Não é só a tristeza de partir, é a tristeza de ver o país doente, coxo e com os mesmos problemas de sempre agravados ano após ano.
No início de 2024, num qualquer aeroporto português, a caminho de França, do Reino Unido, da Irlanda, da Alemanha. Esta é tanto a minha, como a realidade de inúmeros outros jovens portugueses cujos sonhos e ambições cresceram bem para além daquilo que Portugal consegue oferecer. E o sentimento é o mesmo para todos: uma espécie de inevitabilidade, misturada com a tristeza de deixar família e amigos para trás num país que cada vez mais parece condenado à mediocridade e falta de visão.
Mas a tristeza não é só a tristeza de partir, é a tristeza de ver o país doente, coxo e com os mesmos problemas de sempre agravados ano após ano. É a tristeza de chegar e ver noticias das horas de espera infindáveis em todos os hospitais do país, é a tristeza de ver a classe política rendida à corrupção, a tristeza de falar com amigos que ficaram e têm de se resignar a metade do salário a que qualquer francês, alemão ou inglês com as mesmas qualificações tem acesso.
A estas tristezas já, infelizmente, clássicas da realidade portuguesa vão-se juntando novas às quais não estávamos habituados. Crescentes consequências de uma imigração descontrolada em todo o país, uma crise da habitação sem precedentes que impossibilita jovens de todo o país de ter casas próprias e os obriga a viver em casa dos pais até depois dos 30 (sim, esta é mesmo a média dada pela Eurostat).
Ora, 2024 traz-nos um ano de eleições, uma oportunidade de mudança, uma oportunidade de abrir os olhos e mudarmos o rumo do país para que estas tristezas não se tenham de multiplicar e criar réplicas ao longo de várias gerações. Mas para isto acontecer temos de cair na realidade e enfrentá-la de frente. E é neste clima pré-eleitoral que todas as tristezas mencionadas acima se transformam em raiva.
Acabado de sair de um governo de maioria absoluta absolutamente desastroso, vemos um Partido Socialista (PS) em modo de reescrita histórica como nunca antes visto: para eles, o SNS enfrenta problemas, mas nada de grave; para eles, os jovens foram obrigados a emigrar no governo de Pedro Passos Coelho, mas agora que 54 por cento dos jovens residentes admitem viver fora do país (segundo sondagem da aximage), nada de grave; para eles, encontrar 75 mil euros enfiados entre páginas de livros na gabinete do assessor de António Costa representa um golpe palaciano da Procuradoria Geral da Republica: nada de grave!
Enquanto isto tudo e mais um número infindável de escândalos vão acontecendo no país, parecemos todos cair num estado de nirvana tático-político, onde interessa mais com que coligações e com que aproximações táticas os partidos devem aproximar as eleições do que os problemas reais do país.
Discute-se à direita se os votos no Chega devem contar para possíveis coligações. Com um PSD que perde mais tempo a falar do PS do que das próprias ideias para o país, com uma IL, cheia de medidas reformistas mas que parece não acertar no tom com que faz passar a sua mensagem e com um Chega cada vez mais confiante de que a boçalidade no discurso político lucrará votos dado o panorama «zombie» da direita portuguesa.
À esquerda vive-se numa novela mexicana de traições e novos amores por aquilo que a gerigonça foi e um dia poderá ser, sem nenhuma visão de futuro para o país ou sequer um reconhecimento do que de mal foi feito até aqui.
Com um PS alucinado que vive no país das maravilhas em que tudo corre bem, um BE paranoico que «Pela habitação, não lhes dá descanso», quem quer que seja o bicho papão que tira as casas às pessoas e uma CDU que mais parece a associação recreativa de Oleiros onde a idade média deve rondar os 80 anos.
Dado este panorama, cá estou eu e milhares de outros jovens que continuam a sair do país à procura de cumprir os seus sonhos lá fora. Jovens a quem lhes dói partir, mas a quem não deixam voltar, por sequencias de anos e anos de péssimas gestões governamentais em Portugal que parecem não mudar. É caso para te dizer a ti, Portugal: «se gosto de ti, se gostas de mim, se isto não chega tens o país ao contrário» …
Frederico Baptista, 22 anos | Membro da Iniciativa Liberal de Portimão (atualmente a viver em Toulouse, França)