Iniciativa «Entre Pratos e Vinhos» mostra como o vinho do Algarve tem crescido em produtores e qualidade ao mesmo tempo que estimula o turismo em época baixa.
A terceira edição de «Entre Pratos e Vinhos», iniciativa promovida pela Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), decorre até 30 de novembro para dinamizar a restauração e a hotelaria durante a época baixa.
Este ano participam mais de duas dezenas de estabelecimentos, entre restaurantes e alojamentos, que apresentam menus exclusivos criados para destacar rótulos certificados da região. Segundo Sara Silva, presidente da CVA, a edição de 2025 confirma o interesse nesta iniciativa pensada para apoiar o sector.
«Cada vez mais restaurantes reconhecem esta potencialidade, até porque não tem custos e promove os seus espaços numa época com menos turismo. Da parte dos produtores de vinhos, há igualmente interesse em potenciar as vendas nesta altura», referiu.
A responsável falava aos jornalistas durante uma apresentação que teve lugar na quarta-feira, dia 19 de novembro, na Taberna by Lucia Ribeiro, em Almancil, um dos estabelecimentos aderentes.
Aqui, a proposta é um menu especial de camarão à casa servido com texturas de abóbora e harmonizado com vinhos da Quinta da Pedregosa, adega com sede em Barão de São João, Lagos.
Sara Silva destacou ainda o alargamento do conceito aos alojamentos, que integra experiências de estadia com a componente vínica.
«Queremos reforçar o triângulo que dá sentido a esta iniciativa: comer, beber e ficar no Algarve», referiu.
Questionada sobre a realidade do sector, a presidente da CVA revelou que em 2025 houve um decréscimo nacional nas candidaturas a áreas de nova vinha.
«Todos os produtores que queiram investir têm de candidatar-se a direitos de plantação, um processo ao nível nacional que ocorre no início de cada ano. Isso permite-nos ter uma percepção do crescimento», explicou.
A região algarvia também seguiu a tendência de redução mas, ainda assim, todos os direitos foram concedidos — cerca de 70 hectares de novas vinhas aprovados, que serão concretizados nos próximos anos.
Segundo a CVA, o Algarve conta hoje com cerca de 60 produtores. O crescimento tem sido gradual, com a entrada de quatro a cinco novos produtores por ano desde 2017. «Este número inclui grandes, médios e pequenos. À nossa escala, falamos de áreas médias de 4 hectares de vinha, embora existam maiores», detalhou.
Estão também a surgir «novos investidores em zonas que não eram tradicionais, como Vilamoura, Aljezur e até Vila do Bispo. São projetos pequenos, de 3 a 4 hectares e, de vez em quando, um produtor maior de outra região decide instalar-se no Algarve».
Em termos de produção, em 2024 a região atingiu o recorde dos 2 milhões de litros, embora o estimado para 2025 fique cerca de 15% abaixo deste valor, devido a fatores ambientais.
«Dependemos da natureza. O vinho não é um produto estandardizado. Há anos mais produtivos e outros menos», comparou.
Por outro lado, o foco está «na qualidade. Podemos ter um potencial de produção maior, mas o posicionamento da região é nos vinhos premium. Isso implica seleção na parte produtiva e na escolha das vinhas, o que naturalmente reduz a produtividade», explicou.
«O importante é que todos os nossos produtores estão ativos — têm vinhas a produzir e colocam vinho no mercado. Há 15 anos a realidade era diferente. Hoje os números refletem a dinâmica efetiva do sector», concluiu Sara Silva.
Preconceito e estigma (quase) ultrapassados
Pedro Valadas Monteiro, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve e ex-responsável pela Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Algarve, recorda que o atual patamar dos vinhos do Algarve resulta de um longo caminho percorrido para superar décadas de desvalorização.
«Vejo esta área com bastante otimismo. Há 20 anos ninguém imaginaria o salto qualitativo que o Algarve iria dar. Passámos de uma imagem desprestigiada, associada a vinhos de má qualidade, para uma região que, apesar de ser a segunda mais pequena do país, mostra grande sucesso. Isto deve-se ao trabalho dos produtores/engarrafadores, ao profissionalismo, à inovação, ao progresso da enologia e a um casamento cada vez mais sólido com os pontos fortes da região, em especial o turismo», referiu aos jornalistas.
Ainda assim, o responsável reconhece algumas dificuldades de afirmação comercial. «Temos de considerar o fator volume. Estamos ao lado de uma região com enorme produção, o Alentejo, e há outras com volumes elevados e muitos anos de avanço em marketing e profissionalização. Apesar de pequena, a região tem vindo a libertar-se da má imagem antiga. A quantidade limitada continua a ser um obstáculo quando queremos chegar a certos canais, como a exportação, que exige escala. No turismo, há modelos de negócio com centrais de compras noutras zonas do país, que trabalham grandes volumes e produtos indiferenciados», o que não favorece este produto regional.
Hoje cerca de 70% do vinho algarvio é escoado dentro da região, o que mostra que «existe procura».
Para Pedro Valadas Monteiro, «o Algarve já não enfrenta o estigma antigo. A região é hoje reconhecida como produtora de bons vinhos. E, mesmo num momento em que o mercado passa por dificuldades, o Algarve sente os efeitos de forma mais branda. Continuamos a ser a região onde o quilo de uva é melhor pago ao produtor e com a maior cotação média por garrafa».
Casta Negra Mole: um caso de queda e ascensão
Pedro Valadas Monteiro destacou ainda a evolução da Negra Mole, casta autóctone do Algarve que durante décadas foi marginalizada e hoje volta a ter expressão.
«Sempre foi uma casta típica do Algarve, associada ao vinho novo da região. Mas, entre as décadas de 1960 e 1970, com outras regiões a produzir vinhos de melhor qualidade, o consumidor tornou-se mais exigente e a Negra Mole quase desapareceu das vinhas algarvias. Era associada a vinhos menos apreciados e apresentava dificuldades de conservação», recordou.
A Negra Mole «ficou praticamente confinada ao autoconsumo durante 30 a 40 anos. O regresso começou há cerca de 10 anos, de forma gradual. Hoje é motivo de satisfação ver consumidores — conhecedores de vinho — procurarem rótulos de Negra Mole. É um caso de queda e ascensão, com muito trabalho de melhoria agronómica e enológica».
Monteiro atribui o mérito desta recuperação aos produtores. «Total. Não basta ter a casta. É preciso saber trabalhar as suas qualidades, desde o campo até à adega: condução da vinha, tratamento, seleção e técnicas de vinificação. Os produtores têm feito esse trabalho e merecem reconhecimento».
Reconhecimento merece também o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), que através da ex-DRAP Algarve «mantém uma coleção ampelográfica de castas para vinho e para uva de mesa. Foi lá que preservámos a Negra Mole quando deixou de interessar ao mercado. Se não estivesse conservada, perder-se-ia. Essa manutenção permitiu fornecer material vegetal que hoje é usado com sucesso pelos produtores algarvios».
«É um caso de queda e ascensão. É única, adapta-se à tendência atual de procura por vinhos mais leves e com menos álcool».
O responsável vê também futuro. «O sector do vinho evolui conforme as preferências do consumidor e a forma como os enólogos combinam castas. No Algarve, há também a questão das alterações climáticas, que obriga a procurar produções mais sustentáveis e castas menos exigentes em água. Vejo potencial em combinações que permitam criar blends apelativos mas económicos na produção, sobretudo no uso da água, cada vez mais escassa na região», concluiu.
Lagoa assume liderança regional
O concelho de Lagoa, que há décadas mantém uma forte ligação à vitivinicultura, vai continuar a reforçar o papel de liderança regional do sector. Para o presidente da Câmara Municipal, Luís Encarnação, o vinho é «um produto identitário» e fundamental para o combate à sazonalidade.
«O turista motivado pelo vinho e pela gastronomia visita-nos em qualquer altura do ano. Isso ajuda-nos a mitigar a época baixa», afirmou.
O edil revelou ainda um investimento privado recente. «Um empresário dinamarquês escolheu Lagoa para viver e produzir vinho. Adquiriu uma quinta, já iniciou a produção e prepara um espaço de alojamento e degustação. Vai harmonizar gastronomia algarvia com vinhos produzidos no local, com destaque para a Negra Mole, a nossa rainha».
Para Luís Encarnação, o sucesso deste sector deve-se ao esforço das entidades públicas e dos privados. «Ao contrário de outras regiões, onde há dificuldade em escoar vinho, no Algarve não se acumulam stocks. Os produtores conseguem vender muitas vezes à porta da adega. Isto representa uma grande vantagem e um incentivo para que os produtores continuem a crescer e para que novos projetos surjam. Ainda temos muita área com potencial para plantar vinha no concelho e na região», rematou.
