A exposição «Rumo ao Sul» é o primeiro ato de um protocolo de colaboração entre a Sul Sol e Sal e a Galeria Sá da Costa, em Lisboa.
Com esta iniciativa a Sul Sol e Sal pretende dar um contributo para o alargamento do circuito expositivo em que os artistas da região se apresentam colocando o seu trabalho sob o olhar de outros públicos e integrando-os num ambiente cultural mais amplo, diverso e maduro.
A exposição reunirá obras de Bertilio Martins, Angelo Gonçalves, Bruno Grilo, Luís Marques e de Manuel Baptista falecido recentemente.
O título da exposição diz menos das obras que a compõem do que da intenção que a motiva. Antes de mais pressupõe uma ação, um movimento. E sobre ele – o título – importa dizer que comporta, paradoxalmente, dois sentidos opostos.
Ao público propõe uma geografia em coincidência com o ponto cardeal, uma revisitação visual do Sul e de toda a sua semântica meridional, solar, transparente, marítima. Uma viagem ao lugar mítico da abundância e da bonança.
Para os artistas representados o Sul que eles desejam (lugar de oportunidade, de visibilidade, de encontro com os pares) é em sentido contrário. O Sul para os artistas do Algarve ainda é a norte, onde o sistema da arte contemporânea tem espessura e se move como um animal vivo.
Dos artistas representados em «Rumo ao Sul» Bertilio Martins é aquele em que as questões do território menos se fazem sentir.
As preocupações que atravessam o seu trabalho estão ligadas ao corpo, à doença, à morte. Embora em alguns momentos o seu trabalho não ignore a sua circunstância as questões que dão forma ao seu corpo de trabalho encontra-as no seu íntimo.
Um exercício retrospetivo confrontam-no com as questões existências, as grandes angústias do homem desde que tem consciência de si. A reflexão sobre a ideia da finitude, emerge na decomposição dos corpos, das memórias que os ossos transportam.
Antes do lápis ou das tintas a paisagem líquida, o azul salgado na pele, os barcos, as redes, o verão a estender toalhas na areia, os corpos de bronze, o inglês como língua profissional. Este poderia ser um resumo biográfico tanto de Bruno Grilo como de Angelo Goncalves cujas vidas são indissociáveis da realidade algarvia.
Não são espetadores. Como alguém que foi, ou estando lá, se limitou a observar o espetáculo do mundo. Pelo contrário. Foram e continuam a ser seus atores. Participaram de forma ativa no negócio do ócio, foram uma peça do mecanismo da paisagem litoral.
A escultura de Bruno Grilo é uma síntese do discurso gráfico que se foi construindo no Algarve e exponenciado, sobretudo, pela indústria turística e que levou à adoção de um catálogo de símbolos onde o sol, o mar, as palmeiras foram convertidos em signos e adotados por hóteis, agências de viagens, restaurantes, discotecas, parques aquáticos, e todo o tipo de comércio fixado na região.
A decomposição das realidades da região até chegar às frações «Sol» e «Mar» representativas de uma certa perspetiva da sua totalidade.
Os seus trabalhos, desenho e instalação, acompanham o estudo académico que desenvolveu e onde procurou ensaiar criticamente sobre a realidade sociocultural do Algarve. A sua produção nesse sentido resulta do diálogo entre o processo investigativo e a experiência do lugar.
A propósito de Angelo Gonçalves escreveu Mirian Tavares que é um artista «…que não aceita as coisas como lhe são dadas – usa os objetos (palavras) banais do quotidiano e com eles cria arte. Uma arte que está em processo desde que ele começou a explorar, de forma mais densa e consciente, as camadas de significação que se ocultam sob os tetos das palafitas, das casas provisórias, da impermanência do que devia ser permanente e sólido».
Luís Marques é o mais novo dos artistas que integram a exposição. Com um percurso ainda recente, mas pautado por alguns momentos que auguram um futuro promissor como é o caso do Prémio Arte Jovem Fundação Millennium BCP 2022».
Os trabalhos selecionados para esta exposição revelam uma atenção à paisagem, a forma como o artista se serve dos elementos da natureza para dizer lugares interiores. Não há neles a intenção de retratar ou estabelecer uma cartografia da região. Os vínculos com o território surgem na medida em que são eles que permitem a «geografia mental» que resulta desse processo de procurar fora as linhas suscetíveis de revelar um «estado interior».
«Rumo ao Sul» não podia acontecer sem trabalhos de Manuel Baptista. Depois da morte do artista, em abril último, a presença dele faz-se sobretudo em jeito de invocação.
Lamentavelmente não teve vida suficiente para os desenhos novos que pretendia expor. Os trabalhos selecionados pertencem ao acervo da Sul Sol e Sal e, neste contexto, «materializam a amizade que nos uniu. O entusiasmo com que acompanhou as nossas iniciativas», diz a editora, em nota enviada ao barlavento.
O protocolo com a Galeria Sá da Costa permitirá, no futuro próximo, a circulação entre o Algarve e Lisboa de artistas representados pelas duas estruturas.

