Rendas elevadas estão a levar famílias sem laços familiares a partilhar casas sobrelotadas, num contexto de salários baixos e dificuldades crescentes no acesso à habitação.
A crise na habitação em Portugal está a obrigar famílias diferentes a partilhar a mesma casa, mães a dividir o quarto com as filhas e pessoas a viverem com estranhos, segundo relatos recolhidos pela Lusa.
«Mesmo dividindo a casa com outras pessoas fico um pouco aflita [de dinheiro]. Eu preferia ter uma casa minha com a minha família por um preço menor porque este custa a pagar», queixou-se Vitória Silva (nome fictício), em conversa telefónica com a Lusa.
Cozinheira, de 46 anos, vive com o namorado, construtor civil, de 50 anos, e com a filha, de 14 anos, em Loures, distrito de Lisboa. Para conseguir pagar uma renda de 1.200 euros por mês, divide a casa com outra família há quase dois anos.
Cada casal paga 600 euros e todos vivem com o salário mínimo, de 920 euros, exceto a mãe da outra família, que recebe cerca de 300 euros por trabalhar em regime de part-time e estar grávida. Essa família tem ainda duas filhas, de 9 e 11 anos.
A sala foi transformada num quarto para o casal à espera de bebé, por ser a maior divisão do T3. Segundo contou Vitória Silva, cada família compra os seus bens essenciais, existem dois frigoríficos e duas casas de banho, e o espaço é dividido como possível.
«Às vezes falta comida, produtos de higiene e, como não temos máquina de lavar roupa, usamos a banheira», disse.
No Porto, Gabriela Gonçalves (nome fictício), também cozinheira, de 43 anos, ganha cerca de 900 euros e dorme no mesmo quarto que as duas filhas, ambas com 16 anos.
«Eu com esse salário não consigo alugar uma casa maior. Não tenho como, porque os preços estão nos 800, 900 euros por aí em diante», afirmou. Vive num T1 desde 2021, depois de ter saído da casa de familiares.
Segundo relatou, o senhorio compreendeu a sua situação e reduziu a renda de 700 euros para 350 euros. Ainda assim, reconheceu que «para três pessoas é apertado», sobretudo tratando-se de adolescentes que precisam de espaço para estudar.
«Uma já estudou e quer ir dormir, mas a luz tem de estar acesa para outra estudar», contou Gabriela Gonçalves, que está também a tentar concluir a licenciatura em Serviço Social, pagando cerca de 300 euros de propina com apoio de uma bolsa.
Situações como estas são acompanhadas pela coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), Maria Vicente, que refere a existência de muitos casos de famílias monoparentais com dificuldades em suportar os custos da habitação.
À Lusa, explicou que essas famílias enfrentam também problemas relacionados com as condições das casas, como humidade, infiltrações e falta de espaço.
Também o porta-voz do movimento Porta a Porta – Casa para Todos, André Escoval, indicou que há casos de seis famílias a partilharem a mesma habitação, trabalhadores que acumulam um terceiro emprego ou pessoas que passaram a viver com estranhos para conseguirem pagar a renda.
Um desses casos é o de Carlos Nunes, de 63 anos, residente em Setúbal, que vive num apartamento partilhado da Caritas Portuguesa com mais quatro desconhecidos.
Carlos Nunes contou à Lusa que era proprietário de uma agência de viagens e foi obrigado a fechar o negócio em 2020, devido à pandemia de COVID-19. Atualmente trabalha como segurança e, com horas extra, aufere cerca de 900 euros por mês.
«É difícil arranjar uma casa com uma renda acessível», afirmou, explicando que os preços praticados na região são superiores ao seu ordenado. «Aquilo que ganho não chega para nada», acrescentou.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as rendas das casas por metro quadrado aumentaram 4,9% em dezembro de 2025, face ao mesmo mês de 2024, e registaram uma variação média anual de 5,3% ao longo do ano passado.
Portugal registou ainda a segunda maior subida homóloga dos preços das casas, de 17,7%, no terceiro trimestre de 2025, acima da média da zona euro, de 5,1%, e da média da União Europeia, de 5,5%, segundo dados divulgados pelo Eurostat a 09 de janeiro.