O município de Lagos está a constituir um grupo de trabalho multidisciplinar que será júri de um concurso de ideias para a criação de um Memorial à pessoa escravizada.
O projeto ainda está em fase embrionária, mas Elena Morán, diretora do Museu de Lagos, adianta que está a ser «constituído um grupo de trabalho multidisciplinar para avaliar as propostas resultantes de um concurso de ideias», a lançar, em 2025.
Do concurso resultará uma peça de arte pública, que será uma forma de homenagear as pessoas escravizadas, e de alertar para um flagelo que ainda existe no mundo atual.
O memorial será colocado junto ao Anel Verde, local onde em 2009, durante as escavações para a construção de um parque de estacionamento, foi escavada uma lixeira com 158 esqueletos, que depois de exumados, se veio a confirmar serem de origem africana, sendo que o registo mais antigo corresponde aos meados do século XV. A descoberta, no Vale da Gafaria, chocou os arqueólogos e investigadores.
«Foram simplesmente descartados os cadáveres de pessoas que iam ser mercantilizadas e que chegaram mortas ao porto de Lagos ou faleceram pouco depois. O facto de não estarem batizadas impedia que pudessem ser enterradas em solo sacralizado», nos cemitérios paroquiais do século XVI.
«Não tiveram sequer a possibilidade de um enterro digno. É um horror. Não há nada mais terrível para o ser humano que não poder dar sepultura aos seus mortos com a dignidade que merecem. Muitos tinham golpes e carências de nutrição. Estavam mal alimentadas. Esse é um dos aspetos que os antropólogos que estavam no terreno, e que continuam os estudos, conseguem ver à luz da ciência», lembra.
Apesar da vontade de reconciliação com o passado escravagista, tal evocação não será polémica, ou mal interpretada, sobretudo numa cidade turística como Lagos?
«Não, pelo contrário. Infelizmente, 500 anos mais tarde, é um problema que ainda existe. Não devemos esquecer a história de Lagos que foi protagonista destes episódios mais negros, nem podemos esquecer que nos dias de hoje a escravatura está instalada. Não temos de branquear a história».
Portanto, o futuro memorial será «um ponto de reflexão que temos de aprender com a história e que devemos ser socialmente ativos, no dia a dia, para dentro das nossas possibilidades, podermos construir um mundo melhor. E não digo isto de maneira utópica», sublinha.
Morán recorda o caso de um grupo de portugueses, que se encontrava numa real situação de «escravatura moderna» no País Basco, em Espanha, e que foi libertado em maio do ano passado numa operação da Guardia Civil que contou com a colaboração da Polícia Judiciária (PJ).
E justifica: «se servir para criar consciência, se calhar conseguimos, entre todos, identificar os sinais e eventualmente denunciar E quando falamos de escravatura, podemos falar noutras coisas, como a violência doméstica, a violência familiar entre casais, ou entre pais e filhos. Ou nos casos de bullying nas escolas. Se criarmos consciência, podemos estar mais atentos. Sim, penso que o memorial poderá ser polémico, mas a polémica não significa que seja mau. Se for assim, é sempre positivo».
A ideia subjacente ao memorial «é que tenha um retorno social, que seja realmente importante e aceite por todos. Para mim, isso é o mais importante. Até lá, queremos que este projeto seja participado e discutido». O concurso de ideias terá também a consultadoria do IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação.
Todo o espólio que foi escavado na lixeira do Vale da Gafaria continua a ser investigado.
«O acervo dá para milhares de estudos antropológicos. O que está a ser aprofundado em continuidade são estudos que auxiliam à antropologia forense, com os migrantes atuais, para se aferir a procedência daquelas pessoas», sublinhou.
Na primeira metade do século XV, Lagos foi o epicentro do primeiro projeto de globalização comercial moderna, que começou como um projeto impulsionado pelo Infante D. Henrique, e incluiu o tráfico de pessoas escravizadas capturadas no continente africano.
Os registos de batismo e de óbito da Misericórdia de Lagos para os anos 1571-1572 e 1582-1583 calculam que a população
escrava representaria 10 por cento da sociedade no século XVI.
Escavações arqueológicas recentes revelam uma manilha para comprar escravos e um enterramento «invulgar», ambos do século XVI, tal como o barlavento noticiou.
Antes do lançamento do concurso de ideias, está a ser agendado, para dia 13 de novembro, um seminário que abordará a escravatura contemporânea, com a participação de várias entidades que trabalham este flagelo.
Sob o título «Novos desafios no combate ao tráfico de seres humanos», terá lugar no auditório dos Paços do Concelho século XXI, juntando entidades e equipas multidisciplinares especializadas na assistência a vítimas de tráfico humano.
«Tivemos uma conversa preliminar e o panorama hoje é tremendo», lamenta.
Foto: Bruno Filipe Pires