O barlavento fez um roteiro gastronómico pelos restaurantes mais icónicos de Silves, onde se respira a tradição e paladares do mar e da serra.
Carregado de cultura, tradição e uma gastronomia típica, Silves tem restaurantes históricos e icónicos com cozinha portuguesa onde os clientes se sentem em casa e saboreiam pratos que ficam na memória.
Esta, que é uma das cidades mais antigas de Portugal e, durante vários séculos, chegou a ser capital do Algarve, transporta-nos diretamente para o antigo reino árabe através do seu castelo e muralhas.
Marisqueira Rui
Ao caminhar pelas ruas de calçada portuguesa há uma paragem obrigatória: a Marisqueira Rui.
É um restaurante conhecido por todos os locais e estrangeiros com portas abertas desde 1977, ano em que Rui Guerreiro, natural de Silves, concretizou o seu sonho de abrir um negócio próprio.
Após trabalhar vários anos na área da restauração, chegou altura de ter um espaço seu e, o que começou por ser uma pequena casa de petiscos, transformou-se num local de referência e muito sucesso no Algarve.
O marisco prima pela qualidade, variedade e frescura e os restantes pratos de peixe e carne não ficam atrás.
«A satisfação do cliente está em primeiro lugar assim como o nosso compromisso com a excelência e a dedicação que nos define,» destaca Sérgio David, filho do proprietário e agora gerente da Marisqueira Rui.
O enorme aquário à entrada do restaurante, com marisco vivo, recebe os clientes que se poderão sentar numa das três salas disponíveis. A sua decoração, com cortiça a forrar as paredes e elementos marítimos, torna o ambiente confortável e familiar.
A simplicidade e leveza são notórias, tanto na informalidade como na descontração dos funcionários que tornam o espaço ainda mais acolhedor.
«Temos um serviço expedito, exigente e profissional. Todos são espontâneos e leais à casa há muitos anos e estão sempre literalmente a correr de mesa em mesa,» comenta Sérgio David.
Como uma boa casa portuguesa, nunca falta pão, com a deliciosa maionese de alho que todos adoram, e cerveja fresca, a escolha ideal antes de uma refeição inesquecível.
Se preferir algo mais aconchegante, Sérgio aconselha cataplana de peixe ou arroz de marisco ou, caso pretenda experienciar o verdadeiro sabor a mar, pode deliciar-se com a mista especial que inclui sapateira, lavagante, lagostins, perceves, búzios, ameijoas, camarão cozido e médio grelhado.
Para acompanhar, a sugestão é de vinho branco ou verde, com opções de todo o país e destaque para Marquês dos Vales, Grace Vineyard, produzido em Estômbar, e Quinta da Pedra Alvarinho, localizada no concelho de Monção.
Como o Algarve é também conhecido pelos seus doces regionais, nada como terminar com um Dom Rodrigo ou uma típica tarte de alfarroba, amêndoa e figo.
Ponte Romana
Quatro anos depois da abertura deste emblemático local, foi a vez de outro que se tornou parte da imagem de Silves.
A Ponte Romana foi inaugurada em 1981 por Aníbal da Conceição Rodrigues, natural de Silves, que quis dar vida à sua casa transformando-a num espaço para todos.
O restaurante, que passou já por três gerações da família, atualmente é gerido pelo filho do proprietário Bruno Rodrigues, que conta com a «figura inabalável e sempre presente» do pai.
Com uma decoração que resulta na fusão do rústico com moderno, extremamente bem conseguida através de elementos nas paredes como troncos de madeira, máquinas de costura e loiças antigas, rodas de carroças recuperadas, coloridas e envernizadas e móveis que nos fazem sentir em casa da avó, somos convidados a envolver-nos num ambiente descontraído e muito hospitaleiro.
Ainda que manter a tradição seja um dos focos desta casa de família, outro é surpreender os clientes com «paladares e fusões novas,» explicou o gerente, que ajuda tanto na cozinha como na sala diariamente.
«A harmonia da frescura das matérias-primas com a singularidade dos pratos confeccionados, tornam a nossa cozinha a cozinha da nossa casa», salientou.
O menu apresenta opções típicas portuguesas como cataplana de peixe e ensopado de cabrito e uma vasta opção de peixe fresco e carne premium grelhados no carvão.
Para partilhar, há três deliciosas e bem servidas mistas: mirandesa, terra e mar ou de porco preto e, para garantir um serviço eficiente num restaurante amplo que por norma está cheio, todos dias são apresentadas sugestões com confecção rápida.
Nas bebidas, a aposta é em vinhos produzidos no concelho de Silves, como o Dito Cujo e o Paxá, o que agrada igualmente clientes locais como estrangeiros que regularmente frequentam esta casa.
A sobremesa caseira é indispensável, podendo optar por um doce tradicional como mousse de chocolate, tarte de amêndoa ou bolo de bolacha ou arriscar um cheesecake de abacate e lima ou pera bêbeda.
Com o intuito de oferecer um serviço personalizado em eventos, a Ponte Romana dispõe de uma sala adjacente preparada para receber grupos até 250 pessoas e uma ampla área exterior repleta de laranjeiras, que nos faz sentir no jardim de uma bonita casa de campo.
A paixão pelo negócio e vontade de prestar o melhor serviço, levou a família Rodrigues a abrir no mesmo espaço um alojamento com vista para a cidade e para o rio, onde o conceito se assemelha ao do restaurante e conta com piscina e pequeno-almoço incluído.
Recanto dos Mouros
A celebrar 25 anos de trabalho em família está o Recanto dos Mouros, com uma maravilhosa vista para o Castelo, que também conquistou o seu lugar como uma referência de Silves.
À semelhança dos icónicos restaurantes anteriores, é igualmente o filho do proprietário a assumir a gestão do estabelecimento. Em criança, Vasco Grave, viu os seus pais, Idalina e Manuel, converter o armazém agrícola da sua casa num restaurante que até hoje mantém essa estrutura.
Apesar de estarem reformados continuam a marcar presença no local, que tem duas salas e espaço exterior, e a certificar-se de que tudo corre na perfeição, movidos pela paixão e dedicação ao negócio.
«A minha mãe é o motor do sucesso, a presença dela na cozinha é extraordinária, tem um dom para criar pratos, e o meu pai era indispensável no balcão do bar,» conta Vasco.
Ambos contam com uma equipa estável como se de família se tratasse. O chefe de sala, Vítor Silva, trabalha no Recanto dos Mouros desde que abriu e são vários os funcionários que se mantêm ao longo de uma ou duas décadas.
«Fomos crescendo, fazendo o nosso caminho e ganhando maturidade, o que nos foi dando cada vez mais clientes, maioritariamente residentes,» reflete Vasco ao frisar que sempre mantiveram a tradição de servir comida regional, tanto carne como peixe.
«Temos uma identidade própria que assenta num ambiente familiar e de proximidade com os clientes,» menciona o responsável ao revelar que «o trabalho é sempre feito com alma, gosto e esforço».
Ao longo dos anos, nem a decoração – com objetos que faziam parte da vida no campo – ou o menu sofreram alterações significativas, com pratos que trazem sabores do mar e terra à mesa e tornaram-se imagem do restaurante como o ensopado de borrego, feijoada de buzinas e javali à casa.
No entanto, há também opções modernas e inovadoras como o bacalhau em lascas enformado com grelos e broa e outras particulares como o ensopado de enguias.
Todos dias existem deliciosas sugestões que fazem jus à região e à época do ano. Nesta altura, ao fim de semana, é servido cozido à portuguesa, prato que é alterado no verão.
O que não difere desde a abertura é o saboroso doce da casa, com canela e gema de ovo no topo. Nos vinhos, é dada preferência à produção local, como o Branco Longo e Odelouca, e existe ainda a opção de experimentar o vinho da casa, tinto, branco e espumante, «Recanto dos Mouros», produzido no Monte do Remanso, no Alentejo.
Mais do que espaços para uma refeição, estes três restaurantes carregam valores genuínos de pessoas da terra responsáveis por negócios familiares que passaram de geração em geração e não podiam ser melhor homenagem às suas raízes.
Fotos: Hélio Ramos




