A «seca severa da primavera» prejudicou quase toda a produção agrícola, sendo a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, divulgou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
Com exceção do limão, os citrinos apresentaram uma redução significativa das produções, explicada pela boa produção do ano anterior e pela seca severa, no Algarve, onde houve restrições na utilização de água para rega.
Nas variedades de laranja tardias, o decréscimo foi da ordem dos 50 por cento, contribuindo decisivamente para a diminuição global de 26 por cento.
Tratou-se da pior campanha de sempre para todas as espécies cerealíferas, de acordo com as Estatísticas Agrícolas de 2023 elaboradas pelo INE, devido aos decréscimos de áreas (exceto cevada) e de produtividades.
A precipitação acumulada no outono/inverno possibilitou alguma recuperação dos níveis de armazenamento das albufeiras e regadios privados, permitindo que a campanha de regadio decorresse com normalidade, adianta.
Apesar de dificuldades pontuais de escoamento e armazenamento do milho para grão, devido à concentração das colheitas antes das chuvas, registou-se um aumento de produção de 7 por cento, face a 2022.
O instituto de estatística refere também que a área de tomate para a indústria foi de 17,2 mil hectares (+13 por cento) e a produção de 1,69 milhões de toneladas (+19 por cento), posicionando esta campanha como a segunda mais produtiva.
Já a produção de maçã foi semelhante à de 2022, embora a região do Oeste tenha registado um decréscimo de 15 por cento.
Em contrapartida, a produção em Trás-os-Montes aumentou cerca de 8 por cento, tendo parte da produção sido desviada para a indústria, salienta o INE.
Quanto à pera, a produção caiu pelo segundo ano consecutivo (-11 por cento, face a 2022), sendo a pior campanha desde 2012 devido as condições meteorológicas adversas.
«A intensificação do fogo bacteriano tem exercido uma pressão acrescida sobre o sector, obrigando ao arranque e abandono de muitos pomares nas zonas afetadas», sublinha o instituto.
Em termos de frutas, a produção de cereja foi de 11,8 mil toneladas, o que corresponde a menos de metade da alcançada em 2022.
Os pomares foram fortemente afetados pelas condições climatéricas adversas que condicionaram todo o ciclo, desde a diferenciação floral, floração e vingamento do fruto até à maturação, lê-se no comunicado.
Já a produção de kiwi caiu 8 por cento, mas a qualidade dos frutos foi muito boa, evidenciando calibres regulares, com reflexo positivo nos preços.
Pelo terceiro ano consecutivo a produção de castanha, por sua vez, foi condicionada por problemas fitossanitários, agravados pelas secas, com impacto na qualidade e quantidade da produção global colhida, que foi inferior em um terço face à média do último quinquénio, conclui o INE.
Segundo o INE, o ano agrícola 2022/2023 em Portugal continental caracterizou-se em termos meteorológicos como extremamente quente, sendo o mais quente desde que há registos sistemáticos (ano agrícola 1931/1932).
A precipitação total foi de 947,8mm, classificando-se como chuvoso, embora a primavera de 2023 tenha sido a segunda mais seca desde 1931 (atrás da primavera de 2009, com 96,3mm) e a mais quente deste século.
Há mais vinho, arroz e azeite
A produção de arroz, por sua vez, registou um crescimento de 15 por cento em resultado dos aumentos de área e, sobretudo, de produtividade.
A produção de vinho aumentou, atingindo os 7,4 milhões de hectolitros, o resultado mais elevado desde 2001.
A produção de azeite ultrapassou os 1,75 milhões de hectolitros (160,8 mil toneladas), o que corresponde à segunda campanha oleícola mais produtiva de sempre.
O consumo aparente de fertilizantes cresceu 38,6 por cento em 2023, justificado em grande medida pelo decréscimo do índice de preços dos fertilizantes (-24,8 por cento).
A carne de animais de capoeira foi a mais consumida (47,2 kg/habitante, que compara com 45,2 kg/habitante em 2022), seguida da carne de suíno (41,7 kg/habitante versus 42,4 kg/habitante em 2022).
Em 2023, o Rendimento da atividade agrícola, em termos reais, por unidade de trabalho ano (UTA), registou um acréscimo (+8,5 por cento).
As estatísticas agrícolas de 2023 podem ser lidas aqui.
Fotos: Bruno Filipe Pires
