazer vedantes era preciso máquinas relativamente convencionais, mas operadas por software e ferramentas especiais. Regressei ao Algarve a pensar que não teria capacidade financeira para comprar uma. Era demasiado caro».
No entanto, não se deu por vencido. «Com a minha formação académica quase concluída e os conhecimentos que que tinha na área, pensei em construir um protótipo». E a ideia avançou mesmo, graças ao apoio de um programa Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), para a contratação de jovens licenciados.
«Contratei uma pessoa para escrever o software para o meu protótipo, que era extremamente básico», conta.
Empreendedor, teve ainda uma outra ideia de negócio ambiciosa para o projeto. «Pensei que talvez houvesse interesse por parte dos fabricantes em terem alternativas mais acessíveis» destinadas a países com menor poder de compra.
Então, «contactei três empresas austríacas. Uma respondeu-me, ficou interessada e fizemos um acordo para produzir um protótipo de baixo custo, pois um dos gigantes austríacos viu também potencial nos mercados emergentes», recorda.
«Ainda hoje o mercado está muito saturado com oferta de soluções (hardware e software) demasiado caras. As economias em desenvolvimento em África, na América do Sul e em grande parte do continente asiático, não as conseguem adquirir».
Tomaz começou a trabalhar com base nas especificações da empresa que aceitou sua proposta, e «durante um ano aprendi muito. Tive acesso a muito know-how e a coisas que de outra forma não teria tido».
O protótipo made in Algarve, infelizmente, e apesar do esforço, não foi suficientemente bom para convencer os austríacos. «Tinha os seus defeitos», admite. O contrato acabou, mas não o empenho.
Depois dessa experiência, «comecei a comprar máquinas antigas e a renová-las para instalar o nosso software que, entretanto, já estava muito mais desenvolvido».
Dito de forma resumida, tais máquinas são tornos mecânicos, com capacidades CNC (Computer Numerical Control), isto é, são programadas e executam os seus movimentos, e consequentemente as peças fabricadas, através de comandos precisos, gerados através de programas informáticos.
«Fazem vedantes hidráulicos maquinados a partir de um tubo flexível de poliuretano ou de vários tipos de borracha, dependendo da sua aplicação. Precisam, contudo, de ferramentas especializadas, porque as convencionais para trabalhar o metal não servem» para esta função. «Todas as máquinas que fiz foram vendidas».
Nasce o software universal
Em 2021, com o advento da pandemia, Filipe Tomaz resolve dedicar-se apenas à programação com uma abordagem inovadora: criar um programa universal, pois «essas empresas austríacas não continuaram a desenvolver software», condenando as máquinas mais antigas, apesar de funcionais, à obsolescência digital.
No início, admite que houve quem quisesse ver para crer. «A Áustria é percepcionada de uma maneira muito diferente de Portugal. Em termos de tecnologia, os portugueses não são vistos lá fora como o TOP. Por isso, temos mais dificuldades a entrar nos mercados», o que levou o empreendedor algarvio a viajar a países como a Polónia, Irão, Finlândia, para demonstrar e vender o FastSealCreator, o software que criou.
«Muito dificilmente há incompatibilidades porque o nosso software tem vindo a ser desenvolvido para se adaptar a quase qualquer equipamento», garante.
Além disso, tem uma base de dados com cerca de «880 desenhos para diferentes vedantes hidráulicos. O nosso concorrente mais direto tem apenas cerca de 200», compara. «E é possível customizar as dimensões e cada detalhe, cada ângulo, cada chanfre» com previsão 100 vezes menor que um milímetro.
Em termos de funcionamento, «é gerada uma representação visual. A única coisa que o operador tem de fazer é escolher o desenho da peça que quer produzir e definir aquilo a chamamos os nominais. São as medidas de corte: interior, exterior e altura. Mas pode haver mais. Além de calcular todas as dimensões, o nosso software estima o custo de produção de cada unidade com base no preço do material e no desgaste das ferramentas que irão ser utilizadas» em cada trabalho.
Tomaz diz que os cortes no poliuretano «seguem, mais ou menos, formas geométricas. Implicam um pouco de matemática e trigonometria. Por vezes, os clientes pedem-nos formatos novos, mas é fácil adicionarmos à base de dados. Esse é outro dos nossos grandes trunfos».
«A minha empresa é a mais recente desta indústria, portanto, para vender, preciso de fazer melhor», refere.
O primeiro cliente foi no México, «uma unidade fabril no meio do deserto. Fazia sobretudo peças standard, que aqui se compram prefeitas, baratíssimas. Mas não existia nada. As pessoas iam lá fazer tudo e mais alguma coisa. E isto acontece muito nos países subdesenvolvidos, que são o meu maior mercado», revela.
Hoje, «os meus clientes são empresas ou pessoas que já têm máquinas especializadas, ou então, que adaptam outras mais convencionais e instalam o nosso software para maquinar vedações hidráulicas e pneumáticas», uma solução muito adotada em países em vias de desenvolvimento, já que o custo é muito mais barato. «Tenho clientes a fazerem máquinas na Índia e a comprarem o nosso software».
ALGARVE 2030 ajuda a dar o próximo passo
Além do interesse chinês, uma tendência que começa a surgir, cada vez mais pedida pelos clientes um pouco por todo o mundo, é a possibilidade de vender este tipo de peças online, de forma rápida e com o mínimo de intervenção humana.
«Um cliente mexicano tem 14 cópias do nosso software, que usa em ambiente de escritório para responder a telefonemas e fornecer orçamentos. Mais recentemente, outro cliente nosso, da Índia, disse-nos que gostaria que fosse possível que os seus clientes, em vez de lhe telefonarem, pudessem ter um website, onde escolher online as peças que necessitam, definir a quantidade e receber, em tempo real, um preço, e fazer as encomendas», relata.
O projeto chama-se WebFastQuote. Desenvolver esta solução, que terá ligação direta ao software FastSealCreator é o que está na calha com o apoio do programa regional ALGARVE 2030. A candidatura foi elaborada e submetida pelo próprio Filipe Tomaz.
«Isto diferencia-se totalmente de uma loja online. Porquê? Porque numa loja online tradicional, consegue-se, por exemplo, comprar algo pré-fabricado. Imagine uma peça de roupa. Basta escolher a cor da camisola e um formato padrão. Não há variações de produto e existe stock. Aqui é diferente. Vamos oferecer a possibilidade de se maquinar uma quantidade de peças únicas, a determinar pelo cliente, feitas ao milímetro e segundo especificações muito detalhadas», explica o empreendedor.
«Hoje não há uma solução que permita fazer isto ao nível mundial, por causa dos vários parâmetros envolvidos. Já houve tentativas, mas é muito complexo. Vamos fazer o que não existe usando as tecnologias que temos vindo a desenvolver», ambiciona.
Para isso, a empresa contratou o programador João Pancinha, também formado na UAlg, um recurso altamente qualificado com o apoio do ALGARVE 2030, para desenvolver esta solução no prazo três anos.
«Trabalhar online é mais complicado porque envolve várias componentes, a parte de frontend, que é aquilo que o utilizador vê, e o backend, que é a parte administrativa do website. São duas aplicações separadas que têm de comunicar com o FastSealCreator», detalha Pancinha.
Tomaz não sabe ainda como este produto será comercializado. Possivelmente será uma funcionalidade integrada nas futuras atualizações do software, para quem a quiser implementar.
«A minha ideia é que seja um suplemento para que o nosso software não caia em desuso, para lhe dar mais funcionalidades e mais-valias. Não posso parar de inovar. Quem tem um produto que não há, tem ouro», conclui.
A microempresa sediada em Pechão posiciona-se como uma business-to-business (B2B). Faturou acima das melhores expectativas em 2023, cerca de 250 mil euros.
Além do software FastSealCreator, que está em constante evolução, vende subscrições para os clientes receberem atualizações constantes e assistência remota. Vende também matérias-primas e ferramentas específicas para este nicho. Tem clientes em todo o mundo mas, em Portugal, contam-se pelos dedos…





