Mais de 200 bidões de combustível associados ao tráfico de droga foram recolhidos nas praias do Algarve, na última semana, pela ONGD Brigada do Mar.
Não foram apenas fardos de haxixe a dar à costa nas praias do Algarve, ao longo da última semana. Por coincidência, uma equipa de limpeza da Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) Brigada do Mar, estava a varrer o litoral algarvio, da Meia Praia, em Lagos, até Monte Gordo, em Vila Real de Santo António (VRSA), e deparou-se com uma série de vestígios poluentes.
Ao longo da costa, os ativistas ambientais recolheram mais de 200 bidões plásticos para transporte de combustível, do tipo utilizado nas embarcações de alta velocidade associadas ao tráfico de droga, durante uma ação de limpeza de praias que decorreu entre os dias 20 e 24 de janeiro.
Simão Acciaioli, porta-voz da Brigada do Mar, soma 16 anos de experiência neste tipo de ações e contabiliza mais de 1029 toneladas de lixo marinho retirado do litoral de norte a sul do país. Esta não é a primeira vez com que se depara com uma grande quantidade destes objetos abandonados. Aliás, não tem dúvidas acerca da sua origem ilícita.
«Para nós não é novidade. Já encontrámos estes bidões em muitas outras zonas. Não têm nada a ver com a pesca. Os jerricãs usados nas pescas são muito fáceis de identificar. Muitas vezes, os pescadores passam-lhes um cabo à volta. Inclusive põem esferovite para servirem de boias. Estes não. Estão perfeitamente limpos. São todos iguais, brancos ou semi-transparentes e com tampas vermelhas», descreveu ao barlavento.

Ainda assim, Simão Acciaioli não esconde admiração quer pela abundância, quer pela dispersão. «Já sabíamos, através das notícias dos últimos dias, que tem havido muita atividade de tráfico. Mas, de alguma maneira, ficámos surpreendidos por encontrar um padrão».
«Não estava tudo concentrado apenas num sítio. Ora estavam 10 bidões aqui, ora mais 20 ali. Por vezes, alguém já os tinha juntado», na esperança de que fossem recolhidos e encaminhados para o lixo.
«Não podemos achar normal algo que não pode ser normal. Isto é assustador e alarmante. Chegámos a encontrar vários cheios pela metade com gasolina».
Seja qual for o conteúdo perigoso que possa verter para a areia das praias algarvias, a verdade é que este tipo de reservatórios «são peças muito volumosas». Quando arrastadas pelo vento, «destroem a vegetação» e as zonas de nidificação nas dunas. E «quando estamos a falar em mais de 200, se calhar, acho que podemos ficar preocupados».
Com o auxílio de uma moto 4(todo o terreno) equipada com atrelado, a progressão da limpeza dos areais, foi rápida e eficiente. A equipa, que junta dois a três elementos, retirou a cada dia, em média, uma tonelada e meia de lixo e detritos, com especial foco nos de maiores dimensões.

«A nossa escala para a recolha começa a partir de uma garrafa de plástico de litro e meio para cima. A preocupação é recolher objetos de grande porte, porque com o tempo vão deteriorar-se, partir e transformar-se em microplásticos e isso é algo que não conseguimos limpar», compara.
De acordo com o porta-voz da Brigada do Mar, a zona com maior concentração de lixo encontrada durante a expedição fica entre a Quinta do Lago, no concelho de Loulé, e a Barrinha, no concelho de Faro. Aliás, a equipa quer regressar, em março, para terminar a intervenção, que por falta de tempo, ficou incompleta.
«É uma zona bastante crítica, integrada no Parque Natural da Ria Formosa, onde há vários ecossistemas sensíveis». Por mero acaso, Simão Acciaioli e os voluntários, cruzaram-se com a embarcação suspeita de narcotráfico que deu à costa na segunda-feira, dia 20 de janeiro, no lado nascente da Praia de Faro.
«Quando chegámos, já lá estava a Polícia Marítima. Pediram-nos para, se encontrássemos alguma coisa invulgar, os contactássemos de imediato. A cerca de 600 metros, vimos um motor [marítimo] fora de borda enterrado na areia. Estava na zona de rebentação», oculto pela maré, e que por pouco teria passado despercebido, entre a ondulação.
Com a ajuda das forças de segurança ali presentes e do guincho instalado na moto 4, o achado foi removido. «O motor era exatamente igual aos outros quatro que equipavam a embarcação arrojada, de 300 cavalos de potência. A julgar pelo aspeto devia ser novo, pois não tinha pontos de ferrugem. E se não pertencia à lancha que ali estava, então, de onde é que veio? Não sei dizer».
O que Simão Acciaioli sabe dizer é que «sentimos que isto é uma luta diária para as autoridades» e, na verdade, também para o ambiente.
Ilhas-barreira da Ria Formosa na mira da Brigada do Mar
A Brigada do Mar nasceu em 2008, em Melides, Grândola. «Em 2009 começámos a fazer as primeiras limpezas. Em 2012 formalizámos a associação. A nossa missão é a descontaminação, porque quando se recolhe duas toneladas de lixo ou mais por dia, essa operação já não pode ser considerada uma limpeza», compara.
Agora, «temos o desejo de arranjar forma de conseguir levar o nosso equipamento para as ilhas-barreira da Ria Formosa, a começar pela Deserta», em Faro, «onde estimamos encontrar três a quatro toneladas de detritos. Não é possível retirar isso com força braçal», diz Simão Acciaioli.
O maior desafio é arranjar um batelão que possa transportar os meios e o lixo. «Estamos a ver com os municípios, com as juntas de freguesia, e também com as empresas que se quiserem juntar a nós, para perceber como é que podemos realizar este projeto».
A última ação no Algarve, do ponto de vista financeiro, foi toda suportada pela Brigada do Mar.
Simão Acciaioli explica: «temos várias ações ao longo do ano para angariar fundos. Temos donativos que nos permitem agir em todo o país, mesmo que não tenhamos qualquer apoio local ou nacional. E fazemos isso com regularidade».
Numa «zona fortemente contaminada, como Faro, estivemos dois dias a trabalhar, o que significa 150 a 180 euros só em combustíveis para a moto 4», emprestada pela Yamaha Portugal.
«Se houver ajuda nesse sentido, ótimo. Se não houver, conseguimos criar através das nossas ações, autonomia, de forma a não deixarmos de fazer aquilo que acreditamos».
«Gostávamos muito que houvesse uma união de vontades, para realizar ações de descontaminação das ilhas-barreira».
Limpar lixo marinho não é missão inglória
Limpar o lixo no litoral, de forma repetida e continuada, na perspectiva da Brigada do Mar, não é uma missão inglória, nem um trabalho frustrante, apesar de parecer uma tarefa infinita.
Pelo contrário, Simão Acciaioli destaca a importância de manter uma descontaminação regular nas praias, mesmo face à recorrência do problema.
«Muita gente tem essa ideia na ponta da língua. Dizem que não vale a pena limpar hoje se amanhã estará igual. Mas isso não é bem assim. Vamos acreditar que a longevidade do plástico dura 400 anos. Se hoje não recolhermos estes 211 bidões das praias, se calhar, para o ano, vamos ter o dobro» para limpar.

E dá um exemplo. «Há 16 anos começámos a limpar 65 quilómetros de costa, entre Troia e Sines. Na altura, não conseguíamos avançar mais do que 10 quilómetros numa semana. Hoje, porque descontaminamos essa zona com frequência, demoramos quatro dias a limpar toda essa área. Ou seja, não deixamos acumular» mais do que a quantidade expectável entre as intervenções agendadas.
«O Algarve faz parte do nosso cronograma. Não achamos, de todo, que seja uma zona crítica, mas é uma zona onde aprendemos sempre algo», conclui.


