Na viragem para o século XXI, as tatuagens começaram a ganhar um número cada vez maior de adeptos e a arte de tatuar descobriu métodos e tintas que permitem criar verdadeiras obras de arte no corpo humano, sem o sofrimento que estava associado a tal prática. O «barlavento» conversou com Pedro Alfarrobeira, um portimonense de 40 anos que, há ano e meio, trocou a profissão de barman pela de tatuador e já ganhou reputação no meio. Também esta profissão sofre os efeitos da crise, mas confidenciou-nos que é a fidelização do cliente, através da qualidade e da honestidade, o modo de enfrentá-la e vencê-la.
barlavento -Como aconteceu esta viragem?
Pedro Alfarrobeira – Por amor à arte, um gosto que tenho desde os 16 anos, porque venho de uma formação em aerografia, pintura e desenho. Surgiu a oportunidade de entrar no mundo da tatuagem, quando conheci o Nuno Feio, que foi e ainda é o meu tatuador. Deu-me um grande empurrão e, indiretamente, é a pessoa responsável pela conquista deste sonho.
Falou-me da aerografia como a sua base. As técnicas são semelhantes?
Sim. Tudo parte de uma pintura. Só muda a tela. Uma é feita por jato de tinta, e a outra por agulha impulsada com tinta. É a rotação que faz com que a tinta entre nas primeiras quatro ou cinco camadas da pele da pessoa. Não mais que isso, para não entrar na derme e criar problemas. O grau de pressão e de rotação depende do tatuador e da máquina usada, mas respeitando o tipo de pele. Se for além daquelas camadas, pode provocar inchaços e hematomas.
Há tatuagens, atualmente, que são verdadeiras obras de arte. Os tatuadores fazem os seus próprios desenhos ou copiam-nos de outros?
Já se comercializam tatuagens prontas a usar, em livros e catálogos. São usadas ideias de grandes tatuadores, com muita arte, mas cabe a cada tatuador saber dar a volta e não se limitar a fazer «copy and paste». Retira-se da internet, por exemplo, pedindo autorização ao autor, mas temos de saber dar-lhe a volta, alterar a imagem para assentar bem no cliente. Mas também usamos imagens nossas, feitas a partir do zero. O cliente dá-nos uma ideia daquilo que gosta e nós partimos daí para idealizar o trabalho final.
Quer dizer que as tatuagens começam a ser personalizadas?
Muito. Algumas pessoas trazem fotos ou desenhos e criamos a partir daí. Fazemos o desenho e passamos a químico, o qual é aplicado no cliente com um gel próprio. Mas, com canetas próprias, podemos fazer alterações no momento da tatuagem, de modo a satisfazer o cliente.
Embora haja cada vez mais pessoas tatuadas, ouvimos algumas queixas de dificuldades em conseguir empregos, porque há empregadores que não as toleram. O que pensa desta situação?
Existe o que podemos considerar injustiça social, discriminando em função da tatuagem, porque a pessoa não deixa de ser um bom profissional, ou de executar as suas funções igual ou melhor do que uma outra que não tenha tatuagens. Mas há excessos com os quais eu, tal como outros tatuadores, não concordamos. Por exemplo, tatuar a cara ou as mãos. Não é ser contra. Cada um faz o que quer com o seu corpo. Mas deve existir respeito em relação ao visual que apresentamos aos outros. Sugerimos que não o façam. Mas, se a pessoa vier com essa ideia já definida, ou fazemos, ou perdemos o cliente. Muito embora os alertemos sempre para os problemas que essas tatuagens lhes podem trazer no futuro, sobretudo, considerando o tipo de trabalho que fazem. A nível de braços, as mangas compridas resolvem o problema.
Há algum tipo de maquilhagem que possa disfarçar as tatuagens?
Hoje há tintas de excelente qualidade e com cores maravilhosas, mas não há maquilhagem que as disfarce. Se for a nível de pescoço, só a poderá esconder com camisolas gola alta ou com um lenço. Nas mãos, só com luvas; na cara, não tem hipótese. A nível de forças da autoridade com tatuagens nos braços, quando usam farda de manga curta, são aconselhados a usar uma manga elástica da cor da pele. Embora, além-fronteiras, não exista esse problema, o mesmo não acontece em Portugal. A tatuagem é arte, não é crime.
No passado, o processo de tatuar causava dor, fazia ferida, causava crosta. E agora, com todo o material sofisticado que existe?
Agora, quase nunca acontece. As tintas são todas orgânicas e não têm as percentagens de ferro e chumbo que faziam reação com o organismo. Depois, os cremes e os desinfetantes com que se trabalha atualmente ajudam imenso. A nível de agulhas e da própria pressão exercida na pele, há uma vasta gama, de todos os tipos e de boa qualidade. Há ainda as de qualidade superior, que são aquelas com que trabalho, de uma marca considerada a melhor a nível mundial.
Contudo, o processo de tatuar continua irreversível, ou já podemos apagar?
Já é possível retirar, através de laser. Mas é extremamente caro e muito doloroso. Ou então, por cirurgia plástica. Há que ser humilde e honesto naquilo que se faz. É por isso que alerto as pessoas e lhes pergunto se é mesmo aquilo que desejam. Por exemplo, o nome do(a) namorado(a) ou do esposo(a). Namorados e esposos mudam e a tatuagem fica! Aconselhamos as pessoas a fazer tatuagens que tenham um significado especial e duradoiro, que lhes transmitam qualquer coisa. Que não façam um golfinho, apenas porque está na moda. Mas a decisão final é sempre do cliente.
Mas não se consegue transformar as tatuagens?
Conseguimos, através do cover-up, que consiste em criar uma nova tatuagem sobre aquela. Foi uma das especialidades que abracei, embora a minha experiência nesta arte seja recente. Comecei pela parte mais difícil, que é tornar algo que está muito mau, ou que não quer, noutra peça.