É brasileiro por nascimento, mas passou 25 dos seus 48 anos de vida no Algarve. Toca cavaquinho, guitarra elétrica, violão acústico e baixo. Nas produções, também grava piano e bateria. Excelente conversador, alegre, é também direto e frontal, sem receio de colocar o dedo nas feridas. Podem gostar ou não do seu feitio, mas todos o respeitam.
«Ser músico é de família. Pai acordeonista, que tocou com Roberto Carlos e Elis Regina, parentes músicos, era inevitável seguir a carreira musical. Nem foi escolha», conta.
Tuniko começou a tocar aos seis anos e tem carteira profissional desde os 11, tocando baixo num conjunto de baile e guitarra numa outra formação. Aos 22 anos, juntou-se a outro amigo músico e apanharam boleia num navio para darem um concerto na Bélgica. Chegaram à Europa após 24 dias no mar, e não havia concerto nenhum à sua espera no destino. Sem dinheiro, decidiram vir para Portugal. «Estivemos seis horas no aeroporto de Lisboa, porque todos os táxis eram Mercedes e ficámos esperando que aparecesse um carro mais acessível».
Depois, trabalhou mês e meio a carregar peixe, no cais da Ribeira. Escreveu a Jair Baptista, um músico brasileiro residente no Algarve, que lhe arranjou trabalho numa festa de Réveillon, embora não tivesse qualquer tecnologia moderna para suportar a sua atuação ao vivo. «Era só eu e a guitarra, mas correu bem e fiquei pelo Algarve. Depois, avariou-se um aparelho que trouxera do Brasil e só a Ruvina & Moura é que o consertava. Conheci o Vasco Moura, comecei a dar aulas no seu estabelecimento e nunca mais saí daqui. Depois de ano e meio, comecei a tocar no grupo dele».
Tuniko Goulart é um músico freelance, faz concertos e participa em várias produções musicais de diferentes estilos. Assina a produção de discos, executada no seu estúdio (normalmente, os cantores só trazem a letra, ou uma ideia), alinhando nomes como Simon Blue, Dino de Santiago, duo musical Gileno Santana, Edu Miranda Trio, Filipa Pais, Real Companhia, Isabel Campelo e muitos outros. Durante quatro anos acompanhou António Chainho. Tocaram em Xangai, na comitiva do Presidente Jorge Sampaio. Com Gileno, irá fazer uma digressão pela Coreia do Sul, em abril.
Goulart gosta de repetir a frase de um amigo: «na música, a gente não escolhe, é escolhido. Como não inventei acordes, melodias, instrumentos, teorias, assumo-me como uma ferramenta escolhida pela música para a representar».
Quando o «barlavento» mencionou que muitos músicos se queixam da falta de trabalho, Tuniko é contundente. «Os músicos têm alguma razão, porque estão num país que tem vergonha da própria cultura e que não está interessado na qualidade. Quem compra tem uma pergunta: qual o preço? E as Câmaras chegam a pagar ano e meio depois. É triste o que vou dizer, mas já pensei em deixar Portugal. Agora, estou trabalhando em França e estou adorando. Há respeito, as pessoas sabem quanto tu vales. Aqui, toda a gente é músico. Mas, infelizmente, é o que se vê. Há três anos, tive um problema de saúde, liguei a 38 músicos, alguns deles amigos meus, para me substituírem e nenhum aceitou. E não era para tocar nada complicado; era música do José Afonso. Então, há um problema, porque não sou eu que tenho um nível alto. Não estudam e, depois, queixam-se. Isto não é questão de talento, é preciso estudar muito».
Tuniko considera que a melhor música do mundo é aquela que o executante se sente bem a tocar. «Não quero que me impressionem, mas que me emocionem, o que cada dia é mais raro. A emoção não tem nacionalidade, nem estilo. Se não me arrepia, não me faz chorar nem ficar feliz, então não me diz nada. Chego ao Alentejo, vejo aqueles coros que, geralmente, só têm dois ou três acordes, mas é lindo demais». Sobre o futuro, tem três discos a solo para publicar, mas não o vai fazer em Portugal. «São muitos anos a investir; se não posso mudar o país, mudo-me a mim», conclui.