Foi no porto de pesca de Portimão, que em 2012, aos 82 anos de idade, encontrámos pela primeira vez Joaquim António Carneiro, mestre de terra da traineira «Milita», onde passava grande parte do seu tempo, bigorrilhando (arte de coser as redes rebentadas na faina), bem como entretido com as suas memórias de muito mar, em que labutou e arriscou a vida, e das muitas leituras que o apaixonavam.
Nasceu, na praia do Carvoeiro, em 12 de Agosto de 1930. Foi o filho do meio de uma fratria em que se contavam duas meninas. A mãe, operária conserveira, trabalhava na Fábrica da Liberdade (sita na zona ribeirinha de Portimão próximo de onde hoje fica o monumento às operárias conserveiras), para onde, na ausência de infantários à época, era muitas vezes forçada a levar o pequeno Joaquim, que, ainda bebé, ficava perto de si dentro de uma caixa de madeira vazia das que eram ali utilizadas para acondicionar latas de sardinha. O pai era um dos 60 sócios da Sociedade de Pesca Boa Harmonia que tinha os armazéns de redes no local onde hoje se ergue o edifício da Polícia Judiciária de Portimão e ao seu serviço o galeão a vapor «São Luís Gonzaga», construído e adquirido em Vigo em 1925.
Após ter completado a 4ª classe e quando contava 12 anos de idade, mestre Joaquim Carneiro começou a trabalhar na faina da pesca, ao lado de seu pai, no “São Luís Gonzaga”. A embarcação viria a ser conhecida por Leão, por a dada altura lhe ter sido colocado no cimo do mastro um leão em chapa metálica, fabricado pelo mestre Joaquim Alfarrobeira, que era o dono da mais importante oficina no Algarve, sita na zona ribeirinha de Portimão onde hoje existe um grande armazém Chinês.
Aí, segundo mestre Joaquim, se formaram os maiores ferreiros, torneiros, caldeireiros e mecânicos navais. O «Leão» tinha como apoio uma embarcação menor, a gasolina e vela, que seria batizada de «Leãozinho» e onde mestre Joaquim Carneiro também trabalhou. O «Leãozinho» seria posteriormente transformado em traineira e mais recentemente em embarcação de recreio, ainda hoje operando, sob o mesmo nome, na atividade marítimo-turística.
Aos 16 anos de idade Joaquim Carneiro parte para a dura e longínqua faina da pesca do bacalhau nos Grandes Bancos da Terra Nova. Fá-lo após ter frequentado em Lisboa um curso de formação profissional de pesca, de que foi o melhor aluno, o que lhe possibilitava o acesso direto à Escola da Marinha Mercante, para a qual não seguiu porque tal implicava ficar a estudar mais alguns anos.
O jovem Joaquim Carneiro, com 17 anos de idade, era um dos 31 tripulantes do bacalhoeiro português «Maria Carlota», um lugre à vela com 3 mastros e 42 metros de comprimento, que, no dia no dia 4 de novembro de 1947, se afundou, sob mar tempestuoso, no meio do Atlântico (a cerca de 640 milhas náuticas a Lés-nordeste do porto de Argentia, na Terra Nova – Canadá).
Foram salvos pelo navio-hospital norte-americano «Charles A. Stafford», que ainda no rescaldo da II Grande Guerra Mundial, transportava militares doentes desde Bremerhaven na Alemanha até à sua base em Nova Iorque.
Nessa cidade, apesar de estar muito próximo da Estátua da Liberdade, Joaquim Carneiro viu-se confinado à ilha de Ellis, como era habitual na época para todos os novos imigrantes. Depois de dificuldades e peripécias várias conseguiram dali sair, regressando a Portugal, a cargo da seguradora, de avião, via Gander, no Canadá e Santa Maria, nos Açores.
Após este episódio mestre Joaquim Carneiro não voltará à pesca do bacalhau, quedando-se na pesca do arrasto na costa portuguesa. Nesta nova arte trabalhará no Arrastão «Açor», pertença da Companhia de Pesca Portuguesa, onde vai encontrar, como mestre, António F. Matias, que fora seu comandante no «Maria Carlota» (anos mais tarde, junto ao Cabo Raso o «Açor» também viria a afundar-se).
Em 1950 Joaquim Carneiro cumpre o serviço militar obrigatório na reserva de marinha. Faz a recruta na Escola de Marinheiros de Vila Franca de Xira, seguindo depois para o Arsenal do Alfeite, onde fará parte da tripulação de uma Canhoneira e dos Draga-minas da Armada «São Miguel» e «Terceira».
Depois de cumprir o serviço militar na região de Lisboa Joaquim Carneiro volta a Portimão para agora se dedicar a um outro tipo de pesca. A pesca do cerco, feita com traineiras, que, no porto capital do Barlavento e até às décadas de 70/80 do século XX, rondavam a centena, para além das «enviadas» (embarcações menores que iam ao mar buscar o peixe às traineiras e trazê-lo para terra, assim permitindo que as traineiras fossem permanecendo no mar e na faina por mais tempo).
Depois de deixar de ir para o mar e nos últimos anos, Joaquim Carneiro tornou-se «mestre de terra» ou «mestre de redes» da traineira «Milita», sendo, portanto, o responsável pelo bom estado de conservação e reparação das artes de pesca daquela embarcação, tarefa que desempenhou até ao ano de 2015. E cosendo um pano de rede explicou-nos nesse primeiro encontro que cada um tem 18 metros de largura por 100 de altura e que a arte do cerco é feita com um total de 45 peças/panos de rede juntos, o que dá ao total do conjunto um perímetro de 800 metros, que se vai depois reduzindo à medida que a arte vai sendo recolhida para bordo após cada lance.
Acrescentando que, cada pano de rede leva na parte superior diversas de boias de flutuação e na parte inferior aproximadamente 30 quilos de chumbos, o que dá para toda a arte (rede completa) um peso de cerca de 8 toneladas. A recolha das redes para bordo das traineiras é presentemente feita por meios mecânicos, mas, quando mestre Joaquim Carneiro se iniciou na faina da pesca era manual, acompanhada ao som de cantares, que marcavam o ritmo e estimulavam o trabalho, que, segundo assinalava mestre Joaquim, o etnomusicólogo Michel Giacometti e o maestro e compositor Fernando Lopes Graça recolheram em devido tempo dando-lhe novas interpretações no respeito pela tradição popular.
E era com muito entusiasmo que o autodidata Joaquim Carneiro dizia de cor quadras e versos de «Este Livro que vos deixo» do poeta António Aleixo, bem como passagens várias dos «Esteiros» e da «Engrenagem» de Soeiro Pereira Gomes, dos «Capitães da areia» e de «Os Subterrâneos da liberdade» de Jorge Amado, de «A Selva» de Ferreira de Castro, de «A velhice do padre eterno» de Guerra Junqueiro, de «O Leopardo» de Giuseppe Lampedusa e de outras obras dos seus autores preferidos em que se contam Manuel da Fonseca, Bento de Jesus Caraça e Alves Redol.
Joaquim Carneiro tinha outra faceta: a militância política no Partido Comunista Português (PCP), em que se filiou em Maio de 1974, integrando a sua Comissão Concelhia de Portimão e sendo o representante designado pelo PCP na Comissão de Toponímia de Portimão, que é o órgão consultivo da Câmara Municipal, criado em 2002, com a finalidade essencial de dar denominação a novos arruamentos ou proceder à alteração dos já existentes, através da elaboração de pareceres e sugestões dos elementos que a constituem.
Não se olvidou dos mais humildes, contribuindo para que figuras populares como o nadador-salvador «Tio Teófilo» ou o apanhador e vendedor de berbigão e conquilha «Raúl de Alvor», entre outros, tenham hoje os seus nomes em ruas, praças e becos.
Muitos anos antes de Abril de 1974 já mestre Joaquim Carneiro lutava na resistência antifascista, recordando os tempos difíceis em que, em ditadura, como uma censura e polícia política ferozes na repressão dos opositores ao regime do partido único (União Nacional), participava nas atividades do Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE).
Empenhou-se ativamente na campanha presidencial de Norton de Matos de 1948/49, bem como no decurso da campanha presidencial de 1958, na tentativa de eleição de Arlindo Vicente (candidato do MDP/CDE) e, após este ter desistido da corrida a Belém a favor de Humberto Delgado, na da eleição para PR do General sem medo, bem como durante as eleições legislativas de 1969, ao lado dos camaradas Emídio Serrano, Luís Catarino e Esteves (respetivamente, advogados e médico portimonenses).
Conquistada a liberdade com a revolução dos cravos, Joaquim Carneiro participou em muitas iniciativas. Trabalhou voluntariamente na reforma agrária numa UCP (Unidade Coletiva de Produção) da região de Grândola e fundou em Portimão a Associação de Amizade Portugal-URSS, no âmbito da qual, em 1977, chefiou uma delegação de trinta pessoas em viagem à União Soviética. Lembrando-se, com nostalgia, do tempo passado em Moscovo, São Petersburgo e Volgogrado, sendo que relativamente as estas duas últimas cidades persistia em continuar a falar em Leninegrado e Estalinegrado, por preferir as suas antigas designações. Foi várias vezes, pelas listas da APU (Aliança Povo Unido) e da CDU (Coligação Democrática Unitária), candidato nas eleições autárquicas e foi dirigente sindical, sendo sempre firme nas suas convicções.
Artigo de Sérgio Gama com fotos de Apoema Calheiros

