A tão aguardada nova variante a Olhão foi hoje inaugurada pelo ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz.
A obra deverá reduzir o congestionamento frequente da Estrada Nacional (EN) 125, ao desviar para fora da cidade o tráfego que atualmente atravessa o núcleo urbano de Olhão.
Para Miguel Cruz, presidente do conselho de administração da Infraestruturas de Portugal (IP), que abriu a cerimónia, este é «um projeto que, pelo menos para mim, tem um significado especial. Desde o início, poucas pessoas acreditaram que pudesse ser executado dentro do prazo e dos valores previstos. No entanto, aqui estamos hoje para assinalar a sua conclusão».
Além disso, «era também um projeto com um elevado grau de dificuldade, porque fazia parte da concessão Algarve Litoral, associada à Via do Infante. Retirá-lo desse contexto para permitir o financiamento no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) obrigou a uma negociação intensa e delicada, da qual também nos orgulhamos», sublinhou.
Miguel Cruz lembrou também que, durante os 540 dias de execução, «tivemos todas as dificuldades possíveis: questões ambientais, intempéries e vários outros problemas. Não terminámos exatamente dentro do prazo inicialmente previsto, mas terminámos dentro do prazo definido pelo PRR. Só o conseguimos graças à dedicação das equipas da IP e à colaboração extraordinária do empreiteiro (Gabriel Couto), o que merece naturalmente ser assinalado».

Miguel Pinto Luz: «dia histórico para Olhão»
No uso da palavra, o ministro reconheceu que durante este processo, «houve uma circunstância muito particular: trata-se de um distrito que está há anos num processo de litigância muito complexo, o que coloca pressão sobre a administração central e impede-nos de fazer, com liberdade, o desenvolvimento que precisamos de concretizar neste território».
O governante lembrou que a Resolução n.º 169/2025 «lança obras como a A26 para Beja, o IP2 em perfil de autoestrada, o IP3 em perfil de autoestrada, a A13, o IC26, o IC35 e muitas outras. Mas o Algarve ficou de fora. E não pode ficar de fora. É um distrito absolutamente fundamental para o desígnio económico nacional».
Luz elogiou o presidente da IP pelo «trabalho árduo desenvolvido para retirar esta obra do processo litigioso existente».
No final, dirigiu-se para Faro, onde reuniu com o presidente da Câmara Municipal, António Miguel Pina, ex-autarca de Olhão e dirigente da Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), no sentido de «continuar todos os esforços negociais com as entidades necessárias para libertar o Algarve deste espartilho que hoje impede o seu desenvolvimento».
«Uma das soluções para não deixar à espera uma região inteira é continuarmos a ter estas exceções para os problemas mais críticos», defendeu.
«No caso de Faro, falo, por exemplo, da ligação ao aeroporto, que é cada vez mais importante e mais central, mas cujo desenvolvimento continua condicionado. Mas podia estar a falar de muitas outras obras [Loulé, São Brás de Alportel e Albufeira] que são essenciais e é isso que o Governo já está a fazer, no sentido de libertar algumas das obras estruturantes do Algarve para que possam avançar».
Sobre o projeto do Metrobus, aqui referido como Bus Rapid Transit (BRT), Luz elogiou o caso do Mondego, que «é hoje um sucesso, com milhões de passageiros desde janeiro, num projeto onde a IP teve um papel central. Estamos também a lançar bases para projetos semelhantes em Leiria, Aveiro e no quadrilátero Braga-Guimarães. Esta visão metropolitana de múltiplas áreas urbanas é essencial para garantir coesão territorial e justiça territorial. E o Algarve não é exceção».
«Este tipo de projetos não vive divorciado dos municípios nem das CCDR. O projeto do Metrobus do Mondego só foi um sucesso porque existiu intervenção dos autarcas, dos territórios e coerência institucional. Aqui não será diferente».
E rematou: «o Governo está disponível para encontrar soluções eficazes que permitam ao Algarve avançar rapidamente para novos modelos de mobilidade».
«Hoje é um dia histórico para todos nós. Esta variante é uma exceção que eu gostaria que deixasse de ser exceção. Gostaria que pudéssemos continuar a desenvolver obras absolutamente essenciais para o Algarve e deixar de ter esta espada sobre a região que impede o seu desenvolvimento. Há muito investimento a fazer na ferrovia, que estamos a concretizar, mas também na rodovia. E este processo, que dura há mais de uma década, continua a criar enormes constrangimentos. Estamos cá para encontrar soluções e não para criar problemas», concluiu.
Futuro da mobilidade começa hoje e Metrobus é o próximo passo
Para Ricardo Calé, que acompanhou o processo enquanto vice-presidente, o dia de hoje é «uma data marcante para o futuro do concelho de Olhão». Na prática, os automobilistas que fazem o eixo Vila Real de Santo António – Faro, Tavira – Faro ou Loulé e antes tinham de passar por Olhão, deixam de ter de atravessar a cidade.
«O futuro da mobilidade no concelho tem hoje um dia que marcará a diferença entre o antes e o depois. A Avenida D. João VI, atualmente atravessada pela EN125, a partir do momento em que esta variante abrir ao trânsito, passará a ser uma verdadeira avenida de fruição pública, ao serviço das populações, das pessoas que procuram serviços essenciais, acesso às escolas e a normal utilização da cidade».
O autarca reconheceu que o projeto passou por vários desafios, sendo o principal aceitar uma faixa em cada sentido.
«Tivemos de tomar uma decisão política. Ou garantíamos que esta variante integrasse o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) — e foi a única obra da rede viária integrada no PRR no Algarve — conseguindo assim concluir a obra até ao final de 2026, ou defendíamos que esta variante tivesse duas vias em cada sentido e ficaríamos dependentes de que algum governo viesse a integrar esta obra num Orçamento do Estado nos próximos 10 ou 20 anos».
E «significaria adiar aquela que é uma transformação fundamental para o desenvolvimento do concelho de Olhão».
Calé lembrou que o Metrobus será «a solução que irá unir o Algarve Central, nesta grande área metropolitana que junta cerca de 150 mil pessoas entre Olhão, Faro e Loulé. Permitirá dar um salto naquela que pretendemos que seja a competitividade regional, para conseguirmos competir com outras regiões europeias e, assim, tornar o Algarve mais resiliente e diversificar a base económica, algo que é fundamental para construirmos um futuro conjunto».
Queixas dos moradores vão ter resposta
Alguns moradores que vivem junto ao novo traçado aproveitaram a cerimónia para reivindicar alguns problemas que querem ver resolvidos. Ricardo Calé, ouvido pelos jornalistas, respondeu que serão ouvidos.
«Temos falado e estado em articulação constante com os moradores e estamos no terreno para ouvir os anseios da população. Ao longo desta obra têm sido várias as situações corrigidas e alteradas. Há três ou quatro que temos identificadas, fizemos o levantamento e já apresentámos formalmente à IP essa necessidade. São ajustes simples para uma obra desta envergadura, mas de grande importância para as pessoas, no seu dia a dia, ao nível da entrada e saída das suas casas, da proximidade dos abrigos de autocarro e dos contentores de resíduos», afirmou.
Calé recordou que a autarquia não é dona da obra, mas revelou já ter um dossier preparado para entregar à IP. «Estamos agora a falar de três ou quatro pontos no final da obra, porque ao longo da empreitada foram mais de 50 ou 100 situações que conseguimos resolver».
O presidente acredita que a obra vai aliviar o trânsito na cidade. «O que acontece é que a EN125 atravessava Olhão pela Avenida D. João VI, que é uma verdadeira avenida urbana, rodeada de escolas, serviços e comércio. Temos ali crianças, grávidas e pessoas mais idosas, com dificuldades de mobilidade, e não fazia qualquer sentido essas pessoas terem de articular diariamente a sua vida com uma estrada nacional».
Objetivos PRR cumpridos
A Variante de Olhão representa um investimento de 14,4 milhões de euros da Infraestruturas de Portugal (IP), executado pela construtora Gabriel Couto, com um prazo de obra de 540 dias, entre a data da consignação, a 30 de setembro de 2024, e a data de conclusão dos trabalhos, a 30 de abril de 2026.
Com cerca de seis quilómetros de extensão, a nova variante liga a EN125 à EN398 e inclui seis rotundas, passagens inferiores, sistemas de sinalização e telemática, painéis de mensagem variável e câmaras para monitorização e controlo do tráfego. A nova via terá uma plataforma com nove metros de largura, faixa de rodagem de sete metros, com duas vias de circulação, e bermas de um metro.
O traçado desenvolve-se em redor da cidade de Olhão, nas proximidades de Torrejão, Bela Mandil, João de Ourém, Arrochela, Quinta do Calhau, Quinta do Major, Ponte de Quelfes e Piares.
Os objetivos deste projeto, tal como da generalidade dos projetos da componente 7 do PRR, passam pelo reforço da segurança rodoviária, melhoria da qualidade de vida da população, redução de congestionamentos, menores emissões, redução do ruído e da poluição atmosférica no centro urbano da cidade, reforço da coesão económica e social no território nacional, melhor fluidez para transportes públicos, bicicletas e peões, diminuição do tempo de viagem para quem atravessa a cidade e melhor separação entre trânsito local e trânsito de passagem.









